h1

Pra você

19 novembro, 2014

Se você não tem um céu
eu te prometo achar
um lindo dia de sol
e uma noite de luar

Se você não tem um mar
oceanos vou buscar
e das águas os azuis
eu vou te dar

Mas se você está sozinho
eu irei ao teu encontro
onde quer que você esteja
pra te dar o que eu tiver

sandra barbosa de oliveira

h1

O voo do poeta

13 novembro, 2014

Manoel de Barros
não foi um poeta…
foi um passarinho.
Seus poemas, passaredos…
Sombras, alamedas em tristeza…
tristes as folhas,
o chão,
da terra, o emanar do perfume
das palavras que ficam.
Foi o homem das palavras cantadoras.
Mas sua terna voz trinará para sempre,
em seu eterno ninho
haverá de cantar.

minha homenagem ao poeta passarinho

Sandra Barbosa de Oliveira

h1

Em um relacionamento sério

21 outubro, 2014

Certas provocações, por certos “espiões” nas redes sociais, demonstram a fragilidade dos relacionamentos ditos “sérios”. Eu sei muito bem que quem viveu um relacionamento falido (e como sei) … ou vive um relacionamento de via única, onde não há reciprocidade no amor, a necessidade de espionar, de controlar e de invadir a privacidade do outro se faz como autoafirmação mas isso não muda em nada o status da relação. (triste experiência) …
O que se vende socialmente, na verdade, não é o sentimento real e sim uma necessidade antiquada de se manter as aparências, o que não condiz em nada com “o individualismo contido nas relações líquidas” dos tempos atuais (nas palavras de Sigmunt Bauman).
Portanto, a necessidade de manter a vida de um companheiro mediante investigação já é um sério sinal de que a hora de por um ponto final está próxima.
Coração é um caso sério. Mesmo a cabeça não querendo, o que acontece em pouquíssimos casos, quando o coração trai não tem conserto. Por isso é sempre bom pensar duas vezes antes de abrir mensagens “inbox” do cônjuge. Porque se a necessidade de espiar for maior do que a confiança, é melhor que um dos dois devolva com dignidade a chave da porta da frente. Porque o tal “relacionamento sério” …
… já era!

Sandra Barbosa de Oliveira

h1

Interrompendo as Buscas

16 setembro, 2014

Martha Medeiros

- “Assistindo ao ótimo ‘Closer – Perto demais’, me veio à lembrança um poema chamado ‘Salvação’, de Nei Duclós, que tem um verso bonito que diz: “Nenhuma pessoa é lugar de repouso”.

Volta e meia este verso me persegue, e ele caiu como uma luva para a história que eu acompanhava dentro do cinema, em que quatro pessoas relacionam-se entre si e nunca se dão por satisfeitas, seguindo sempre em busca de algo que não sabem exatamente o que é. Não há interação com outros personagens ou com as questões banais da vida. É uma egotrip que não permite avanço, que não encontra uma saída – o que é irônico, pois o maior medo dos quatro é justamente a paralisia, precisam estar sempre em movimento. Eles certamente assinariam embaixo: nenhuma pessoa é lugar de repouso.

Apesar dos diálogos divertidos, é um filme triste. Seco. Uma mirada microscópica sobre o que o terceiro milênio tem a nos oferecer: um amplo leque de opções sexuais e descompromisso total com a eternidade – nada foi feito pra durar. Quem não estiver feliz, é só fazer a mala e bater a porta. Relações mais honestas, mais práticas e mais excitantes. Deveria parecer o paraíso, mas o fato é que saímos do cinema com um gosto amargo na boca.

Com o tempo, nos tornamos pessoas maduras, aprendemos a lidar com as nossas perdas e já não temos tantas ilusões. Sabemos que não iremos encontrar uma pessoa que, sozinha, conseguirá corresponder 100% a todas as nossas expectativas ¿ sexuais, afetivas e intelectuais. Os que não se conformam com isso adotam o ‘rodízio’ e aproveitam a vida. Que bom, que maravilha, então deveriam sofrer menos, não? O problema é que ninguém é tão maduro a ponto de abrir mão do que lhe restou de inocência. Ainda dói trocar o romantismo pelo ceticismo, ainda guardamos resquícios dos contos de fada. Mesmo a vida lá fora flertando descaradamente conosco, nos seduzindo com propostas tipo “leve dois, pague um”, também nos parece tentadora a idéia de contrariar o verso de Duclós e encontrar alguém que acalme nossa histeria e nos faça interromper as buscas.

Não há nada de errado em curtir a mansidão de um relacionamento que já não é apaixonante, mas que oferece em troca a benção da intimidade e do silêncio compartilhado, sem ninguém mais precisar se preocupar em mentir ou dizer a verdade. Quando se está há muitos anos com a mesma pessoa, há grande chance de ela conhecer bem você, já não é preciso ficar explicando a todo instante suas contradições, seus motivos, seus desejos. Economiza-se muito em palavras, os gestos falam por si. Quer coisa melhor do que poder ficar quieto ao lado de alguém, sem que nenhum dos dois se atrapalhe com isso?

Longas relações conseguem atravessar a fronteira do estranhamento, um vira pátria do outro. Amizade com sexo também é um jeito legítimo de se relacionar, mesmo não sendo bem encarado pelos caçadores de emoções. Não é pela ansiedade que se mede a grandeza de um sentimento. Sentar, ambos, de frente pra lua, havendo lua, ou de frente pra chuva, havendo chuva, e juntos fazerem um brinde com as taças, contenham elas vinho ou café, a isso chama-se trégua. Uma relação calma entre duas pessoas que, sem se preocuparem em ser modernos ou eternos, fizeram um do outro seu lugar de repouso. Preguiça de voltar à ativa? Muitas vezes, é. Mas também, vá saber, pode ser amor.

h1

Desalento

1 junho, 2014

Estar-te longe
longamente
noite estejas

Na tua voz eu ouço
a rouca Insensatez
e reconheço

Ao por do sol
Arpoador
em dor
só pensamento

Ao te perder
da vista
um mar em desencanto

Num canto escuro
eu conto um pouco
e um tanto assim
um desencontro

As águas a subir
e o sol se esconde
é noite em ti
em mim só um lamento

E eu aqui
poder sonhar
enquanto cantas

Um desalento.

(Desalento – Sandra Barbosa de Oliveira)

h1

* mostrando a cara do Brasil

1 junho, 2014

image

Não me convidaram
Pra esta festa pobre
Que os homens armaram
Pra me convencer
A pagar sem ver
Toda essa droga
Que já vem malhada
Antes de eu nascer

Não me ofereceram
Nem um cigarro
Fiquei na porta
Estacionando os carros
Não me elegeram
Chefe de nada
O meu cartão de crédito
É uma navalha

Não me sortearam
A garota do Fantástico
Não me subornaram
Será que é o meu fim?
Ver TV a cores
Na taba de um índio
Programada
Prá só dizer sim

Grande pátria
Desimportante
Em nenhum instante
Eu vou te trair
Não, não vou te trair

Brasil
Mostra a tua cara
Quero ver quem paga
Pra gente ficar assim
Brasil
Qual é o teu negócio?
O nome do teu sócio?
Confia em mim

(Cazuza)

h1

o poeta em mim

24 maio, 2014

*

Abro janelas e portas em mim

e me espio e saio e me tranco

 

Trancafiar-me em minhas razões

me dói mais do que não tê-las

 

As trancas e as trincas de mim

me apertam e me dilatam

 

Se me tranco eu não sei

se estou dentro 

ou se estou fora.

 

(Sandra Barbosa de Oliveira)