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Uma saga

1931 – parte 1

Minha família é quase toda de imigrantes.
As avós são filhas de italianos, uma nascida em Cremona, na Itália e a outra em New York. Vieram crianças para o Brasil. Se casaram com brasileiros descendentes de portugueses, as duas. “Portugueses” no Brasil já significa uma mistura racial efetiva. Minha bisavó paterna era índia, foi laçada pelo marido pra casar.
Minha avó novaiorquina se casou com o caboclo, muito jovenzinha ainda. Ele, um cara a frente do seu tempo. Tiveram 3 filhas e meu pai o caçula, a quem, não à toa, foi chamado “Ruy Barbosa”. Haveria de ser médico para seguir os passos do pai. Mas meu avô, prático de farmácia e parteiro, acabou se metendo em política e nomeado por Júlio Prestes, na época “presidente da província”, dono do cartório do lugarejo onde viviam na região de São José do Rio Preto: o “velho-oeste” paulista! …
Mas foram estas questões políticas e/ou passionais – mal se sabe – que vieram a interromper o ciclo. Numa manhã de domingo, ao buscar os jornais que chegavam na estação, com meu pai menino de 1 ano e meio no colo, meu avô, com apenas 33 anos, fora baleado e morto por um pistoleiro que seguiu viagem no trem. O cartório foi incendiado, a farmácia perdida para o sócio. Como sobra, minha avó sozinha numa cidadezinha minúscula do interior de São Paulo, aos 26 anos e seus 4 filhos, dois anos após a depressão de 1929 ter levado, em decorrência da ruína dos negócios, a família para Jundiaí.

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1939 – parte 2

O menino teve uma infância feliz, apesar da caristia, declara ele hoje, aos 82 anos. A mãe recebia alguma ajuda dos mais próximos, mas era pouco. Ela era especial. Uma mulher abnegada às forças do destino, entregue a um futuro solitário, fiel ao companheiro morto. Vestia preto, viveu seu luto por toda a vida. Mas o menino era brilhante. Fez valer o nome ilustre lhe confiado pelo pai ao nascer. Com menos de nove já ajudava a professora a ensinar os colegas da turma, num interior longíncuo onde as crianças viviam com grandes dificuldades para aprender, mas as professoras eram dedicadas e muito preparadas. Aos nove anos veio se juntar aos outros, com a mãe e as irmãs, em Jundiaí. Aceito pelo prof. Paulo Mendes Silva em pessoa para ingressar no grupo escolar, vendia balas no bar de propriedade do avô, dentro do Cine República. Com ajuda inicial de um dos tios, foi o melhor aluno durante todo o tempo em que estudou e aos 14 anos, passou a bancar sozinho seus estudos no curso ginasial na Escola Padre Anchieta onde aos pouco mais de vinte anos fora convidado pelo prof. Fornari, dono da escola, para ensinar no curso de contabilidade. Menino pobre criado entre a Vila Arens e a Vila Progresso, trabalhou em São Paulo, morando em pensão por 3 anos e casou-se aos 23 com a nona filha de minha avó nascida em Cremona, na Itália.

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1953 – parte 3

Depois de casados, meu pai levou minha mãe para morar na Vila Arens. Ele já havia assumido um cargo de confiança numa grande indústria de pernas bambas, como sub-contador e dava aulas no curso de contabilidade à noite. Pouco depois do nascimento de meu irmão mais velho, a família foi morar numa casa da fábrica na Vila Rami para juntar o dinheirinho e comprar a primeira casa, pouco antes de eu nascer, um sobradinho minúsculo e simpático na Rua Padroeira bem lá embaixo, perto da linha do trem, ao lado da entrada lateral da Esportiva. Para comprar uma casa um pouquinho maior, fomos nós de novo morar na casa da fábrica na Vila Rami. E foi assim que, de degrau em degrau, com muito trabalho, meu pai foi crescendo, até se tornar o contador-sócio ao lado de outros funcionários, da “massa falida” da empresa em que trabalhava até conseguirem sair do buraco e fazê-la se tornar uma entre as maiores indústrias cerâmicas de louça sanitária do país, vendida já há muitos anos para uma multinacional.
E vem daí a minha fama de princesa. Mas de princesinha mesmo, eu sou só a fantasia e os sonhos de menino, porque me orgulho mesmo é ter tido uma avó humilde e doce que muito me ensinou a respeito dos verdadeiros valores da vida e a saga de meu pai herói a caminho do sucesso e da vitória por seus méritos intelectuais.

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1970 – parte 4

Aos 40 anos, depois de ser um grande industrial, o pequeno menino que presenciou a morte do pai sem sequer entender aquela perda, ingressou no curso superior de contabilidade, estudou na Fundação Getúlio Vargas e passou a dar aulas na Faculdade de Administração, Economia e Ciências Contábeis, tendo tido alunos do calibre de Max Gehringer, um dos papas em gestão empresarial do Brasil. Hoje, aos 82 anos, Ruy Barbosa de Oliveira é um dos grandes nomes em auditoria contábil e tributária no estado. Consultor, professor e doutor por excelência dos mais conceituados na cidade que o acolheu. Jundiaí, SP.

………………………………………………Fim

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