Sandra Barbosa de Oliveira 2

A estante

Vivemos por entre o conhecimento e as desigualdades. Onde de norte a sul, de leste a oeste, tanta gente se fodendo enquanto uns… pernas pro ar, sofá, ventilador. Freezer, água na pia e no banho… saladinhas, sorvete e cerveja, somamos muitas, mas muitas reclamações sobre o calor.
Aí… eu penso aqui com a minha estante: como você consegue alojar tantos sertões? Tantos desertos? Tanta pobreza? Como consegue amparar essa seca insolúvel? O pó? Falta d’água? Terra rachada? Faces esturricadas.
Ao mesmo tempo que a beleza do mar… os ventos e as velas… céu aceso, ora cravejado de estrelas?
Parti com meus pensamentos para o antigo Egito. Para a Mesopotâmia em solos férteis de outros tempos. Para Moisés em suas andanças. Para o Saara e seus Oásis. Para a miséria proliferando o mundo dos ratos e das moscas.
Parei pra me lembrar do meu atlas. Capa em preto e branco, imponente mas tão desatualizado, o coitado, que não sai dali pra nada por não ter podido profetizar todas as guerras.
E minha estante suportando todo o peso das histórias e das verdades comprimidas entre as capas dos impressos.
Parei de pensar por um instante pra contemplar a solidão do meu suor, embebido em cerveja estupidamente gelada, e refletir mais uma vez com minha estante, tão amiga, mas um tanto solene: de que é que estamos reclamando mesmo? …

sandra barbosa de oliveira

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