Mundo perdido

Desde a hora em que procuro a chave, não sei como tudo há de acabar.
Visto o casaco e me açoito pela avenida lúdica. Única distância até então, a me separar daquilo que eu já nem sei mais o que é. Vou me entranhando no desconhecido, com o frio na barriga de sempre, como uma garota a procurar seu par numa sala de dança lotada de valsa. Mas nada gira, pelo contrário, é apenas um caminho herege e eu, a atravessar toda a cidade, afivelada ao cinto, para me encontrar com alguém, ou ninguém. A procura do endereço, o telefone no bluetooth, a música no rádio e a cidade a me encantar e a me contorcer a caminhada, como se houvesse galhos a desviar a cavalgada. E assim se dá o encontro. Nada de mais, não fosse o amor pendente. Escondido feito adolescente, a cruzar os pontilhões e rotatórias nesta dança macabra que o destino nos impôs. Vai se tornando mais e mais visível. A distância e o frio da cidade que não nos é novidade e os lugares desbravados no passado nos vão re-contando suas histórias. Derretendo-as por calçadas e sargetas em tantas noites frias que nos envaidece. Pois que não conseguem se calar. Os edifícios e as fachadas nos sorriem. Estacionar, trancar, descer, procurar, procurar, olhar, reconhecer, olhar, olhar… não saber onde chegar. Dois mundos, duas vidas, dois amores que já foram um. Pouca conversa, muitas lágrimas, foi o que nos pôde restar. E esse, talvez o último encontro. Desarmados. Com o apagar das luzes num palco macabro a encerrar espetáculos. O descer das cortinas. Com profunda tristeza, é traçada a retórica dos tempos finais. Porque não sei se meu coração tende a aguentar mais despedidas. Cada vez mais funestas a acalentar nosso silêncio. Seu mundo não é mais meu mundo. A estranheza vira autora do empobrecer do tato. O que sempre foi profundo se perde em profundeza. Há despedida. A distância emerge novamente na minha reta avenida. Meu coração não aguenta mais aparar essas arestas. Ele se cala, gélido, como a cidade embevecida na névoa da madrugada. E o carro segue veloz para o nunca. Com um coração a bordo, a espreitar por um mundo perdido.

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Meu verbo é ir

Andar na contra-mão é ir além do senso comum. É levantar com o pé esquerdo sem superstição. Enxergar o lado bom de quem é “mau”. E se dar o direito de ser original.
Andar na contra-mão é se lançar no acostamento pra chegar mais rápido. É se permitir estar fora da lei. Longe do que é convencional. Aflorado de subversão. Submerso na emoção para ser feliz.
Liberdade às vezes dói. Mas voar não é pra qualquer um…
Porque o amor é xadrez.

Black Bird fly! …

Recrio meus dias e semanas e meses.
Recrio uma vida, uma história inteira. Recrio um novo personagem, a cada dia um novo poeta em mim. Revivo um novo romance, um novo recanto, um novo momento.
Redescubro meus instintos, meus intuitos, meus dilemas.
Incorporo a bailarina girando, o beijo do palhaço navegando pelos ares. Num descuido,
descubro uma nova mulher, altiva e voraz. A derramar seu sangue ainda quente pelas ruas da cidade.
Força bruta a cuspir o fogo de uma viagem aos infernos. Ou simplesmente um sopro… que levita feito nuvem pelos céus de seu novo encantamento. Porque aqui, “jazz” é coragem!

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A bailarina em seu giro, olha pra todos os lados como se conseguisse ver o mundo. Mas é o mundo que a vislumbra, a leveza e a beleza desse quase flutuar.

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O palhaço, esse sim encaminha o seu beijo com um sopro ao destino traçado, deslizando o carinho a seu alvo secreto. Sem que um mísero vento lhe desvie o trajeto.

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Mas é o poeta quem morre pra reviver um lugar, outro amar, numa dor, noutra flor. O poeta é quem arde na teimosia de suas escolhas, na maioria das vezes… imprudentes.
E é essa imprudência que o leva novamente à morte, para o renascer do seu original e novo cantar: o poema!