crônica, Cultura, música, momentos, poemas, Sandra Barbosa de Oliveira 2, teatro do absurdo

O Palhaço I

*

Eu sou um palhaço

da vida

Alegria criança

E riso, e riso

tristeza coração.

Eu sou um palhaço da vida

ela acha graça de mim

e sonho, e sonho

chorando sempre.

Eu sou um palhaço

da vida…

e quero morrer

um palhaço !…

Escrito em setembro/79

*


Egberto Gismonti – Palhaço

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Cultura, Sandra Barbosa de Oliveira 2

Num segundo sem Cássia Eller

Foi como um estrondo caído do céu.
O sol estava tímido apesar de o calor intenso.
A sala clara. Dia de não fazer nada, mais um ano jazia à nossa porta.

Quando, de repente, tudo o que ninguém precisava ouvir naquela hora.

Cássia Eller está morta!

Vítima não sei de quê, numa clinicazinha fajuta do bairro das Laranjeiras, na zona sul do Rio, onde morava.

Não dava pra acreditar porque tínhamos estado com ela em seu último show dias antes.

No palco, num cenário de rosas, uma única flor reluzia linda como eu jamais havia visto nada igual.
Estava ali representada uma mulher singela e tímida, que me mostrava uma pureza da alma de um anjo.
O seu olhar, naquele dia, da profundeza deixava escapar um sorriso raro entre os lábios e com uma enorme delicadeza desnudava um ser feminino com uma sensualidade que se deixava aparecer em cada movimento, num sorrir… num olhar… como jamais era visto em seu erudito gesticular masculino.

Dos bastidores, eu apreciava aquela voz rouca, um instante mágico que eu jamais imaginei estar sendo o último.
A Cássia, como ninguém, emitia uma magia, uma transgressão intrigante, uma clássica coragem de ser aquilo que pensa…parecia não ser deste mundo real…..

Mas no fim do show, pedindo licença à minha timidez e à dela, abri meu coração e mandei de uma única voz:

_ Que mulher era aquela, no palco, hoje…? Linda, singela! que sorriso era aquele?

E no melhor estilo “moleque de rua”, recebi um tímido abraço, com um tímido sorriso, numa estritamente tímida despedida!

É difícil acreditar até hoje no que me ficou gravado daquele momento.
Das palavras que a gente sempre deixa de dizer, do sentimento que deixamos de demonstrar. Do deixar pra falar depois….deixar pra depois……que depois?

Se não tivesse falado com a Cássia naquela hora, estaria com as palavras intaladas na garganta, com uma tristeza ainda maior no meu peito…não me perdoando por não ter dito, por ter me privado daquele carinhoso abraço…

A morte da Cássia é uma revolta. Um vazio. Uma voz calada deixada de herança.

Por quê Cássia morreu…???…

escrito e publicado às 08:29h de um domingo em 15 de junho de 2008

Esse vídeo foi retirado do ar por proteção aos direitos autorais. Justo.
Gostaria de prestar esclarecimentos a respeito de o  porquê de sua utilização, até certo ponto ilegal, reconheço.
Este blog não tem nenhum  interesse comercial e seu conteúdo é inspirado em questões estritamente pessoais, que envolvem a autora e os artistas em questão. Estávamos envolvidos com a Cássia na ocasião de sua morte, o que nos causou grande  comoção (nacional inclusive). Meu marido está no vídeo.  É o pianista.  Os músicos são todos nossos amigos.  A Cássia estava felicíssima com este convívio.  Com o resultado do trabalho.  Ela morreu.  Nos restou a tristeza.  Meu intuito foi apenas de  homenageá-la. Nada mais.
O vídeo rola no youtube livremente. Tem quem tire proveito material com essa morte prematura, o que não é o caso.   Mas  em respeito ao Chico, seu único filho, herdeiro e  detentor  legal de tudo o que pertenceu a ela, deixo aqui meu pedido de desculpas.  Se é que causei algum mal.
Atenciosamente

https://elementolingua.wordpress.com

Postado em 07 de outubro de 2009,  numa manhã chuvosa de primavera.
Sandra Barbosa de Oliveira 2

Baile do Zé

Num estreitamento de relações, eu e o Bourbon Street, uma das mais charmosas casas de Blues de São Paulo, estamos vivenciando um caso de amor. Apesar de me achar um tanto quanto suspeita pra falar, saí de lá na noite de ontem, desfeita e refeita.
No palco, um amigo com seu amigo: o carioca Zé Ricardo e o americano Victor Brooks abrilhantaram um maravilhoso baile de soul and blues and samba and xote, com repertório que passeou, entre Luiz Gonzaga e Jackson Five e toda uma gama de sucessos dançantes que fizeram da noite uma gostosa balada romântica dos anos 70.
Sobre Victor, o comentário se dispensa, ele está entre os mais brilhantes da “soul music” internacional!
Sua voz cadenciada com balanço e repertório faz com que o show evolua em perfeita harmonia. O casamento com Zé Ricardo é perfeito. Amigos há muitos anos, compartilhando arranjos, cantando ora em português , ora em inglês, os dois dão um baile no baile, com um show despretencioso onde se colocam na posição de intérpretes daquilo que gostam.
De presente, os dois descem do palco, cantam e dançam no meio do público, o que faz da festa, literalmente “de bem com a vida, de rosto colado, abraçando apertado, que delícia viver!”
Com intimidade, os músicos da banda mantém a dinâmica do show com precisão, o que garante o seu pulsar do começo ao fim.
Não bastando, contamos com a participação de Lica Cecato, que também está de bem com a vida, e finaliza dois Cds de uma só vez, cheios de feras e surpresas e que deverão ser lançados no segundo semestre.

Sobre o Zé eu nem preciso dizer nada. Ele bem sabe o quanto querido ele é e o quanto todos nós aqui de casa curtímos e respeitamos o seu trabalho. Passa para o âmbito da vida pessoal, passa para as coisas do coração!

Beijo pra Reka e Tom!

escrito em 02 de maio de 2008

outros autores

Trabalhe em torno de seu abismo

Há, no seu eu, um buraco profundo, como um precipício.
Você jamais conseguirá preencher esse abismo, porque suas demandas são inesgotáveis.
Você terá que trabalhar em torno dele de modo que, aos poucos, ele se feche.
Uma vez que o buraco é tão grande e sua angústia tão profunda, estará sempre tentado a fugir dele.
Há dois extremos que devem ser evitados:
Estar totalmente absorvido pela sua dor e, permitir que muitas outras coisas o distraiam e o afastem da ferida que quer cicatrizar.

Henri J.M. Nouwen

 

Sandra Barbosa de Oliveira 2

Sobre o abismo

O quê eu poderia falar sobre o abismo?

Que é um buraco sem fim imensamente assustador?
Um cair infinitamente sem chão?
Aquele deslize momentâneo impossível de se livrar?
Um passo em falso para lugar nenhum?
Um lugar neutro onde colocamos as pessoas que amamos quando queremos fazer algo sem que elas vejam?
Outro lugar neutro de onde jamais conseguimos tirá-las?
O mesmo lugar para onde pulamos depois, sem sequer olhar?
Aquele mesmo de onde jamais conseguimos sair?
O que é o abismo afinal?

ABISMO:

1- Cavidade geralmente vertical com abertura na superfície da terra e fundo desconhecido.
2- Mistério, escuridão, ruína.
3- Situação difícil, distância extrema, último grau, extremo.

escrito e publicado às 00:22h, de não me lembro quando …

Sandra Barbosa de Oliveira 2

O outro

Como fazer para lidar com interpretações de identidades definidas por conceitos da visão subjetiva sendo que, em algum momento, paira sobre nós uma questão não tão compreensível: a relação com o outro.
A questão é: qual é o papel do outro em nossa vida?
O outro é o desconhecido, o enigmático. Um complemento, nosso lado oposto… o lado de fora; uma visão por outros olhos.
Tudo com relação ao outro é diferente em relação a nossa própria visão de mundo.
A individuação se contrapõe às necessidades do coletivo.
A pós-modernidade colocou o individuo a reserva de tudo o que não diz respeito aos seus conceitos interpretativos. 

O outro entra em afrontamento ao querer individual.
Como a visão de mundo, os conceitos adquiridos, a verdade, o conhecimento, a essência, tudo o que existe em nós é alheio ao outro…

Tudo o que não somos é o outro, e nos cabe à inobservância da exteriorização desse novo conceito. O que eu não vejo eu ignoro. O que não está em mim não existe.

 O individual num estado de ser absoluto. O meu entendimento, o meu discernimento acerca do que me basta. O outro serve de adorno. Faz parte da paisagem.
O outro é o lado de fora, outra realidade, o que eu não consigo ver em mim, e que diretamente me foge ao entendimento, um interagir quase indecifrável.
Meu discurso me atende e às necessidades do que eu sou, e o outro não me cabe em lugar nenhum.
Isto é o que o mundo nos impõe. Isto é o que o agora nos impõe.

outros autores

Cordilheira


(foto Sandra Calasans)

quitandinha 1


Bocejar
Dia claro, vida a verdejar
Luz por entre os cachos amarelos do Ipê
Deu pra ver
Você me tocou sem perceber
Você nem me olha
E eu não posso te esquecer

Creio em ti
Se for ilusão, que Deus me guie
O que não fazer pra se merecer tal mulher
Cerração
Noite na janela meu querer
Porque te venero, sempre espero por você

Por sobre a cordilheira, o arco-íris
Meu corpo treme ao pensar no seu, frenesi
Te quero,
Mesmo pra te dar sem ter retorno
Te quero assaz
Te quero assim
Te quero pra mim

Escada pro pecado, caso de amor
Teus lábios tão sonhados
Vão me ter sempre aqui
À espera de um olhar que faz
Dia romper
O céu cair
Noite fechar
E faz o meu ar desaparecer.

O luar que eu vi no lago azul
Daria pra você
O luar que eu vi no lago azul
Num instante se escondeu

Djavan