Desacato ao morto

Às vezes, precisa vir a morte pra te libertar de algo que nunca fez.
Pior é que as cobranças, os desentendimentos ou mal-entendidos nunca morrem.
Permanecem e continuam a oprimir sob a forma de fantasmas, porque são imortais.

Às vezes, deixamos de dar atenção às pessoas por intransigência de outrem.
E só quando amadurecemos, percebemos o quanto isso não levou a nada.
A morte só é para quem leva! …

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Escasso excesso

Sonho com pessoas misturadas.

Acho que minha solidão interior fez de mim alguém incompletável.

Metade afeto, metade caule e se coubesse mais uma metade sem transbordar, colocaria a metade pedra que sobrou porque sua outra metade embolorou.

Mas nem três metades, como se fosse possível para formar o um, me seriam suficientes.
Precisaria de mais e mais metades… e é esse o meu infortúnio.

Acho que eu cresci tanto que estou precisando de metades demais. Ou será que esvaziei tanto de maneira a precisar de um todo com tantas metades?

Deixo aqui essa pergunta.

As três etapas do Bom Dia!

Ontem foi um dia especialmente movimentado pra essa minha vidinha mais ou menos.
Resolvi tirar a bunda da cadeira e levei meu corpinho pra rebolar lá no centro, logo pela manhã. Foi muito boa a experiência de perambolar pela cidade com a câmera a tira-colo descobrindo nas imagens da cidade, os detalhes escondidos nas entranhas do gigante.
Como é linda essa cidade!
Acho que deveríamos tentar compreendê-la melhor antes de tanto criticá-la.
Debaixo de um sol escaldante, no meio de um grupo enorme de gente de todas as idades e classes sociais, com um único e mesmo interesse: a fotografia… eu estava ali, acompanhada ao mesmo tempo que sozinha, com pensamentos flutuantes, desenvolvendo a arte de ver, através das lentes, uma vida melhor.
São Paulo é crack, é corrupção, é trânsito, é falta de infraestrutura, é concreto, é violência, é desumanidade.
Mas para sentir o prazer que oferece, só se dispondo a sentí-la em minúcias. Bom dia! …

*

Ontem foi um dia especialmente movimentado pra essa minha vidinha mais ou menos.
Depois de passar a manhã fotografando o centro da cidade debaixo de um sol escaldante, voltei pra casa semi-morta mas a bundinha não conseguiu esquentar a cadeira.
O bloco do bairro bateu o surdo e eu caí pra rua com meu corpinho pra rebolar com a câmera de novo, debaixo do braço.
E fui seguindo, seguindo aquela gente toda, numa diversão gratuita entre vovós e netinhos que iam engrossando o cordão a cada quarteirão que o bloco passava.
Tudo muito simples, mas com direiro a passista, estandarte, um micro trio elétrico, e aquela animação de gente que ia descendo dos prédios e se juntando ali, sem compromisso com nada que não fosse pura brincadeira.
E foi com essa leveza que voltei de novo pra casa, pensando que a vida poderia ser bem mais descomplicada sem o peso que a gente faz questão de carregar diariamente.
Bom dia nº2 !!! …

*

Ontem foi um dia especialmente movimentado pra essa minha vidinha mais ou menos.
Depois de passar a manhã fotografando o centro da cidade debaixo de um sol escaldante e a tarde rebolando com minha câmera no bloco do bairro sob marchinhas e “delícia, ai se eu te pego” … de já estar com a bundinha não conseguindo mais levantar da cadeira, veio a parte mais interessante … o jantar!
O encontro com as primas no melhor do estilo “sex in the city” se deu como o deleite dos deuses e se eu falar que, em grande estilo, estaria subestimando o evento.
Sim, porque não foi um jantarzinho “chinfrim”.
Foi um jantar com toda a pompa parisiense com direito a cardápio individual impresso, degustação de entradas acompanhadas de prossecco, um vinho para cada etapa do menu incluindo a sobremesa, licor e café.
Tudo isso envolto numa conversa de altíssimo nível como se viesse embalado pra presente.
No fim da noite, pra terminar, a terapia.
O papo descontraído onde cada uma posiciona seus feitos para serem discutidos, atualizando assim, os assuntos pendentes desde o último encontro. Só pra me redimir, eu termino com uma frase meio atípica:
– Basiquete é o “cara-le-o”! É pau! … Bom dia nº3 !!! …

Marcas

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Cada marca nos meus olhos tem uma história pra contar, algumas serviram para escoar as lágrimas, algumas para exprimir sorrisos.

Cada vez que eu as olho, é como se relesse o livro da minha vida.

Quanto eu fui feliz, o quanto infeliz. Mas minha estrada foi muito cheia de surpresas, colhi flores no caminho, me espetei com seus espinhos.

Curti todos os dias de chuva. Fiz com que o frio me agasalhasse. Com que o sol me fornecesse sombra.

Cada vez que eu vejo as marcar nos meus olhos, eu sinto o vento de viagens que não fiz e a esperança na alegria que está à minha espera.

Nelas está o meu caminho.

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