Sandra Barbosa de Oliveira 2

A dialética de Caetano

Parte 1

Dentro da arte de dialogar, o discutir em defesa das próprias idéias garante sucessivos conflitos de opiniões que podem gerir novos conceitos a respeito do objeto em questão. E é nesse processo discursivo que se enquadra a definição de dialética.

Então, a despeito da definição de dialética, contrapõem-se diversas teorias, desde os tempos de Sócrates até os imediatos do século 21, em que filósofos e estudiosos das ciências sociais e políticas, pensam e repensam a sua sucetividade em torno do seu próprio conceito. Em suma, a dialética aplica a si mesma todo o movimento que designa ao campo das idéias.

Pensando assim, e associando a dialética ao discurso lógico, à hermenêutica e à lógica enquando argumentação, desde que seja a  discussão ininterrupta, é que se pode gerar uma conclusão a respeito do conflito.

Enfim,  posso dizer da minha epopéia em tentar argüir uma obra com seu autor, um privilégio que tive de contra-argumentar uma idéia com o nada pouco polêmico Caetano Emanuel Viana Teles Veloso.

Num cenário de pré-carnaval, a convite de Gil e Geléia Geral, num estúdio de ensaio em Salvador (fevereiro de 1997), por onde transitaram, Ivete, Daniela, Gal, Baby, Pepeu, Lulu, Milton, Djavan, Elba, Margareth, Dominguinhos, Mautner entre outros muitos músicos e artistas que  buscavam seus melhores tons para dar voz à grande festa tropicalista que se faria alguns dias depois, fui abordada pelas duas “backing vocals” da banda formada por Gil a respeito da  letra de uma das músicas que Caetano acabara de gravar:

“Não enche!”.  Uma letra agressiva  não só aos ouvidos como a qualquer ser, animado ou inanimado, em que o gênero admita a terminação “a”.

Fui a porta voz e questionei com um pedido de explicação.

Com sua letra um tanto quanto extravagante, a canção “Não Enche” diz tudo. Um autor de saco cheio, cansado de ser perseguido, criticado cruelmente durante anos, autuado junto ao seu legado a todo tipo de patifaria, oral e escrita, afirma com todas as letras a algumas testemunhas que dedicou toda a sua ira ali expressa ao seu maior desafeto: a Imprensa.

E com um ar nada menos patife, brinca com a irritação das mulheres alegando que ao chegar com a música em casa, diante da reação de sua mulher aos apelos machistas do poema, estendeu-a dizendo que o capuz poderia servir a quem quisesse, apesar de serem tão boas as suas intenções.

Parte 2

Porém, naquele dia, em respeito às imposições da hora, tive que me calar e  perdi a oportunidade de complementar meu raciocínio. Mesmo segura das minhas convicções precisei deixar de expor meus argumentos.  Eu estava fora de lugar.

Fiquei sem a conclusão do meu conflito, abandonei a hermenêutica, o discurso lógico, a lógica, as teorias, os conceitos e a dialética de Caetano.

Mas o que eu queria saber naquele momento, e faço a pergunta aqui e agora,  era que se, num  país como o nosso, diante da violência instigada, de tanta  violência contra a mulher, mediante toda a ignorância e falta de instrução, a população que ouve rádio e vê telenovela sabe dicernir se os insultos contidos na letra desta canção são mesmo para selar a  excêntrica, estúpida e polêmica relação de Caetano com a Imprensa.

???

Em tempo: Caetano Veloso, a meu ver,  além de ser uma das grandes expressões da música, no Brasil e no mundo, está entre os maiores formadores de opinião deste país.

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5 comentários sobre “A dialética de Caetano

  1. Lica querida, muita saudade de vc em primeiro lugar… mas as palavras foram dele. Quem se antecipou em falar que havia feito a letra pra imprensa foi ele mesmo. Sabe como é … coisas de Caetano !!! … rsrsrsrs …

  2. Sandroca, tô lendo vc, mas… o artista faz sempre algo auto-biográfico…. naquela época, o Caetano estava desengravatando o lance dele com a Paulinha, se sente e se sabe….. ele diz do casal, ele deplora a relação dele com ela, uma coisa a dois, que ele faz pública, também pq vem dele, que além de figura pública, estava passando uma coisa pessoal…. não é pra desculpar o Caetano, mas admiro essa coragem de dizer-se o que se sente, mesmo que for assim tão íntimo, numa espécie de exorcismo ateu, em público e sem ter medo de ser jogado na fogueira…. ele não se refere a todas as mulheres…. ele manda pro inferno AQUELA mulher NAQUELA hora. acho… posso estar errada, mas sinto que não dá pra estender a ninguém a não ser aquela sua partner. quanta gente não entende o que se fala nas canções? vc tem vivência musical e SABE. como compositora, acho que nossa responsabilidade é gde, como mulher que ama e torce pelas mulheres, entendo o que vc quer dizer…mas falando em dialética, vamos pro Q da questão: não acho que Caetano se refira à imprensa, e sim à Paula Lavigne. Vc acaha que pode ser?

  3. Obrigada, Milena, por sua visita e suas palavras são muito bem-vindas. Só quero dizer que apesar do respeito que tenho pelo trabalho do Caetano, e de admitir a sua genialidade, continuo achando que quem tem a mídia nas mãos tem que saber fazer uso dela…e pro bem. Certa vez ouvi um comentário do Milton Nascimento sobre a responsabilidade e o poder de quem tem um microfone aberto nas mãos. E é por isso que levanto aqui essa discussão sobre o poder de persuasão dos formadores de opinião. Quem tem o poder da fala tem que saber o que falar, e ser responsável por seu conteúdo.
    Grande abraço.

  4. Realmente, e associada então a personagem de Camila Pitanga, no horário nobre da Rede Glogo, que tinha todos os adjetivos da canção, fica difícil digerir a real intenção do autor.

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