Zygmunt Bauman e o Big Brother

Dissidente X: A sociedade fragmentada que o senhor apresenta em “Vidas desperdiçadas” não estimula a individualização e o sentimento de medo ao estranho que foram apresentados em “Amor líquido”?

Bauman: Claro. Nos comportamos exactamente como o tipo de sociedade apresentada nos “reality shows”, como por exemplo, o “Big Brother”. A questão da “realidade”, como insinuam os programas desse tipo, é que não é preciso fazer algo para “merecer” a exclusão. O que o “reality show” apresenta é o destino e a exclusão é o destino inevitável. A questão não é “se”, mas “quem” e “quando”. As pessoas não são excluídas porque são más, mas porque outros demonstram ser mais espertos na arte de passar por cima dos outros. Todos são avisados de que não têm capacidade de permanecer porque existe uma cota de exclusão que precisa ser preenchida. É exactamente essa familiaridade que desperta o interesse em massa por esse tipo de programa. Muitos de nós adaptamos e tentamos seguir a mensagem contida no lema do programa “Survivor”: “não confie em ninguém!” Um slogan como esse não prediz muito bem o futuro das amizades e parcerias humanas”.

Fonte: http://dissidentex.wordpress.com/2007/12/20/zygmunt-bauman-globalizacao-modernidade-sociedade-fragmentada/

*

Segundo o cientista social, “O homem é o único animal dotado de discurso […] o poder do discurso tem por finalidade expressar o que é vantajoso e o que é prejudicial, o que é justo e o que é injusto. É precisamente nisto que o homem se distingue dos outros animais: sozinho, não tem qualquer noção do bem e do mal, da justiça e da injustiça; e uma associação de seres vivos com este dom constitui uma família e um Estado”.

Citações da obra “A Sociedade Sitiada”, de Zygmunt Bauman, Instituto Piaget, Lisboa, 2010.

Algures em 1999, ao ver um grupo de pessoas enclausuradas durante um mês numa redoma de vidro no deserto do Arizona, John de Mol, de Hilversum, teve, segundo disse, um «grande lampejo» inspirador. Inventou o Big Brother. A sua ideia genial passou pela primeira vez na pequena estação de televisão privada Verónica, tendo-se tornado num grande êxito, a ideia foi imediatamente aproveitada pelas grandes estações de televisão, tem sido copiada desde então por vinte e sete países (o número continua a crescer, e velozmente) transformando o seu inventor no segundo homem mais rico da Holanda. O êxito do Big Brother foi fenomenal, mesmo se medido pelos padrões das grandes estações televisivas acostumadas a estimular as audiências por motivos publicitários. Sobre a versão francesa do Big Brother
(chamada Loft Story), Ignazio Ramonet escreveu que “nunca antes na história dos media franceses” houve um evento que “ao mesmo tempo inflamasse, fascinasse, chocasse, agitasse, perturbasse, sobre-estimulasse e irritasse o país”, e que ofuscasse eventos tão contemporâneos, normalmente muito populares, como o Festival de Cinema de Cannes e a final da Taça de França. Na Grã-Bretanha, cerca de 10 milhões de jovens, dos 18 aos 25 anos votaram a favor ou contra os concorrentes do Big Brother. Este número devia ser comparado com o milhão e meio de pessoas da mesma faixa etária que se espera que votem nas eleições legislativas britânicas. (…) Em perseguição cerrada do Big Brother veio o Elo Mais Fraco: outro êxito televisivo da viragem do século, este, inventado na Grã-Bretanha e pouco depois importado por uma larga soma pelos Estados Unidos. O Elo Mais Fraco repete a mensagem do Big Brother mas também diz em alto e bom som o que o Big Brother apenas sussurrava: as equipes existem apenas para servir a autopromoção dos seus membros mais inteligentes, não têm nenhum outro valor à parte esta função.

Op. Cit, pp 80-81.

* Zygmunt Bauman (19 de novembro de 1925, Poznań) é um sociólogo polaco (português europeu) ou polonês (português brasileiro) que iniciou sua carreira na Universidade de Varsóvia, onde teve artigos e livros censurados e em 1968 foi afastado da universidade. Logo em seguida emigrou da Polônia, reconstruindo sua carreira no Canadá, Estados Unidos e Austrália, até chegar à Grã-Bretanha, onde em 1971 se tornou professor titular da universidade de Leeds, cargo que ocupou por vinte anos. Lá conheceu o filósofo islandês Ji Caze, que influenciou sua prodigiosa produção intelectual, pela qual recebeu os prêmios Amalfi (em 1989, por sua obra Modernidade e Holocausto) e Adorno (em 1998, pelo conjunto de sua obra). Atualmente é professor emérito de sociologia das universidades de Leeds e Varsóvia.(Origem: Wikipédia)

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