É hora de participar!

Não se trata de defender ou acusar governos ou parlamentares, trata-se apenas de defender valores referentes a direitos adquiridos.

Nossos problemas deixaram  de envolver apenas as questões políticas e entraram no campo moral e ético. Perdeu-se a credibilidade nas instituições.

Não se pode revolver-se no tempo para destituir grandes conquistas legais ou coisas quaisquer que possam desconstruir uma suada trajetória às liberdades individuais, nem fortalecer ameaças ao estado democrático de direito.

É a Democracia que está em jogo.Não estamos em meio à uma partida num estádio.

Estamos construindo sociedades, educando crianças para o futuro político da nação.

Toda responsabilidade é pouca em se tratando da vida e do bem comum.

Precisamos de garantias institucionais para que os direitos das minorias fiquem preservados, não permitindo retrocessos e nenhuma subjeção, pois que devemos ouvir, nesse momento, a voz de toda a sociedade.

*

Em tempo: o Brasil é um país laico! …

 

 

Rompendo tabus … com Isabel Dias

Quando o assunto é erotismo, muita gente aplaude a literatura apresentada em livros como “Cinquenta tons de cinza”, transformando esse instrumento de opressão em best-seller internacional.
Hollywood também aposta nessa opressão porque sabe que é o idealismo machista que patrocina a exploração de conteúdos onde a mulher é alvo de violência e desrespeito, trazendo milhões de dólares aos cofres da indústria de produções.
Mas quando do tema se faz a abordagem da libertação feminina, onde é a mulher quem resolve mostrar a igualdade de poderes; que o virtuosismo em nada está implícito na castidade; e que, depois de uma longa trajetória de sofrimento, em que sempre impera a traição, a deslealdade, todo tipo de violência psicológica e humilhação por parte de seus próprios companheiros de jornada; o que temos (claro que não em termos gerais), é julgamento, preconceito e discriminação por parte de um tribunal trans-vestido em hipocrisia, dos setores desta sociedade que se diz moderna (no sentido coloquial da palavra) e libertária, mas que no fundo está imersa num conservadorismo provinciano, há dezenas de gerações.
Será que a mulher está despreparada para a felicidade?
Digo tudo isso para introduzir opinião ao livro que acabo de ler.
A autora, minha amiga, se desnuda diante do leitor sem pudores, ao descrever os casos que teve, durante um período de dois anos e meio… com cada um dos 32 homens que conheceu através de um site de relacionamentos, depois de um trágico e complicado processo de divórcio, impulsionada pela raiva e pelo desejo de dar o troco à traição do marido, ao descobrir que ele tinha quatro amantes.
“32 – um homem para cada ano que passei com você” é um livro que lava a alma de todas nós mulheres, que experimentamos a dor de sermos traídas, humilhadas e psicologicamente violentadas por esses homens com quem nos dispusemos a compartilhar a vida, onde acreditávamos viver nossa grande história de amor, com quem nos sentíamos seguras e acalentadas. Com quem tivemos nossos filhos, a quem tivemos dedicados nossos melhores anos, nossa lealdade, nossa beleza vigorosa e nossa juventude.
Isabel Regina Dias é uma mulher de coragem, que não demonstrou ter pudor algum ao denunciar publicamente sua decepção em relação ao homem com quem imaginava envelhecer; a depressão que quase a matou e as descobertas que fez acerca de si mesma; ao se propor, com a aceitação e apoio dos filhos, a essa busca implacável pela mulher que nem sequer sabia haver dentro de si.
Parabéns, Regina, minha amiga… estou aqui pra dizer que você me representa! …
*
Com prefácio de Xico Sá … 215 páginas de muita diversão e reflexão.

O voo do poeta

(sandra barbosa de oliveira)

Manoel de Barros
não foi um poeta…
foi um passarinho.
Seus poemas, passaredos…
Sombras, alamedas em tristeza…
tristes as folhas,
o chão,
da terra, o emanar do perfume
das palavras que ficam.
Foi o homem das palavras cantadoras.
Mas sua terna voz trinará para sempre,
em seu eterno ninho
haverá de cantar.

minha homenagem ao poeta passarinho

 

Em um relacionamento sério

Certas provocações, por certos “espiões” nas redes sociais, demonstram a fragilidade dos relacionamentos ditos “sérios”. Eu sei muito bem que quem viveu um relacionamento falido (e como sei) … ou vive um relacionamento de via única, onde não há reciprocidade no amor, a necessidade de espionar, de controlar e de invadir a privacidade do outro se faz como autoafirmação mas isso não muda em nada o status da relação. (triste experiência) …
O que se vende socialmente, na verdade, não é o sentimento real e sim uma necessidade antiquada de se manter as aparências, o que não condiz em nada com “o individualismo contido nas relações líquidas” dos tempos atuais (nas palavras de Sigmunt Bauman).
Portanto, a necessidade de manter a vida de um companheiro mediante investigação já é um sério sinal de que a hora de por um ponto final está próxima.
Coração é um caso sério. Mesmo a cabeça não querendo, o que acontece em pouquíssimos casos, quando o coração trai não tem conserto. Por isso é sempre bom pensar duas vezes antes de abrir mensagens “inbox” do cônjuge. Porque se a necessidade de espiar for maior do que a confiança, é melhor que um dos dois devolva com dignidade a chave da porta da frente. Porque o tal “relacionamento sério” …
… já era!

Sandra Barbosa de Oliveira

Interrompendo as Buscas

Martha Medeiros

– “Assistindo ao ótimo ‘Closer – Perto demais’, me veio à lembrança um poema chamado ‘Salvação’, de Nei Duclós, que tem um verso bonito que diz: “Nenhuma pessoa é lugar de repouso”.

Volta e meia este verso me persegue, e ele caiu como uma luva para a história que eu acompanhava dentro do cinema, em que quatro pessoas relacionam-se entre si e nunca se dão por satisfeitas, seguindo sempre em busca de algo que não sabem exatamente o que é. Não há interação com outros personagens ou com as questões banais da vida. É uma egotrip que não permite avanço, que não encontra uma saída – o que é irônico, pois o maior medo dos quatro é justamente a paralisia, precisam estar sempre em movimento. Eles certamente assinariam embaixo: nenhuma pessoa é lugar de repouso.

Apesar dos diálogos divertidos, é um filme triste. Seco. Uma mirada microscópica sobre o que o terceiro milênio tem a nos oferecer: um amplo leque de opções sexuais e descompromisso total com a eternidade – nada foi feito pra durar. Quem não estiver feliz, é só fazer a mala e bater a porta. Relações mais honestas, mais práticas e mais excitantes. Deveria parecer o paraíso, mas o fato é que saímos do cinema com um gosto amargo na boca.

Com o tempo, nos tornamos pessoas maduras, aprendemos a lidar com as nossas perdas e já não temos tantas ilusões. Sabemos que não iremos encontrar uma pessoa que, sozinha, conseguirá corresponder 100% a todas as nossas expectativas ¿ sexuais, afetivas e intelectuais. Os que não se conformam com isso adotam o ‘rodízio’ e aproveitam a vida. Que bom, que maravilha, então deveriam sofrer menos, não? O problema é que ninguém é tão maduro a ponto de abrir mão do que lhe restou de inocência. Ainda dói trocar o romantismo pelo ceticismo, ainda guardamos resquícios dos contos de fada. Mesmo a vida lá fora flertando descaradamente conosco, nos seduzindo com propostas tipo “leve dois, pague um”, também nos parece tentadora a idéia de contrariar o verso de Duclós e encontrar alguém que acalme nossa histeria e nos faça interromper as buscas.

Não há nada de errado em curtir a mansidão de um relacionamento que já não é apaixonante, mas que oferece em troca a benção da intimidade e do silêncio compartilhado, sem ninguém mais precisar se preocupar em mentir ou dizer a verdade. Quando se está há muitos anos com a mesma pessoa, há grande chance de ela conhecer bem você, já não é preciso ficar explicando a todo instante suas contradições, seus motivos, seus desejos. Economiza-se muito em palavras, os gestos falam por si. Quer coisa melhor do que poder ficar quieto ao lado de alguém, sem que nenhum dos dois se atrapalhe com isso?

Longas relações conseguem atravessar a fronteira do estranhamento, um vira pátria do outro. Amizade com sexo também é um jeito legítimo de se relacionar, mesmo não sendo bem encarado pelos caçadores de emoções. Não é pela ansiedade que se mede a grandeza de um sentimento. Sentar, ambos, de frente pra lua, havendo lua, ou de frente pra chuva, havendo chuva, e juntos fazerem um brinde com as taças, contenham elas vinho ou café, a isso chama-se trégua. Uma relação calma entre duas pessoas que, sem se preocuparem em ser modernos ou eternos, fizeram um do outro seu lugar de repouso. Preguiça de voltar à ativa? Muitas vezes, é. Mas também, vá saber, pode ser amor.

Desalento

Estar-te longe
longamente
noite estejas

Na tua voz eu ouço
a rouca Insensatez
e reconheço

Ao por do sol
Arpoador
em dor
só pensamento

Ao te perder
da vista
um mar em desencanto

Num canto escuro
eu conto um pouco
e um tanto assim
um desencontro

As águas a subir
e o sol se esconde
é noite em ti
em mim só um lamento

E eu aqui
poder sonhar
enquanto cantas

Um desalento.

(Desalento – Sandra Barbosa de Oliveira)

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* mostrando a cara do Brasil

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Não me convidaram
Pra esta festa pobre
Que os homens armaram
Pra me convencer
A pagar sem ver
Toda essa droga
Que já vem malhada
Antes de eu nascer

Não me ofereceram
Nem um cigarro
Fiquei na porta
Estacionando os carros
Não me elegeram
Chefe de nada
O meu cartão de crédito
É uma navalha

Não me sortearam
A garota do Fantástico
Não me subornaram
Será que é o meu fim?
Ver TV a cores
Na taba de um índio
Programada
Prá só dizer sim

Grande pátria
Desimportante
Em nenhum instante
Eu vou te trair
Não, não vou te trair

Brasil
Mostra a tua cara
Quero ver quem paga
Pra gente ficar assim
Brasil
Qual é o teu negócio?
O nome do teu sócio?
Confia em mim

(Cazuza)

És tu – contemporâneo

Como se às vezes
tua voz me chegasse aos ouvidos
coisas a dizer
gostei da tua mão

Verso moderno
não vale um tostão
maldigo teu olhar
da cor do Arpoador
à beira-mar

Cantar em Bossa Nova
Toms e cifrão
musicalidade
e disso eu entendo

Poesia
a pós-modernidade
te delicia com desilusão
leminskiana

Se me ligares
vais ganhar algodão doce
similares açucares
por uma doçura tua
Bala de mel ou Jintan

Fragilidade
agora não
somos adultos
na busca das palavras
em que se encaixem rimas

Tu poeta
eu abstrato

Eu poeta
te espero…

*

(Sandra Barbosa de Oliveira …
em Elemento Língua)

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Mulher

Carlos Drummond de Andrade

“Para entender uma mulher
é preciso mais que deitar-se com ela…
Há de se ter mais sonhos
e cartas na mesa
que se possa prever nossa vã pretensão…

Para possuir uma mulher
é preciso mais do que fazê-la
sentir-se em êxtase numa cama,
em uma seda,
com toda viril possibilidade…
Há de se conseguir fazê-la sorrir antes do próximo encontro

Para conhecer uma mulher,
mais que em seu orgasmo,
tem de ser mais que amante perfeito…
Há de se ter o jeito certo ao sair,
e fazer da saudade
e das lembranças, todo sorriso…

O potente, o amante, o homem viril,
são homens bons…
bons homens de abraços e passos firmes…
bons homens pra se contar histórias…
Há, porém, o homem certo,
de todo instante: O de depois!

Para conquistar uma mulher,
mais que ser este amante,
há de se querer o amanhã,
e depois do amor
um silêncio de cumplicidade…
e mostrar que o que se quis
é menor do que o que não se deve perder.

É esperar amanhecer, e nem lembrar do relógio ou café…
Há que ser mulher, por um triz
e, então, ser feliz!

Para amar uma mulher, mais que entendê-la,
mais que conhecê-la,
mais que possuí-la,
é preciso honrar a obra de Deus,
e merecer um sorriso escondido,
e também ser possuído
e, ainda assim, também ser viril…

Para amar uma mulher, mais que tentar conquistá-la,
há de ser conquistado…
todo tomado
e, com um pouco de sorte, também ser amado!”

Vivendo e aprendendo

A morte é apenas uma passagem para o nada.
A vida é aqui. O amor é aqui, dentro de nós.
É em vida que somos generosos. Que enviamos flores a quem amamos. Que confortamos e consolamos.
Às vezes, a gente ama errado. Dedica a vida à pessoas erradas. E, num momento extremo de tristeza, fica à espera de uma única palavra, de uma única rosa. Uma mensagem apenas.
Mas é o silêncio que corta a carne. Que machuca mais do que a morte.
A morte… que é a passagem para o nada.
E nessa desatenção, na frieza daqueles com os quais compartilhamos o amor por uma vida, é que cala, mais do que a morte fria no corpo frio de um irmão, esse estúpido silênciar.
Porque a vida é feita de afeto! …

A estante

Vivemos por entre o conhecimento e as desigualdades. Onde de norte a sul, de leste a oeste, tanta gente se fodendo enquanto uns… pernas pro ar, sofá, ventilador. Freezer, água na pia e no banho… saladinhas, sorvete e cerveja, somamos muitas, mas muitas reclamações sobre o calor.
Aí… eu penso aqui com a minha estante: como você consegue alojar tantos sertões? Tantos desertos? Tanta pobreza? Como consegue amparar essa seca insolúvel? O pó? Falta d’água? Terra rachada? Faces esturricadas.
Ao mesmo tempo que a beleza do mar… os ventos e as velas… céu aceso, ora cravejado de estrelas?
Parti com meus pensamentos para o antigo Egito. Para a Mesopotâmia em solos férteis de outros tempos. Para Moisés em suas andanças. Para o Saara e seus Oásis. Para a miséria proliferando o mundo dos ratos e das moscas.
Parei pra me lembrar do meu atlas. Capa em preto e branco, imponente mas tão desatualizado, o coitado, que não sai dali pra nada por não ter podido profetizar todas as guerras.
E minha estante suportando todo o peso das histórias e das verdades comprimidas entre as capas dos impressos.
Parei de pensar por um instante pra contemplar a solidão do meu suor, embebido em cerveja estupidamente gelada, e refletir mais uma vez com minha estante, tão amiga, mas um tanto solene: de que é que estamos reclamando mesmo? …

sandra barbosa de oliveira

A Malu é uma bola

Do lado de dentro
Da barriga da mãe dela
Ela espicha
Nada
Chuta
E se espreguiça com vontade.

Ainda do lado de dentro
Ela se enrola
Feito tatu-bola
E viaja
Como se estivesse
No espaço sideral.

A barriga da mãe da Malu
Tá gigante
Redonda
Parece que ela
Engoliu a Lua.

Mas é que a Malu
Mora lá dentro
Da barriga da mãe dela
Malu-bola
Malu lua
Gira, estica
E se espreguiça.

Outro dia
Na barriga da mãe dela
A Malu teve soluço
Parecia até que ela
Tinha engolido um sapo

Mas não demora
Ela vai mudar de casa
E do lado de fora
Da barriga da mãe dela
Ela vai ganhar o mundo.

És tu – contemporâneo

Como se às vezes
tua voz me chegasse aos ouvidos
coisas a dizer
gostei da tua mão

Verso moderno
não vale um tostão
maldigo teu olhar
da cor do Arpoador
à beira-mar

Cantar em Bossa Nova
Toms e cifrão
musicalidade
e disso eu entendo

Poesia
a pós-modernidade
te dedica a desilusão
leminskiana

Se me ligares
vais ganhar algodão doce
similares açucares
por uma doçura tua
Jintan

Fragilidade
agora não
somos adultos
na busca das palavras
que se encaixem rimas

Tu poeta
eu abstrato

Eu poeta
te espero…

Só venha se for com tudo

Tem gente que gosta de gente. De movimento, de natureza, de vida.
Tem gente que gosta apenas de si mesmo. Procura por-se sempre à frente de tudo e de todos.
Tem gente que se atira nos braços do mundo. Tem gente que se retrai.
Tem gente que fala, tem gente que cala. Tem gente pra todos os gostos.
Eu gosto de uns, não gosto de alguns. Sou amada pelo suficiente. Pessoas são diferentes. Mas cada uma a seu modo, expressam sua maneira.
Tem gente cujo ego fala por si. E eu acho que a beleza e a elegância estão na simplicidade. Eu convivo aqui com pessoas e pessoas. Este é o mundo virtual, uma janela que se abriu criando uma dimensão paralela que às vezes se confunde com a realidade.
Aqui somos todos lindos e felizes. Na maioria das vezes, hipócritas.
Que no próximo ano a gente consiga abrir caminhos convergentes. Usar mais palavras do que figurinhas. Usar mais voz do que escrita. Ser mais real do que virtual.
A vida está no vento, no barulho, na luz. A vida está na rua, nas respostas, no calor humano.
Não sermos generosos com quem dizemos amar é um sinal de que estamos nos tornando sibernéticos.
Migalhas afetivas é sinônimo de desprezo.
E neste ano, eu quero comer o pão inteiro.
Feliz Ano Novo! …

E se Obama fosse africano?

Mia Couto

… “na realidade, só existe um modo de nos valorizarmos: é pelo trabalho, pela obra que formos capazes de fazer. (…) somos pobres. Ou melhor, fomos empobrecidos pela História, fomos também empobrecidos por nós próprios. A razão dos nossos actuais e futuros fracassos mora também dentro de nós. (…) somos produtores do nosso destino. (…) construtores de um tempo e de um lugar onde nascemos todos os dias. (…) antes vale andar descalço do que tropeçar com os sapatos dos outros.”

* Mia Couto é poeta e biólogo moçambicano e publica no Brasil pela Companhia das Letras, São Paulo.