#forever, Contos e crônicas, de todo coração, música, momentos, outros autores, realidade, retrato de família, Sandra Barbosa de Oliveira, tudo de bom

E foi assim, foi ali …

A TV era em preto e branco.
A rádio era a Excelsior de São Paulo, que tocava “música importada”. O sabor era o de Gintan. Raito de Sol era o bronzeador. O incenso de Lótus e o perfume, não me lembro, mas tinha que ser da Argentina. Sonhávamos.
A novela era Beto Rockfeller, que dava as dicas do que acontecia na noite paulistana, no Clube Pinheiros, na boate Tom Tom Macoute. Carro… acho que era o Gordini. De preferência amarelo, uma referência a um piloto de Interlagos.
O esporte favorito da molecada era o autorama. A vitrola mais popular era a Sonata, fabricada em Campinas.
Ser “chic” em Jundiaí era ter uma vitrola portátil da Philips, lógico, comprada nas lojas Magalhães, ao lado do Cine Ipiranga, palco das primeiras pegadas na mão da namorada, do primeiro beijo, tendo como testemunha um filme do Mazaropi na tela.
Na esquina da frente era o Credi City, loja da família Farina e que também dava nome ao prédio onde moravam os irmãos Avalone. Na próxima quadra, a Paulicéia, ponto de encontro dos jovens da cidade.
Do lado oposto tinha a Praça Governador Pedro de Toledo, o Largo da Matriz.
No número 66 da praça tinha a “Agência Geral” de Eduardo Sacchi, fornecedor dos discos que tocavam nas vitrolas compradas na Magalhães e na própria “Agência Geral”. A loja ficava ao lado do Bar do Lula e da estação da Viação Cometa. No prédio acima, vivia a Eliana de Luca.

E foi assim nesse cenário que cresci. Vendo o entardecer, na frente da Catedral, com seus jardins maravilhosos e a fonte que, um dia, um prefeito mandou derrubar.
Ouvia o som barulhento das andorinhas, acompanhava o movimento das moças que saiam das escolas e passavam pela praça.
Conferia, como um chefe de estação, o horário de chegada e saída dos ônibus da Cometa e via quem chegava ou saia. Lembro-me de ter visto Roberto Carlos (o Rei) chegar ali para tocar no Cine Polytheama. No tempo do “Calhambeque”!
Foi ali que ganhei o maior presente que poderiam ter me dado. Aprendi a gostar de música com o melhor professor, meu pai.
Eu ouvia de tudo, Nelson Gonçalves que, aliás, foi quem inaugurou a “Agência Geral”, Trio Los Panchos, Elvis Presley, Bossa Nova, Os Beatles e toda a invasão do rock inglês, toda a Jovem Guarda, tangos, boleros, chá chá chás, música clássica, a invasão da música italiana, Pata Pata.
E foi ali também que criei, sem querer, minha web de relacionamento social. Conhecia todos e todos me conheciam. Do anãozinho elegante que fazia ponto diariamente no Cometa a prostitutas, ladrões, sambistas, cantores, músicos, galera das rádios Difusora e Santos Dumont, estudantes de outras escolas, todas as meninas, engraxates e motoristas de taxi.
Meu pai também era conhecido pelas bancas de artigos carnavalescos que tinha na loja, no Grêmio e, anos após, no Clube Jundiaiense. O depósito do material era na sala da frente de nossa casa da Engenheiro Monlevade. Era a Festa!
Caixas de serpentina, sacos e sacos de confeti e umas caixas grandes de madeira que traziam a marca RODOURO OURO que, para quem não sabe era o, na época popular, “Lança Perfume”. Ainda sinto o aroma de tais caixas e o barulho da farra que fazíamos, eu e meus irmãos, naquele cenário carnavalesco e inocente.
No tempo do Grêmio, eu ainda era muito pequeno, mas descolado. Descolado a ponto de receber, em minha casa, a dupla de palhaços Fuzarca e Torresmo para um café antes do show deles. A Rua Engenheiro Monlevade parou. E eu, naquele dia, era o cara mais importante da vizinhança.
No Grêmio também aprendi a gostar de carnaval e cheguei até a arrumar uma namorada, que morava no Cine Ideal, ao lado do Clube. Era a glória. O nome dela era Amélia, ou Maria Amélia, não me lembro. Mas linda o suficiente para entender que algo estava mudando em mim. Eu descobri que era romântico!
Outras músicas e namoradas apareceriam em minha vida. Além de muitos carnavais…

Marcos Sacchi
(Jornalista, DJ, radialista. Um eterno estudioso e profundo conhecedor da boa música)

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6 comentários sobre “E foi assim, foi ali …

  1. muito bom ler isso. era o tempo de meus pais. muita saudade. obrigada.
    Marta Pinho dos Santos Domingues

  2. Gracinha, continuo super emotiva. Desde uns 15 dias antes da festa, agora este texto…muito bom, parece mesmo que ainda estou por lá.
    Valeu, está valendo e valerá!

  3. Sabia que era jornalista, dj, connaisseur musical, mas escritor e chronista das altas e novidade! Adorei, saudades tio. Aguardo a poxima obra.

  4. E foi assim, e foi ali mesmo, você trouxe o tempo que parou. Parou para todos que participaram dos mesmos dias e nos mesmos locais. Abraço

  5. Lindo, lindo. Quem viveu lá não pode deixar de se emocionar. Principalmente quem estava ali, sempre dentro da Agência Geral, de onde tudo se percebia… e, tempos depois, da Charle, onde tudo acontecia e sobre a qual Marcos fica nos devendo um novo texto, certo?

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