(O poeta III) Alma inútil …

Ouço a bela voz sempre que entro na sala de cima. A escada é fria. A sala de cinema está cheia de emoção, de ficção projetada. Sala pra rir, pra chorar.

Como é linda a sala de cima. Adoro aquele sofá marrom. A tela grande ocupa boa parte da parede, de cima a baixo!

A casa está sempre em silêncio. Não tem televisão. Só o cinema a me confortar e o som desta tua voz em lamento pra mim, uma tortura.

As paredes refletem o teu desespero à led dicróica. Como o olhar do golden retriever a pedir compaixão. Você a me pedir compaixão. Tua voz na sala de cima em desabafo pra mim.

Ouço, nessa voz, toda a tua solidão. O desterro da tua desilusão. Você em sofrimento a implorar perdão.

O cinema é obscuro, mas um lugar de extremo aconchego. O golden retriever me olha com olhos de criança aflita. Tento decifrar na tua voz o olhar do golden retriever. Minha inconsciência te pede entrelinhas para revelar este olhar.

Mas você ignora integral e o teu lamento não te deixa ouvir o suplicar dos teus anseios, nem do teu sofrimento de amor.

O cinema é quente, ressoa o encantamento da tua voz que me abraça. Numa estupidez (até então desconhecida) que desdenha e me segrega.

Largo o meu corpo no sofá marrom como na morte. Meu sofrimento é ainda maior que o teu, pois carrego o desamor que de você absorvo. Quem sofre o teu amor perdido agora sou eu. Parece história de film noir, dos que assisto com a densidade da escuridão daquela sala.

Agora mesmo, eu que me sinto envolta em tua solidão. Essa solidão que você insiste e que sinto no olhar do golden retriever.

Abraço um querer introspectivo. Deixo-me revelar pela ausência da tua voz na sala de cima. Meu despertar dessa trama é tenso. O que quero e o que não quero se misturam sem querer à tua imagem.

Mas tua alma de poeta é tão inútil que nem consegue enxergar. E não é minha a tua culpa!

Sandra Barbosa de Oliveira

Minhas coisinhas … pra ninguem tascar !!! …

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Num clique momentâneo, podemos ficar indecisos entre o que fomos e o que seremos. Mas uma coisa é certa … não sabemos o que somos.

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Tem dias em que não conseguimos estabelecer a conexão com nossos sonhos. E que os sonhos parecem assumir a fragilidade de bolinhas de sabão!

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Entre aviões e canto de pássaros, lá vai o dia a deslizar seu charme pelo céu ensolarado e pelas ruas da cidade, deixando as marcas de sapato no passado.

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Serena e delicadamente, como balanço de capim ao vento sem maltratar a relva, te assopro um feliz adormecer entre plumas e sonhos.

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Às vezes, o acaso chega para mostrar nas entrelinhas que podemos ser leves e livres. Que da hostilidade pode nascer um bem-querer profundo.

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Meus amores amanhecem tarde e adormecem cedo para que eu possa sonhar por mais tempo. O Tempo no sonho não passa pra que meu amor seja infinito.

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Há de haver uma palavra em sua boca, para me dizer de um sentimento terno, sob a forma orvalhada de um beijo sereno !!!

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De tudo o que há no mundo, o maior dos prazeres está em saudar a beleza. Enquanto houver beleza estarei aqui para compartilhar com você.

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A lua tem estado em estado de graça. De tão linda, derrama uma benção entre olhares distantes… num eterno único instante !!! …

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Esse teu silêncio é irritante, mas amo você mesmo assim. Porque o que quero de você transcende as tuas palavras. Está na tua alma e você não pode evitar!

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Tenho andado sobre saltos, sobressalto, sobre nuvens, sobrevida, sobre sonhos, sobremesa !!!

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O silêncio é a soma de todos os sons, de todas as vozes, de todas as palavras que nunca tivemos a coragem de dizer !

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Te entrego o meu amor explícito, mas te escondo em meus desejos mais secretos, porque o meu amor é teu e meus desejos secretos também!

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Abri os olhos e me deparei com a manhã entrando pela janela sob a forma de brisa. Acorda, amanhã !!!

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O acaso te trouxe para a minha caixinha de amores e é através da música que te trago a expressão.

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O fato de estar ausente não quer dizer que não te queira mais e sim que te quero mais ainda !!! …

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Quero te esquecer mas não consigo, você entra em minha casa sem pedir licença! Te odeio por isso, meu amor !!!

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Nunca estive tão apaixonada e por tanta gente como estou agora. Será que isso é morrer ??? …

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Em acordar de azul como no céu… o espreguiçar suave, um navegar. Te ver ficar … Imaginar … teu despertar é mar !!! …

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Sucumbir a preceito sem mudar conceitos … aliviar preconceito para não cometer injustiças. Isto é humano e você mudou a minha vida.

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Sandra Barbosa de Oliveira

Divagar em palavras

Encontrar a palavra certa nunca é uma tarefa fácil
Escrever é remeter-se a alusões
e fantasias … puras da ficção
Pareço-me tomada por verdades e mentiras
Ao ter a impressão de sucumbir aos céus
e me deixar cair ao sétimo inferno
a cada palavra reticente

Dar formato à escrita é uma espécie de viagem
por mundos desconhecidos
de arquitetura metafórica
que faz confundir o que está claro
com o que é indescritível

Através da palavra
sentimento mais profundo da expressão
é que encaminhamos nossos pensamentos
à contemplação …

A saber que contemplar é deixar-se invadir
por um observar lancinante
onde se obtém subitamente o admirar lato sensu

A palavra é a explicação para todas as coisas
o aconchego nas horas amargas
a salvação das almas perdidas
sob a forma de oração

E a catarse de uma declaração de amor
onde a beleza sistina complementa toda a devoção
para que haja apenas um compartilhar de emoções …