O poeta

Era um poeta.
Entrou e se sentou sem pedir licença e já foi pedindo um café passado na hora.
E depois das rusgas de mau humor, se desculpou de sei lá o quê e já foi falando o quanto me amava, mas não deu pra acreditar. Com o perdão da redundância sou incrédula no amor, e só se fosse muito burra pra não enxergar que eram pobres as intenções. Mas deixei pra lá porque não estava nada carente, nada precisada.
Por isso, com muita calma e atenção, fui dando linha só pra ver até onde chegaria com aquela voz aveludada de sotaque enfático e com dicção quase que mais que perfeita, não fosse aquele delicioso sibilar, hora ou outra, a fazer volúpias sonoras ao pé do ouvido.
Me ganhara pela voz e pela escrita, simplesmente.
Mas mesmo assim fui analisando seu caráter de algodão que do olhar desatinava apenas pelo descaramento de me despir com o olhar cor de mar sem pudores, enquanto lhe servia o café fresco.
Ai, ai, ai … se não fosse pela voz e pela escrita …
Mas toda mulher sabe o quanto a canalhice de um poeta é atraente, pois são dos canalhas as melhores vozes, e dos poetas as melhores métricas.
Depois de me contar muitas histórias e de me falar de amor, de me comer com o olhar e lamber os lábios de café …

Levantou-se, o poeta, e foi embora …

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Infância

Carlos Drummond de Andrade

Meu pai montava a cavalo, ia para o campo.
Minha mãe ficava sentada cosendo.
Meu irmão pequeno dormia.
Eu sozinho menino entre mangueiras
lia a história de Robinson Crusoé,
comprida história que não acaba mais.

No meio-dia branco de luz uma voz que aprendeu
a ninar nos longes da senzala – e nunca se esqueceu
chamava para o café.
Café preto que nem a preta velha
café gostoso
café bom.

Minha mãe ficava sentada cosendo
olhando para mim:
– Psiu… Não acorde o menino.
Para o berço onde pousou um mosquito.
E dava um suspiro… que fundo!

Lá longe meu pai campeava
no mato sem fim da fazenda.

E eu não sabia que minha história
era mais bonita que a de Robinson Crusoé.

O Silêncio é composto de muitos silêncios

*


Nos silêncios do silêncio muito se poderá ouvir.
Silêncios de cumplicidade e entendimento. Silêncios de ternura.
Silêncios de compaixão. Silêncios de amor. Silêncios de compreensão.
Silêncios de prazer. Silêncios de alegria. Silêncios de confiança.
Silêncios de interesse. Silêncios de saber. Silêncios de emoção …

Mas o silêncio tem outros silêncios. Silêncios que constroem muros,
cujo silêncio é lúgubre e sepulcral.
Silêncios de discriminação. Silêncios de adeus. Silêncios de morte.
Silêncios de crueldade. Silêncios de desconfiança. Silêncios de desamor.
Silêncios de sofrimento. Silêncios de desumanidade. Silêncios de solidão.
Silêncios de angústia. Silêncios de vazio e distanciamento …

O Silêncio é paradoxal.

Na sua infinita ambiguidade residem silêncios
mais ou menos cômodos e oportunistas.
Silêncios de mentira e omissão. Silêncios repletos de covardia. Silêncios de manipulação.

Em cada silêncio das nossas vidas deveremos perguntar:
O que queremos que reste depois de cada silêncio?
De que silêncios queremos preencher o nosso silêncio?

Silêncios que são pontes ou silêncios que são muros ??? …

*

Texto de AMMedeiros (em Sonhos e Paradoxos), publicado em Elemento Língua dia 30/julho de 2008 às 1:24 pm
e reeditado agora, num momento oportuno.

Trinta dias é a conta

Em apenas trinta dias
tudo pode acontecer
Você pode nascer,
você pode morrer …

Em apenas trinta dias
Você pode deixar a seriedade de lado
e só falar asneiras,
fazer bandalheira

Você pode deixar de ser severo consigo mesmo
e simplesmente se aceitar,
se permitir

Pode ser percebido … ou deletado …

Em apenas trinta dias
você pode trocar
o não pelo sim …

Uma lagoa de lágrimas
pelo riso (des)compromissado
da sacanagem

Trinta dias é a conta
pra você sair da casinha
e experimentar ser livre

Mas vai ter que se acertar
com a ansiedade
e muito, muito mesmo …
é com a saudade !!!

Em apenas trinta dias
tudo pode acontecer …

você pode adoecer
você pode socorrer
você pode desistir ou sobreviver

Em apenas trinta dias
você pode se envolver
mas pode se devolver

Pode ir, pode voltar
E de novo rir
E de novo chorar …

Trinta dias é a conta
para se reconhecer,
se decifrar, se reinventar

Mas o mais importante é que,
em apenas trinta dias
você pode persistir, resistir
e ficar pronto pra viver uma nova história

Porque a vida é movimento.