O Palhaço II

A noite cai como uma luva. Meu coração é saltimbanco. Descumpre ordens. Quando chega o breu ele quer alimento. Saltita sem picadeiro. Dança, pula, quer diversão. Quer divertir. A noite zomba de mim, me espanta o sono. Leio, me entrego a melodias. Mas meu distanciamento de mim mesma não me concentra. Vou pra cozinha, corto cebolas. Mas nem assim consigo chorar. Ando sem graça. Sem risos, sem lágrimas. Minhas vontades estão distraídas também. Meus desejos acanhados. Nem prosa, nem versos. Nem tudo, nem nada. Como pode o poeta viver sem emoção? …

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Passando a vida a limpo

Numa revolução sempre há pessoas feridas, mas mesmo assim, elas não abandonam suas ideologias, seus princípios e suas convicções. Às vezes, temos que romper com o sistema infectado, colocar tudo pra fora pra poder colocar tudo de novo no devido lugar. E esse processo é quase sempre doloroso, mexe com nossos sentimentos mais profundos, mas é inevitável. Poder passar a vida a limpo é uma oportunidade de revisarmos nosso eu interior para prosseguirmos no caminho de forma mais leve. E a leveza é que nos faz poder carregar tudo o que é bom! …

Armando e Márcia

Tem gente que vive ao nosso lado uma vida inteira, e passa, sem a gente notar que já está longe, em sua caminhada a passos largos. Tem gente que chega, vai ficando, vai construindo uma caminha num lugar quentinho, dentro do coração… e não sai dali nunca mais. Se esconde tanto que a gente não consegue mais ver. Mas de vez em quando se mexe e remexe a fazer as coronárias ficarem tão apertadas que parece que o coração vai explodir; mas por fim, se ajeita de novo e adormece. Enquanto dorme, vai sonhando com a vida, com as paisagens na janela, com grandes amores. Alguns constroem crianças, alguns se postam a dedicar-se aos números, outros à arte. Tem gente que ganha dinheiro, outros colecionam sentimentos. (Eu coleciono árvores e amores). E todos vão tecendo suas vidas, talhando sua rotina. Interpretando papéis. Desvendando mistérios. Tudo isso, enquanto o mundo se consome, e nos oprime ou cruelmente nos reprime. Ou nos solta feito pandorgas ao vento para que vejamos a vida lá de cima do circo voador, como num balanço das mãos em ondas pra fora da janela do carro. Para que se dermos sorte, a linha arrebente e a gente voe pra sempre, sem nunca mais ter que voltar. Existe gente que sabe dar valor pras coisas, voar. Existe gente que passa pela vida sem enxergar um por-do-sol sequer. Tadinho! O que faz a diferença é a maneira de sentir o mundo. É a maneira de ocupar o espaço certo. Ou melhor, a d e q u a d o. Aliás, “adequado” é a palavra cujo sentido eu mais aprecio. Meu maior prazer está em me sentir adequada aos meus princípios, às minhas convicções. Mas, voltando ao começo… assim como eu fui me perdendo pelo caminho das palavras, aqui, agora, a gente vai perdendo o contato dos amigos queridos, e vai se emaranhando num mundo afetivo, de amor romântico que muitas vezes nos faz sofrer, perder a cabeça… e quase sempre o coração. E é aí que nos perdemos de vez dos amigos… nosso coração sai rolando por ruas de pedras e temos que correr atrás dele feito loucos, para minimizar as nossas perdas. Altoestima baixa em nosso destino cabisbaixo… Mas com sensibilidade, pelo amor a tudo o que é belo que abraçamos para não deixar cair jamais, ou pela beleza que deixamos passar por não compreender nosso interior de menino. E depois do mundo dar cinquenta voltas em torno do sol vc poder reencontrar a doçura daqueles que seu coração carrega e cuidou com tanto carinho, é nessa hora, que desço descalça por aquela ladeira da infância, olho pela varanda da infância, com os olhos de infância e descubro ali, à minha frente, dois grandes amores da minha vida. Márcia e Armando. Eles estão ali, na frente de casa, olhando pra minhas lembranças, e sem querer, restabelecendo meu encontro com aquela que fui um dia, e com a qual eu havia perdido contato. Como é bom sentir um amor de verdade! Como é bom sentir o gostinho de “jintan” saltando da boca outra vez. Obrigada meus amigos. Eu choro, hoje, pela alegria que sinto neste reencontro. Reencontro esse, entre vcs e a boa menina que eu não acreditava mais ter sido. Amo vcs!

E o menino com brilho do sol na menina dos olhos está de novo entre nós.

Quando o amor não se explica, quando brinca de roda, quando não precisa de palavras, isso é para sempre! …

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Quarenta e três anos depois e o amor é ainda maior! …

E o menino com o brilho do sol
Na menina dos olhos
Sorri e estende a mão
Entregando o seu coração
E eu entrego o meu coração
E eu entro na roda
E canto as antigas cantigas
De amigo irmão
As canções de amanhecer
Lumiar a escuridão
E é como se eu despertasse de um sonho
Que não me deixou viver
E a vida explodisse em meu peito
Com as cores que eu não sonhei
E é como se eu descobrisse que a força
Esteve o tempo todo em mim
E é como se então de repente eu chegasse
Ao fundo do fim
De volta ao começo
Ao fundo do fim
De volta ao começo…

Gonzaga Jr.


Eu apenas queria que você soubesse
Que aquela alegria ainda está comigo
E que a minha ternura não ficou na estrada
Não ficou no tempo presa na poeira

Eu apenas queria que você soubesse
Que esta menina hoje é uma mulher
E que esta mulher é uma menina
Que colheu seu fruto flor do seu carinho

Eu apenas queria dizer a todo mundo que me gosta
Que hoje eu me gosto muito mais
Porque me entendo muito mais também

E que a atitude de recomeçar é todo dia toda hora
É se respeitar na sua força e fé
E se olhar bem fundo até o dedão do pé

Eu apenas queira que você soubesse
Que essa criança brinca nesta roda
E não teme o corte de novas feridas
Pois tem a saúde que aprendeu com a vida

Eu apenas queria que você soubesse
Que aquela alegria ainda está comigo
E que a minha ternura não ficou na estrada
Não ficou no tempo presa na poeira

Eu apenas queria que você soubesse
Que esta menina hoje é uma mulher
E que esta mulher é uma menina
Que colheu seu fruto flor do seu carinho

Eu apenas queria dizer a todo mundo que me gosta
Que hoje eu me gosto muito mais
Porque me entendo muito mais também

Gonzaga Jr.

O depois das horas

A princípio eu o abracei, e disse que podia contar comigo. Porque a notícia veio no soco. Mas com o passar dos segundos, dos minutos e das horas, as histórinhas foram se acoplando à história principal, e vem de volta aquele – tem alguém querendo substimar (de novo) a minha inteligência – e foi aí, que eu sucumbi a um sentimento rancoroso que vem talhando a minha autoestima há anos como se a cortasse em fatias, bem devagarinho.
Mas a vida é um jogo. O jogo do tempo no espaço. Linhas paralelas, ondas, movimento. A teoria das cordas, bambas.
Onde a felicidade depende unicamente da capacidade de tecer a fantasia, que depois das horas, vai transformando tudo num imenso tabuleiro, onde os peões de diferentes cores esperam enfileirados a sua vez de desfilar. E ao chamado do rolar dos dados, na contagem dos passos na trilha desse mesmo tempo, a gente para num quadradinho que diz: “Volte para o começo”. E lá vamos nós, outra vez!

O depois das horas

A princípio eu o abracei, e disse que podia contar comigo. Porque a notícia veio no soco. Mas com o passar dos segundos, dos minutos e das horas, as histórinhas foram se acoplando à história principal, e aí vem de volta aquele sentimento de: tem alguém querendo substimar (de novo) a minha inteligência. E foi aí que sucumbi a um sentimento rancoroso que vem talhando a minha autoestima há anos como se a cortasse em fatias, bem devagarinho.

Sobre um voar

Para ler ouvindo! …

Apenas em sonho…
sou uma ave a navegar
nas nuvens de um bem-querer
abstrato

Mas o meu sobrevoar suave
rabisca no céu um único nome
num desejo inconsequente
de pousar uma das mãos
num doce toque
E na lembrança de um olhar (in)fundo
e comovente

Mas é apenas o planar do sonho
errante
na contramão de uma nave
incandescente
a divagar sobretudo a sorte
desse encontro

Como um deslizar no azul do céu
delineando a própria sombra sobre o mar
e adormecer numa obscura noite
infinda de luar

Mas é apenas um sonho
abstrato
com um bem-querer inerente
em muitas vezes insurgente
numa noite vazia onde o luar se esconde
sob o abastar
de um profundo
silenciar…
obstante.