Fotografia de Coimbra

(José Luís Peixoto)

“Coimbra é a cidade e a esperança dos domingos à tarde. Um calendário abandonado no bolso do casaco é Coimbra. Coimbra são fotografias reveladas de um rolo antigo, esquecido numa gaveta. E, no entanto, enquanto falamos, Coimbra existe e corre no recreio. Existe ar que é respirado apenas por Coimbra. Existe um coração no seu peito a bater, e esse é um milagre de deus que transcende deus.”

(Fotografia de Coimbra – Gaveta de Papéis)

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A primeira viagem

Foi apenas quando o trem de pouso bateu com as rodas no chão que eu me dei conta de que ali estava eu, sozinha e que estava por começar uma grande aventura.

O destino entre os tantos que algozmente antecederam a escolha, desde os primeiros momentos, não surgiu ao acaso e seria o tiro da grande jornada de autoconhecimento e motivação, que estava há muito a minha espera.

Seria eu ali a vislumbrar um mundo de aromas e paisagens, arte, sensações e solidão.

Meu medo me obstruía a passagem mas nunca haveria de chegar a minha hora se eu não criasse o momento… e parti.

Ao desembarcar em Barcelona, naquele que seria o meu primeiro chão de mundo livre, o aeroporto me recepcionou com maestria e me encaminhou para as ruas da cidade.

Ônibus, buzinas, o peso da mochila nas costas, tudo meio adormecido ainda diante do desembarque, no momento da chegada.

A tarde estava morna, o tempo sem cor, nem frio nem calor.

Eu ainda embriagada pelas horas do voo, desci na praça principal, rodeei-a a 360 graus e percebi-me perdida em meu giro, em meu relógio, em meus sentidos, em minhas pernas, tantas eram as ruas que a cercavam que eu não conseguia sair do lugar.

Até que por um momento eu parei, oxigenei, e percebi que já havia chegado ao meu destino e que o caminho me levaria de encontro aos meus anseios de marinheiro atracado no primeiro porto.

E foi assim que eu encontrei o hostel, logo ali perto, no mesmíssimo lugar em que o mapa o havia apontado.

E foi que eu sorri diante da majestosa porta centenária que ao abrí-la pensei comigo…

eu venci!
*

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Imagem Viageira

Pablo Neruda
(trecho de prosa poética)

“Bem, as tardes ao cair na terra rompem-se em pedaços, se estrelam contra o solo. Daí esse ruído, esse vazio do crepúsculo terrestre, essa vozearia misteriosa que não é senão o esmagar-se vespertino do dia. Aqui, a tarde cai em silêncio letal, como o inclinar de uma escura entretela sobre a água. E a noite nos tapa os olhos de surpresa, sem que se ouçam os seus passos, querendo saber se foi reconhecida, ela, a infinita inconfundível.”

A maleta do meu pai

Orhan Pamuk

“O escritor é uma pessoa que passa anos tentando descobrir com paciência um segundo ser dentro de si, e o mundo que o faz ser quem é: quando falo de escrever, o que primeiro me vem à mente não é um romance, um poema ou uma tradição literária, mas uma pessoa que fecha a porta, senta-se diante da mesa e, sozinha, volta-se para dentro: cercada pelas suas sombras, constrói um mundo novo com as palavras. Esse homem – ou essa mulher – pode usar uma máquina de escrever, aproveitar as facilidades de um computador ou escrever com caneta no papel, como venho fazendo há trinta anos. Enquanto escreve, pode tomar chá ou café, ou fumar. De vez em quando, pode se levantar e olhar pela janela as crianças que brincam na rua e, se tiver sorte, contemplar algumas árvores e uma bela vista, ou apenas topar com uma parede escura.Pode escrever poemas, peças de teatro ou romances, como eu. Mas todas essas particularidades só vêm depois da decisão crucial de sentar-se diante da mesa e, pacientemente, voltar-se para dentro. Escrever é transformar em palavras esse olhar para dentro, estudar o mundo para o qual a pessoa se transporta quando se recolhe em si mesma – com paciência, obstinação e alegria.”

Mundo perdido

Desde a hora em que procuro a chave, não sei como tudo há de acabar.
Visto o casaco e me açoito pela avenida lúdica. Única distância até então, a me separar daquilo que eu já nem sei mais o que é. Vou me entranhando no desconhecido, com o frio na barriga de sempre, como uma garota a procurar seu par numa sala de dança lotada de valsa. Mas nada gira, pelo contrário, é apenas um caminho herege e eu, a atravessar toda a cidade, afivelada ao cinto, para me encontrar com alguém, ou ninguém. A procura do endereço, o telefone no bluetooth, a música no rádio e a cidade a me encantar e a me contorcer a caminhada, como se houvesse galhos a desviar a cavalgada. E assim se dá o encontro. Nada de mais, não fosse o amor pendente. Escondido feito adolescente, a cruzar os pontilhões e rotatórias nesta dança macabra que o destino nos impôs. Vai se tornando mais e mais visível. A distância e o frio da cidade que não nos é novidade e os lugares desbravados no passado nos vão re-contando suas histórias. Derretendo-as por calçadas e sargetas em tantas noites frias que nos envaidece. Pois que não conseguem se calar. Os edifícios e as fachadas nos sorriem. Estacionar, trancar, descer, procurar, procurar, olhar, reconhecer, olhar, olhar… não saber onde chegar. Dois mundos, duas vidas, dois amores que já foram um. Pouca conversa, muitas lágrimas, foi o que nos pôde restar. E esse, talvez o último encontro. Desarmados. Com o apagar das luzes num palco macabro a encerrar espetáculos. O descer das cortinas. Com profunda tristeza, é traçada a retórica dos tempos finais. Porque não sei se meu coração tende a aguentar mais despedidas. Cada vez mais funestas a acalentar nosso silêncio. Seu mundo não é mais meu mundo. A estranheza vira autora do empobrecer do tato. O que sempre foi profundo se perde em profundeza. Há despedida. A distância emerge novamente na minha reta avenida. Meu coração não aguenta mais aparar essas arestas. Ele se cala, gélido, como a cidade embevecida na névoa da madrugada. E o carro segue veloz para o nunca. Com um coração a bordo, a espreitar por um mundo perdido.

Meu verbo é ir

Andar na contra-mão é ir além do senso comum. É levantar com o pé esquerdo sem superstição. Enxergar o lado bom de quem é “mau”. E se dar o direito de ser original.
Andar na contra-mão é se lançar no acostamento pra chegar mais rápido. É se permitir estar fora da lei. Longe do que é convencional. Aflorado de subversão. Submerso na emoção para ser feliz.
Liberdade às vezes dói. Mas voar não é pra qualquer um…
Porque o amor é xadrez.

Gira-mundo: único ato

Começa…

Dou voltas no tempo aos rodopios, com os pés em ferida amordaçados por cetim e fita. Vou tentando um caminhar soleve, um quase flutuar.

E de ponta em ponta, de giro em giro, vejo a vida navegando em voltas, ao mesmo tempo em que leva tudo pra bem longe. Distância melódica, ideológica. Distância mágica.

Vejo vestidos em rosa e azuis, as saias resvoam quando bate um ínfimo vento, o girar de uma vida que faz movimento, movimentos com a delicadeza dos braços no abraço.

E te abraço.

E o mundo girando sem sentido, com luzes que invadem minha sensatez. Do sonho impossível a uma clara visão. De um você que aparece no escuro do canto, me carrega nos braços, e gira uma vida comigo.

E me abraça.

Mas eu desvaneço em embriaguez, você se esvai novamente pro canto. Meu canto, um lamento a te procurar. Te olhar, girar, girar. Com os pés a sangrar. Meu choro de dor a perseguir você. Sem te perder, perder… jogada no chão…

…E fecha!

Carta ao poeta I

Publicado em 20 de fevereiro de 2011.

para ler ouvindo

*

Nem um trovador conseguiria descrever um amor como este
Na claridade de minha castidade celestial em oferenda
Não consigo mais sobreviver a assombrações
Definitivamente é você quem me assombra.

A poesia nunca me deixou tantas marcas.
A dor de quem segue por caminhos oblíquos,
nebulosos e confusos em dois sentidos.

Meus dizeres nunca foram tão inócuos.
Meus amores tão vazios.

Não quero te falar que não te quero mais, porque te quero.
Mas não consigo estar diante de escolhas ou diante da falta delas.

Minhas unhas se corroem, minha alma se corrompe.
Tuas palavras não me saem. Mais um pensar que se esconde.

Você se estabeleceu. Uma Virgem se reproduziu em mim
e estou prenha de um amor só seu, que se fará até quando
nesse anjo virtual, que só existe no meu céu
e no inferno desta minha solidão?

Não posso dizer que te amo, porque do amor não se diz.
Mas desse acariciar
em falso incestuoso,
o qual te confesso nesta linha,
só à imagem de tuas mãos me declararia amante.

Teu olhar está encravado em mim, e tua distância desliza
sobre tua presença que me confunde.
Da tua boca em forma do beijo que desejo.
Dos meus olhos na forma de mar, por derramar.

O que não quero é te falar de um amor que nem eu sei.

Mas você é em mim um milagre !!!
Que me fez trocar o não pelo sim.
Que me trouxe a fantasia
do poder amar de novo !!!

Sandra Barbosa de Oliveira
Publicado em 20 de fevereiro de 2011.

Não há silêncio que não termine – Parte I

“Estou só. Ninguém me olha. Finalmente, sozinha comigo mesma. Nessas horas de silêncio que adoro, falo comigo e rememoro (…) Estou livre e choro. De felicidade e de tristeza, de honra e de gratidão. Tornei-me um ser complexo. Não consigo mais sentir uma emoção de cada vez, estou dividida entre contrários que me habitam e me sacodem. Sou dona de mim mesma, mas pequena e frágil, humilde pois consciente demais de minha vulnerabilidade e de minha inconsequência. E minha solidão me descansa. Sou a única responsável por minhas contradições. Sem precisar me esconder, sem o peso daquele que escarnece, que late ou que morde.” (Não há silêncio que não termine – Ingrid Betancourt – Companhia das Letras – 2010.)

Em resposta

Um dia para pensar nos teus sonhos pra mim é muito pouco.
Talvez mais um, ou muitos pra pensar na tua tradução de si mesmo.
Cato entre palavras e entrelinhas alguma possibilidade de você, ao tentar captar do tempo a definição. Minha necessidade é saber.
Olhar e sentir podem esperar a primavera que pra mim já é. Tuas palavras me assombram e mesmo assim encantam. Mas do canto eu espero um sinal.
Palavras e sonhos se misturam numa coisa só. Mas em cada uma delas me arrebento na ânsia de decifrar os signos. Imagens. As enzimas nas histórias que só você pode contar. Leio e releio pra descobrir se sou um bem ou um mal. Se pessoa ou personagem. Se me perdi no tempo… ou se estou perdida no espaço também! …
O meu sonho é voar como fada. Brincar em outras dimensões não é sonhar, viver é brincar em todas elas.
Quero estar nos braços dessa definição bem resolvida em cores fortes, mas o medo é ter mofado nos filmes das tuas lembranças. Dúvidas e certezas estão sempre de passagem e a fraqueza é insólita! …
Ser possível não é estar disponível. É estar presente na tradução do outro.

Vem? …

Vamos lá, vai.
Tire as suas máscaras que eu visto as minhas. Vamos experimentar a liberdade de poder não sermos nada. Que tal fechar um pouco os olhos para nos exercermos na escuridão? …
Se liberta dos protótipos e venha se sentar aqui no chão, no meu jardim, olhar comigo a carinha das flôres, traquilizar o zunido das abelhas.
Venha sentir um pouquinho desse vento antes que ele vire ventania, pior ainda, calmaria. Vamos lá, sem máscaras deve ser muito melhor. Pouse uma das suas mãos sobre uma das minhas. Uma só, porque com a outra a gente tem que se segurar no balanço. Sendo assim, pra cada frio na barriga vai havendo um soprar de amor, só pra encantar ainda mais o nosso dia.
Vem, vai! …

Quando o amor sai do passado

Guardados para sempre na minha caixinha.
Eu amo todos vocês! Eu amo você, Armando Bravi.

Cumprindo Profecias
(Armando Bravi)

Da janela do décimo quinto andar fico procurando sinais da cidade da minha adolescência. Entre prédios modernos de arquitetura duvidosa encontro aqui e alí um telhado familiar, um quintal conhecido – cenários abandonados. Mesmo com toda paisagem renovada e repleta do não-eu, consigo me encontrar nas novas alturas desta vasta Jundiaí.

Na criação deste vídeo passo oito dias em frente ao computador tentando fazer sentido de todas as fotos e lembranças que elas me trazem. Trabalho árduo e detalhista, neurótico por contrôle que sou, que me pede um envolvimento técnico absoluto e força a emoção prá fora do estúdio.

Rostos, escadas, janelas e gestos que passam pelo meu monitor em direção à um resultado coeso e sincronizado com a profecia do Milton Nascimento. Emoções fortes de alegrias passadas e tristezas marcantes passeiam pelo meu coração, um vídeo clip que eu não controlo ou manipulo. Meu coração sempre foi seu próprio diretor e nunca ouviu a voz da razão, mas como na profecia do Milton, só aceita a voz que vem dele mesmo. Meu coração as vezes fala por demais…

Páro o processo de edição por um tempo, pra descansar, fumar, renovar a energia, mas eu sei que realmente é meu coração que precisa de tempo pra transbordar todas as emoções que este passado fotografado me traz e choro, choro muito…

Choro muito na sacada do décimo quinto andar olhando a nova paisagem e não preciso mais do telhado conhecido, do quintal familiar… Agora o externo não pode mais me traduzir. Mudei pra dentro de mim. Só o que me traduz são essas fotos que passeiam pelo monitor e que me levam de cabeça ao passado. Meu presente é este passado branco e preto de recordações. Minhas mãos se unem ao teclado, o computador sou eu e meu coração é a placa mãe.

E vejo Elianas e Cidinhas;
Lauras, Rôs, Selmas, Anas e Cristinas;
vejo as três estrelinhas.
Vejo Frenhis, Vilhenas, Fratesis e Silvas.
Pitucas, Fortunatas, Rabelos e Luizinhas.
Vejo mestres queridos que jamais esquecí.
Vejo Ivaniras, Antonio Carlos, Abigaís e Doroty.
Vejo o laranja e branco no vestido de seda pura
Vejo Regina Toledo, a mãe da minha loucura.

Esse vídeo é para todos nós que, independente de quais anos passamos por estes corredores e salas, escrevemos a história da nossa escola.

Corredores do GEVA, repletos das dúvidas e sonhos da nossa adolescência, estamos de volta para cumprir a profecia do Milton Nascimento. Apertem o cinto de segurança, abram bem os olhos e não deixe o coração piscar. São 50 anos em quatro minutos. Espero ter feito justiça à este presente que, no presente, hoje o passado nos dá!

Armando Bravi é ator e diretor de teatro. Hoje, em NY.

(O poeta III) Alma inútil …

Ouço a bela voz sempre que entro na sala de cima. A escada é fria. A sala de cinema está cheia de emoção, de ficção projetada. Sala pra rir, pra chorar.

Como é linda a sala de cima. Adoro aquele sofá marrom. A tela grande ocupa boa parte da parede, de cima a baixo!

A casa está sempre em silêncio. Não tem televisão. Só o cinema a me confortar e o som desta tua voz em lamento pra mim, uma tortura.

As paredes refletem o teu desespero à led dicróica. Como o olhar do golden retriever a pedir compaixão. Você a me pedir compaixão. Tua voz na sala de cima em desabafo pra mim.

Ouço, nessa voz, toda a tua solidão. O desterro da tua desilusão. Você em sofrimento a implorar perdão.

O cinema é obscuro, mas um lugar de extremo aconchego. O golden retriever me olha com olhos de criança aflita. Tento decifrar na tua voz o olhar do golden retriever. Minha inconsciência te pede entrelinhas para revelar este olhar.

Mas você ignora integral e o teu lamento não te deixa ouvir o suplicar dos teus anseios, nem do teu sofrimento de amor.

O cinema é quente, ressoa o encantamento da tua voz que me abraça. Numa estupidez (até então desconhecida) que desdenha e me segrega.

Largo o meu corpo no sofá marrom como na morte. Meu sofrimento é ainda maior que o teu, pois carrego o desamor que de você absorvo. Quem sofre o teu amor perdido agora sou eu. Parece história de film noir, dos que assisto com a densidade da escuridão daquela sala.

Agora mesmo, eu que me sinto envolta em tua solidão. Essa solidão que você insiste e que sinto no olhar do golden retriever.

Abraço um querer introspectivo. Deixo-me revelar pela ausência da tua voz na sala de cima. Meu despertar dessa trama é tenso. O que quero e o que não quero se misturam sem querer à tua imagem.

Mas tua alma de poeta é tão inútil que nem consegue enxergar. E não é minha a tua culpa!

Sandra Barbosa de Oliveira

Amor Maduro

(Artur da Távola)

O amor maduro não é menor em intensidade.
Ele é apenas silencioso. Não é menor em extensão.
É mais definido colorido e poetizado.
Não carece de demonstrações:
Presenteia com a verdade do sentimento.
Não precisa de presenças exigidas:
amplia-se com as ausências significantes.

O amor maduro tem e quer problemas, sim, como tudo.
Mas vive dos problemas da felicidade.
Problemas da felicidade são formas
trabalhosas de construir o bem, o prazer.
Problemas da infelicidade não interessam ao amor maduro.
Na felicidade está o encontro de peles, o ficar com o gosto da boca
e do cheiro do outro – está a compreensão antecipada, a adivinhação,
o presente de valor interior, a emoção vivida em conjunto,
os discursos silenciosos da percepção, o prazer de conviver,
o equilíbrio de carne e de espírito.

O amor maduro é a valorização do melhor do outro
e a relação com a parte salva de cada pessoa.
Ele vive do que não morreu, mesmo tendo ficado para depois,
vive do que fermentou criando dimensões novas
para sentimentos antigos, jardins abandonados, cheios de sementes.
Ele não pede, tem.
Não reivindica, consegue.
Não percebe, recebe.
Não exige, oferece.
Não pergunta, adivinha.
Existe, para fazer feliz.

O amor maduro cresce na verdade e se esconde a cada auto-ilusão,
basta-se com o todo do pouco. Não precisa e nem quer nada do muito.
Está relacionado com a vida e por isso mesmo é incompleto,
por isso é pleno em cada ninharia por ele transformada em paraíso.
É feito de compreensão, música e mistério.
É a forma sublime de ser adulto e a forma adulta de ser sublime e criança.
É o sol de outono: nítido, mas doce.
Luminoso, sem ofuscar.
Suave, mas definido.
Discreto, mas certo.

O Poeta II

Feito um bicho da seda, a enrolar-se na maciez de seus fios
a aprisionar-se em frieza …
lá se ia o poeta, a murmurar o próprio êxodo,
em fuga a seus próprios sentimentos
sem sentido, nem direção, preso a tradições monótonas
protegido por falsas muralhas,
a carregar, ludibriado, uma garrafa vazia de habilidades
pois nem a pena conseguia por-se a prumo
em suas palavras que como sempre, nefastas.
Pobre poeta.
Seu outono adormecia em pinceladas esparsas
pelos cinzas de sua própria complexidade.

Uma definição autêntica …

“Filho é um ser que nos emprestaram para um curso intensivo de como amar alguém além de nós mesmos, de como mudar nossos piores defeitos para darmos os melhores exemplos e de aprendermos a ter coragem.
Isso mesmo!
Ser pai ou mãe é o maior ato de coragem que alguém pode ter, porque é se expor a todo tipo de dor, principalmente da incerteza de estar agindo corretamente e do medo de perder algo tão amado.
Perder? Como?
Não é nosso, recordam-se?
Foi apenas um empréstimo!”

José Saramago

Musical

A música é matéria molecular.
Ela me alimenta
me acalenta
me modifica…

Ela me adiciona
ao fluir do vento
me faz navegar pela imaginação
incontida

A música me faz tremer,
temer e me ausentar
recuar…
Ela me subtrai

Através da música
meu coração pulsa
meus amores incontroláveis

Ela me invade
na busca
dos arquétipos
escondidos

Me impulsiona
se transformando aos poucos
em palavras…

matéria prima
viceral
da minha linguagem
intimista

E nas palavras que nascem da música,
em emoções a me fazer emergir
de sonhos…

um apenas poder te envolver
neste meu amor autoral.

Teu despertar é canja de galinha

http://www.obagastronomia.com.br/uma-canja-com-sandra-calasans/

Às vezes ficamos tristes.

Nem sempre a razão oferece opções e o coração se aperta todinho, e fica resmungando, cheio de cobranças sobre o que passou, sobre o que é e sobre o que virá.

Céus! Dá um vazio, aquela deprê sem gosto que aposta em nossa desgraça deixando uma vontade de ficar acuado num canto, sem se mexer, sem querer existir.

Hoje, acho que é um dia desses. Tô pior que canja. E não aquela que só eu mesma sei fazer, com galinha gostosa, fresquinha e cheirosa.

Sabe como é?

Você pega uns peitinhos lindinhos e dá uma boa temperada neles. Uma douradinha e um banho que pode ser com água fria mesmo. Aí deixe que cozinhe na água do banho até ficar tenro; não pode passar do ponto senão endurece.

Enquanto ele cozinha já vai dando um caldo com cheirinho bom, mas dois cubinhos de caldo de galinha vão fazer um rebuliço e o cheiro vai ficar ainda mais esperto.

E você vai pensando na vida, nos amores que deixou passar, naqueles que perdeu sabe-se lá por que. Mas não esqueça que deixou a panela no fogo porque senão a canja vai virar uma gororoba.

Pra não mergulhar demais nessa tristeza, você pode dar uma raladinha em cebola (que vai te fazer chorar mais que tua pior desilusão) e na cenoura já pra dentro da panela. E ir colocando pitadas de orégano, manjericão, salsinha … bem devagarinho, só pra dar um colorido, porque isso vai alegrar um pouquinho você.

Tire os peitinhos da panela e coloque lá dentro aquele arroz que sobrou do almoço, já cozido, pro caldo não ficar muito empapado com o cozimento do arroz.

Ponha uma música suave pra tocar, mas não “aquela”… porque vai fazer você lembrar daqueles momentos especiais e isso vai chatear muito você.

Como penitência, desfie o frango ainda quente; vai queimar um pouco as mãos mas você tá merecendo se punir … Não consegue esquecer essa paixão esquisita que arrumou na internet.

Depois de desfiado, jogue o peito na panela, corrija o sal e adicione toda a raiva que você está guardando de si mesmo por ter se lascado em não lascar um beijo logo de uma vez, naquele primeiro e único encontro.

Deixe ferver tudo. Não se esqueça do azeite extra virgem e do queijo ralado no final.

Depois de pronto … encha a cara de vinho tinto, embebede-se de canja de galinha e vá dormir.

Tenha certeza que terá sonhos lindos. E que, pela manhã, adquirirá coragem pra mandar um torpedo dizendo: “Teu despertar é mar” !!! …

Desculpe, morri

Marcelo Rubens Paiva

*

Atendo o telefone e:

“Boa noite, é… Marcelo?”
“Quem é?”
“É você?”
“Quem está falando?”
“Puxa, que bom, eu precisava tanto falar com você, não imagina o trabalhão que deu pra descolar o seu…”
“Quer falar com quem?”
“Com você mesmo, Cariri.”
“Cariri?”
“Não era o teu apelido em Santos?”
“Como você sabe?”
“Pesquisei. Apelido louco. Por que te deram esse apelido?”
“Olha, o que você quer?”
“Sou estudante e estou fazendo um trabalho.”
“Como você descolou o meu telefone?”
“Desculpe, Cariri. A pessoa que me deu pediu para não ser identificada. Você é uma figurinha difícil de achar, hein? Marcelão, Marcelão… Como vão as coisas?”
“Indo.”
“O seu Corinthians, hein?”
“Meu e de muita gente.”
“E a Ana?”
“Ana?”
“A do livro.”
“Que livro?”
“Como ‘que livro’? O seu livro!”
“Qual deles?”
“Tem mais que um?”
“Tem alguns.”
“Caramba! Estou falando do primeiro. Tinha a Ana, que namorava você na época da ditadura.”
“Ah. Não se chamava Ana. Nunca mais vi.”
“Puxa, mas vocês eram tão…”
“Ligados? Mas isso faz tempo, era ditadura ainda. Éramos adolescentes.”
“E a galera toda?”
“Qual?”
“A do livro?”
“Sei lá. Faz décadas isso.”
“A Bianca, a Gorda?”
“Cara, estes nomes são inventados. Cada um foi para o seu lado. O mundo gira, a caravana passa.”
“Que caravana?”
“Deixa pra lá.”
“Pô, você é doidão, mesmo. Quanto tempo você levou pra escrever?”
“O quê?”
“Como o quê? O Feliz Ano Passado?”
“Ah… Levei um ano.”
“Pô, e você ficou uma fera com aquela enfermeira. Meu, rolei de rir naquela parte. Marcelão, que figura. A gente tem que se conhecer, cara, temos muitas coisas em comum.”
“Sério?”
“Com certeza, pô, posso falar? Este livro marcou uma época, ta ligado? Tipo assim, marcou uma geração, certo?”
“Ouvi dizer.”
“Então, como vão as coisas?”
“Indo.”
“Pô, conta mais.”
“É que estou jantando.”
“Ah… Olha só. Eu preciso te entrevistar, cara. Pro meu trabalho de TCC, tá ligado? Trabalho de Conclusão de Curso.”
“Tô ligado.”
“Aí, vamos marcar?”
“Cara, não fica chateado, mas é a quinta pessoa que liga nessa semana pedindo, e não vai dar. Fim de ano, é sempre assim, um monte de estudantes liga, e tenho minha rotina, eu trabalho muito, não é pessoal, vê se me entende.”
“Ah, não vai dizer que vai regular?”
“Cara, é muita gente, não dá pra atender todos…”
“São só umas 25 perguntinhas.”
“Só?”
“Sobre a sua carreira, seus livros, as influências, a ditadura, o seu pai, tortura, desaparecidos, esses lances, a condição dos deficientes, os jovens no mundo de hoje, a diferença entre os jovens da sua época e os de agora, fala do Renato Russo, você era amigo dele, não era? Será só imaginação, me amarro, cara, será que vamos conseguir vencer, será que é tudo isso em vão, você conheceu o Cazuza? Como era, tipo assim, o ambiente naquela época das passeatas dos estudantes? Nós vimos o filme do Cazuza e debatemos na escola a aids e os anos 80, cara, aí, você fala da importância dos livros para os jovens, de como fazer os jovens lerem mais, compara a geração cara-pintada com a da antiglobalização, Fórum Social, falta bandeiras, certo? O Protocolo de Kioto tá aí! Viu os furacões? Os americanos têm que assinar, tá ligado? Pô, deu na seca aqui da Amazônia. Posso mandar as perguntas por e-mail, a gente fala dessa crise aí do PT, você tá acompanhando, não tá? Você ainda curte política? Mó decepção…”
“Cara, não vai dar.”
“Pô, Cariri, você me pareceu um cara legal pelos seus livros.”
“Olha, quando eu estudava, fiz um trabalho enorme sobre lógica aristotélica. Aí, liguei pra Grécia, pra falar com o Aristóteles? Não. Tive que me virar.”
“Que que tem a ver, cara?! Tu é doidão mesmo, aí, ó! Tu fala grego, maluco?!”
“Fiz um trabalho sobre Kafka na escola. Nunca pensei em ligar pra casa dele em Praga.”
“Por que não?”
“Porque ele morreu em 1924! O Machado de Assis também morreu. Ninguém na escola ligaria pra casa dele na hora do almoço ou jantar pra perguntar se Capitu era fi el ou não!”
“Calma aí, meu. Nem tinha telefone naquela época.”
“Olha, vai à sua biblioteca ou use a internet. Não precisa entrevistar o autor para fazer trabalhos. Descobre você.”
“Quer dizer que depois da fama tu ficou convencido. Desculpe aí, cara, foi mal. Nunca mais leio um livro seu. Aí, ó, sabe quem morreu pra você? Eu. Tá se achando, Cariri?!

Cirandar

*

De onde vem essa palavra tão lúdica, tão cheia de fantasia?
O que estaria escondendo à revelia?
A infância na voz de meu pai? Um mistério contido em outra voz?

Ciranda é roda, é magia, é movimento.

Girar, girar… girar até ficar tonto e, parado no lugar,
sentir o mundo todo rodar a sua volta,
fechar os olhos com força pra não ver mais nada
e se entregar a um gargalhar sem fim …
até a tonteira passar.

Na voz de meu pai é amor e proteção.
Em outra voz é algo indecifrável.

Ah Ciranda…
então vamos cirandar !!!

Como aprender sobre tais mistérios?
Sobre os encontros e desencontros a que nos submete a imprevisão?
Um querer consciente e adulto,
que vai nos jogando deliberadamente ao desconhecido,
a fim de obter o frisson de um novo e incomensurável frio na barriga?

Mas pra que isto está sendo dito?

Pra tentar decifrar recados ocultos em trechos ou frases jogadas no ar?
Ou para, através de melodia, elevar os espíritos a um lugar tão alto,
mas tão alto que poderíamos enxergar todo o planeta,
por lentes estratosféricas convexas
a nos talhar imagens deformadas, estranhas e engraçadas?

Não sei bem.

Mas acho que cirandar deve ser algo como fitar um olhar,
conversar em melodia até a boca secar,
falar sério, pensar besteira, dar muita risada
e se deixar desvendar sem medo.

E o que estamos fazendo:
É alimentar desculpa esfarrapada à beira de um abismo incandescente
ou é perpertuar presença diante de uma deliciosa e perigosa sensação
ao nos colocarmos frente a frente com gigantes?

O que é Cirandar afinal: dá pra desenhar ???

Carta ao poeta I

Para ler … ouvindo !!! …

*

Nem um trovador conseguiria descrever um amor como este
Na claridade de minha castidade celestial em oferenda
Não consigo mais sobreviver a assombrações
Definitivamente é você quem me assombra.

A poesia nunca me deixou tantas marcas.
A dor de quem segue por caminhos oblíquos,
nebulosos e confusos em dois sentidos.

Meus dizeres nunca foram tão inócuos.
Meus amores tão vazios.

Não quero te falar que não te quero mais, porque te quero.
Mas não consigo estar diante de escolhas ou diante da falta delas.

Minhas unhas se corroem, minha alma se corrompe.
Tuas palavras não me saem. Mais um pensar que se esconde.

Você se estabeleceu. Uma Virgem se reproduziu em mim
e estou prenha de um amor só seu, que se fará até quando
nesse anjo virtual, que só existe no meu céu
e no inferno desta minha solidão?

Não posso dizer que te amo, porque do amor não se diz.
Mas desse acariciar
em falso incestuoso,
o qual te confesso nesta linha,
só à imagem de tuas mãos me declararia amante.

Teu olhar está encravado em mim, e tua distância desliza
sobre tua presença que me confunde.
Da tua boca em forma do beijo que desejo.
Dos meus olhos na forma de mar, por derramar.

O que não quero é te falar de um amor que nem eu sei.

Mas você é em mim um milagre !!!
Que me fez trocar o não pelo sim.
Que me trouxe a fantasia
do poder amar de novo !!!

Sandra Barbosa de Oliveira

Alucinações

Leia… ouvindo !!! …

*


Existe sempre um alguém elaborando a narrativa.
Se assim não fosse, as histórias não germinariam.

Lindas…

elas brotam e desabrocham,
para abrigar o pólen
que se entrega ao vento para salvaguardar a origem,
até encontrar o sublime momento do êxtase sensorial
que dará o sopro de vida à criação fecunda.

Mas histórias de vivências divergentes
vão sendo talhadas nas rampas do absurdo.

Ficção, descrença, medo, estranheza.
Sob técnicas de persuasão sonora,
onde as vozes viscerais derramam suas palavras
no tear de um destino encrudescido,

e vão sendo transportadas por trilhas
que difundem o caminhar cambaleante,
no dropar por ondas inequívocas, quase imaculadas.

Histórias deslizam pelas convulsões do mundo
num sentido que não se traduz…

E o tempo alenta com a energia dos furacões
pra demonstrar poder no exato instante
do regurgitar da prosa em versos.

Pelos desejos mais intransponíveis
na tormenta avassaladora de suas mal digeridas perdas,

infringe assim, o narrador vigente
em dissidência vertente sobre a mesma estrada,
apenas para mascarar a história que se faz longilínea, viceral…

Ao brindar, transparente e lânguido,
dos lábios em busca de delicados vitrais
que transbordam cores e sabores
pelo cálice do vinho.

Sandra Barbosa de Oliveira

Seu aniversário

Ricardo Lombardi em

Colcha de Retalho

Hoje quando você acordou sentiu mais uma vez aquela falta. Mas hoje é diferente, hoje é o seu aniversário.

Aquela falta, o vazio de todos os dias, hoje, parece passar por cima de sua cabeça e te derrubar no chão.

As horas passam, os dias passam, os meses, os anos virão, mas a falta sempre será esta lacuna em você, em mim, em nós. E hoje é o seu aniversário.

Justo hoje, você sentiu a casa ainda mais vazia. Tão vazia quanto nunca. Hoje você sabe qual é o som do silêncio. Sim, o silêncio. Este silêncio que insiste em gritar todos os dias para você, pra mim, pra nós. O silêncio grita todos os dias: acabou, se virem, vivam as suas vidas. Mas hoje é o seu aniversário.

Não há vontade de comemorar nada, nem de falar com ninguém, muito menos ficar atendendo aos telefonemas para ouvir sempre o mesmo discurso: parabéns, muitas felicidades, saúde, dinheiro e bla, bla, bla.

Parabéns por que, você se pergunta. Você não entende por que deve celebrar a vida se a vida tem sido tão dura ultimamente. E hoje é o seu aniversário.

Logo hoje. Por que não no final do ano? Pra esse tempo passar, esse tempo que todos insistem em nos confortar como a cura de todos os problemas. A cura para a falta, da diminuição do volume do silêncio. A cura que vai preencher o vazio da ausência. O tempo, ah, o tempo. Esse subir e descer do Sol todos os santos dias. E justo hoje, que é o seu aniversário.

E essa dor. Uma experiência que enriquece. Não é possível fugir da dor. Fugir da dor seria fugir da própria cura. A cura que liberta, fazer crescer, faz aprender e faz, enriquecer. E hoje. Ah, hoje é o seu aniversário.

Posso apenas te oferecer como presente o meu amor.

Meu amor na forma mais elevada de energia para preencher sua alma. Meu amor como forma de liberdade. O amor que não discrimina, mas inclui, sempre. Hoje e sempre.

O amor que não é egoísta. Que possui o extraordinário poder curativo capaz de mudar completamente a sua vida.

Meu amor em estado verdadeiro e original da alma porque a necessidade do momento é relembrar esse estado amoroso de ser.

Tudo porque hoje é o seu aniversário.

Numa ciranda

Nesta brincadeira de roda onde todos estamos girando, andando em corda bamba, cada um pensando apenas nas estratégias de sua pobre vida, existe um mundo inteirinho lá fora, querendo  “estar”.

Não se fala em outra coisa, a palavra é “inclusão”… Uma fórmula para a “nova ordem social”… Uma nova maneira de existir no mundo.

Enquanto alguns poucos privilegiados que podem desfrutar do melhor de todos os sonhos adormecem na infusão de água morna e erva daninha, o mundo fervilha a cortar as cabeças de quem não faz jus ao que lhe fora dado em oferenda.

Mas a vida é mesmo assim. Há quem mereça, mas o escolhido nem sempre sabe aproveitar.

Não se poderia querer que nesta rotação frenética houvesse tempo para parar pra pensar. Temos que pensar com o sangue bombando pra cima,  produzindo as enzimas que nos empurram para o fim do túnel. Porque no fim deste túnel existe uma única luz, e todos nós buscando atravessar.

Temos a obrigação de brigar por ela! … Senão, morreremos na praia.

Ausência – Drummond

Carlos Drummond de Andrade

Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.

Divagar em palavras

Encontrar a palavra certa nunca é uma tarefa fácil
Escrever é remeter-se a alusões
e fantasias … puras da ficção
Pareço-me tomada por verdades e mentiras
Ao ter a impressão de sucumbir aos céus
e me deixar cair ao sétimo inferno
a cada palavra reticente

Dar formato à escrita é uma espécie de viagem
por mundos desconhecidos
de arquitetura metafórica
que faz confundir o que está claro
com o que é indescritível

Através da palavra
sentimento mais profundo da expressão
é que encaminhamos nossos pensamentos
à contemplação …

A saber que contemplar é deixar-se invadir
por um observar lancinante
onde se obtém subitamente o admirar lato sensu

A palavra é a explicação para todas as coisas
o aconchego nas horas amargas
a salvação das almas perdidas
sob a forma de oração

E a catarse de uma declaração de amor
onde a beleza sistina complementa toda a devoção
para que haja apenas um compartilhar de emoções …

Sobre um voar

Para ler … ouvindo !!!

*

Apenas em sonho
sou uma ave a navegar
nas nuvens de um bem-querer
abstrato

Mas o meu sobrevoar suave
rabisca no céu um único nome
num desejo inconsequente
de pousar uma das mãos
num doce toque

E na lembrança de um olhar  (in)fundo
e comovente

Mas é apenas o planar de um sonho
errante
na contramão de uma nave
incandescente
a divagar sobretudo a sorte
desse encontro

Como um deslizar no azul do céu
delineando a própria sombra sobre o mar
e adormecer numa obscura noite
infinda de luar

Mas é apenas um sonho
abstrato
com um bem-querer inerente
em muitas vezes insurgente
numa noite vazia onde o luar se esconde
sob o abastar do seu silenciar obstante.

Especialmente

Para você

Desejo o sonho realizado.
O amor esperado.
A esperança renovada.

Para você,
Desejo todas as cores desta vida.
Todas as alegrias que puder sorrir
Todas as músicas que puder emocionar.

Para você,
Desejo que os amigos sejam mais cúmplices,
Que sua família esteja mais unida,
Que sua vida seja mais bem vivida.

Gostaria de lhe desejar tantas coisas.
Mas nada seria suficiente para
Repassar o que realmente desejo a você.

Então, desejo apenas que você tenha muitos desejos.
Desejos grandes e que eles possam te mover a cada minuto,
ao rumo da sua felicidade!

“Carlos Drummond de Andrade”

Aos amigos que tenho, aos que ganhei e ao que perdi … todo amor do mundo !!!

Este ano foi um ano muito especial pra mim. Confesso que estou emocionada por estar falando sobre isso, ando emotiva demais, pelas mudanças que ocorreram em minha vida.

Quero ressaltar acima de tudo os amigos queridos que fiz, virtuais, virtuais que se tornaram presenciais, invisíveis que se tornaram visíveis e presenciais … amigos de tempos passados que acabaram provando que o tempo passa mas que o amor sobrevive a todas as intempéries.

Meu coração pulsa como numa explosão, de tão feliz em poder expressar sentimentos tão delicados.

A vida, este ano, também me mostrou que até uma grande e impiedosa perda pode nos trazer momentos de amor supremo quando temos tempo pra dizer “Eu te amo” … e que isso pode perpetuar uma grande amizade através do infinito.

E que infinitamente estaremos juntos às pessoas que amamos e que podemos amar gratuitamente, sem querer nada em troca. Principalmente porque quando não pedimos nada em troca o que recebemos se faz muito maior.

Tento colocar a emoção de lado mas é impossível …

Quero agradecer ao Universo pelas pessoas que colocou em meu caminho neste ano. E as que trouxe de volta. Quero agradecer aos céus por abrigar meu amigo querido, por quem tantas lágrimas eu derramei, neste ano.

Quero agradecer ao Universo também, por ter poupado a vida do querido Lucas, que apesar dos pesares está podendo beijar sua mãe, minha amada Sula, que é a quem eu poderia dedicar o Céu, aquele onde fica imerso o grande e poderoso Pai, a quem ela tanto ama e em quem tanto confia.

Minha emoção, aqui e agora, me faz derramar todo o meu amor pela face. Porque este ano é o ano dos amigos.

Desejo a todos todo o amor do mundo e agradeço por existirem !!! Amo vocês !!!

E todo o meu amor eu dedico ao amigo Miguel. Que, de onde esteja, consiga sentir a energia de ser amado para sempre .