Fotografia de Coimbra

(José Luís Peixoto)

“Coimbra é a cidade e a esperança dos domingos à tarde. Um calendário abandonado no bolso do casaco é Coimbra. Coimbra são fotografias reveladas de um rolo antigo, esquecido numa gaveta. E, no entanto, enquanto falamos, Coimbra existe e corre no recreio. Existe ar que é respirado apenas por Coimbra. Existe um coração no seu peito a bater, e esse é um milagre de deus que transcende deus.”

(Fotografia de Coimbra – Gaveta de Papéis)

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A primeira viagem

Foi apenas quando o trem de pouso bateu com as rodas no chão que eu me dei conta de que ali estava eu, sozinha e que estava por começar uma grande aventura.

O destino entre os tantos que algozmente antecederam a escolha, desde os primeiros momentos, não surgiu ao acaso e seria o tiro da grande jornada de autoconhecimento e motivação, que estava há muito a minha espera.

Seria eu ali a vislumbrar um mundo de aromas e paisagens, arte, sensações e solidão.

Meu medo me obstruía a passagem mas nunca haveria de chegar a minha hora se eu não criasse o momento… e parti.

Ao desembarcar em Barcelona, naquele que seria o meu primeiro chão de mundo livre, o aeroporto me recepcionou com maestria e me encaminhou para as ruas da cidade.

Ônibus, buzinas, o peso da mochila nas costas, tudo meio adormecido ainda diante do desembarque, no momento da chegada.

A tarde estava morna, o tempo sem cor, nem frio nem calor.

Eu ainda embriagada pelas horas do voo, desci na praça principal, rodeei-a a 360 graus e percebi-me perdida em meu giro, em meu relógio, em meus sentidos, em minhas pernas, tantas eram as ruas que a cercavam que eu não conseguia sair do lugar.

Até que por um momento eu parei, oxigenei, e percebi que já havia chegado ao meu destino e que o caminho me levaria de encontro aos meus anseios de marinheiro atracado no primeiro porto.

E foi assim que eu encontrei o hostel, logo ali perto, no mesmíssimo lugar em que o mapa o havia apontado.

E foi que eu sorri diante da majestosa porta centenária que ao abrí-la pensei comigo…

eu venci!
*

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Rompendo tabus … com Isabel Dias

Quando o assunto é erotismo, muita gente aplaude a literatura apresentada em livros como “Cinquenta tons de cinza”, transformando esse instrumento de opressão em best-seller internacional.
Hollywood também aposta nessa opressão porque sabe que é o idealismo machista que patrocina a exploração de conteúdos onde a mulher é alvo de violência e desrespeito, trazendo milhões de dólares aos cofres da indústria de produções.
Mas quando do tema se faz a abordagem da libertação feminina, onde é a mulher quem resolve mostrar a igualdade de poderes; que o virtuosismo em nada está implícito na castidade; e que, depois de uma longa trajetória de sofrimento, em que sempre impera a traição, a deslealdade, todo tipo de violência psicológica e humilhação por parte de seus próprios companheiros de jornada; o que temos (claro que não em termos gerais), é julgamento, preconceito e discriminação por parte de um tribunal trans-vestido em hipocrisia, dos setores desta sociedade que se diz moderna (no sentido coloquial da palavra) e libertária, mas que no fundo está imersa num conservadorismo provinciano, há dezenas de gerações.
Será que a mulher está despreparada para a felicidade?
Digo tudo isso para introduzir opinião ao livro que acabo de ler.
A autora, minha amiga, se desnuda diante do leitor sem pudores, ao descrever os casos que teve, durante um período de dois anos e meio… com cada um dos 32 homens que conheceu através de um site de relacionamentos, depois de um trágico e complicado processo de divórcio, impulsionada pela raiva e pelo desejo de dar o troco à traição do marido, ao descobrir que ele tinha quatro amantes.
“32 – um homem para cada ano que passei com você” é um livro que lava a alma de todas nós mulheres, que experimentamos a dor de sermos traídas, humilhadas e psicologicamente violentadas por esses homens com quem nos dispusemos a compartilhar a vida, onde acreditávamos viver nossa grande história de amor, com quem nos sentíamos seguras e acalentadas. Com quem tivemos nossos filhos, a quem tivemos dedicados nossos melhores anos, nossa lealdade, nossa beleza vigorosa e nossa juventude.
Isabel Regina Dias é uma mulher de coragem, que não demonstrou ter pudor algum ao denunciar publicamente sua decepção em relação ao homem com quem imaginava envelhecer; a depressão que quase a matou e as descobertas que fez acerca de si mesma; ao se propor, com a aceitação e apoio dos filhos, a essa busca implacável pela mulher que nem sequer sabia haver dentro de si.
Parabéns, Regina, minha amiga… estou aqui pra dizer que você me representa! …
*
Com prefácio de Xico Sá … 215 páginas de muita diversão e reflexão.

Putas

BLOG DO FREITAS

” estamos eu, a Scheila e mais três bilhões de putas ralando diariamente na boquinha da garrafa.”

Por Talita Corrêa

Não sou a primeira. Não sou a última puta da história. Portanto, com a sua licença, um mergulho no submundo:

Nesta semana, UMA MOÇA DIREITA E DE FAMÍLIA resolveu divulgar (com fotos, baixarias e menções ao filho morto do casal) que (pausa para a hashtag) #estápegandoomaridodaScheilaCarvalho.
Uma internauta intelectual, virtuosa e virgem analisou o caso: “Pau que nasce torto nunca se endireita (Menina que requebra, mãe, pega na cabeça). Quem mandou ter um passado sujo como morena do ‘Tchan’? Nunca vai ter respeito. Sou dona de casa e meu marido não faria isso. Agora, que botou botox e virou uma puta velha, vai chorar!’’.

Li. Ri. E pensei: estamos eu, a Scheila e mais três bilhões de putas ralando diariamente na boquinha da garrafa.
Somos putas velhas, sim. Há mais…

Ver o post original 991 mais palavras

Nova ilha

Um dia desses eu vi na tv que no Japão um vulcão entrou em erupção no mar fazendo nascer uma ilha. Achei explêndido. Pensar que aquela lava vai esfriar e que sua “Mãe” vai se encarregar de cobrí-la de vida, verde e marinha. Fiquei a imaginando coberta de vegetação, musgo, abraçada por algas e corais. Tive uma sensação de que tudo se renova. De que a Terra se revolta, expele fogo para formar novos territórios.  Para criar o futuro. Me emocionei. Pensei em mim. Na minha vida e na minha neta que vai nascer. A natureza se incumbindo da continuidade. E assim segue … para aquilo que é eterno. Obrigada “Mãe” !!! …

O Palhaço II

A noite cai como uma luva. Meu coração é saltimbanco. Descumpre ordens. Quando chega o breu ele quer alimento. Saltita sem picadeiro. Dança, pula, quer diversão. Quer divertir. A noite zomba de mim, me espanta o sono. Leio, me entrego a melodias. Mas meu distanciamento de mim mesma não me concentra. Vou pra cozinha, corto cebolas. Mas nem assim consigo chorar. Ando sem graça. Sem risos, sem lágrimas. Minhas vontades estão distraídas também. Meus desejos acanhados. Nem prosa, nem versos. Nem tudo, nem nada. Como pode o poeta viver sem emoção? …

*

Thrive … the world is waking up!

Pra prestar muita atenção. Rever os valores. Conceitos. Rever atitudes. Pensar. Agir! … Mudar

Sobre um voar

Para ler … ouvindo !!!

*

Apenas em sonho
sou uma ave a navegar
nas nuvens de um bem-querer
abstrato

Mas o meu sobrevoar suave
rabisca no céu um único nome
num desejo inconsequente
de pousar uma das mãos
num doce toque

E na lembrança de um olhar  (in)fundo
e comovente

Mas é apenas o planar de um sonho
errante
na contramão de uma nave
incandescente
a divagar sobretudo a sorte
desse encontro

Como um deslizar no azul do céu
delineando a própria sombra sobre o mar
e adormecer numa obscura noite
infinda de luar

Mas é apenas um sonho
abstrato
com um bem-querer inerente
em muitas vezes insurgente
numa noite vazia onde o luar se esconde
sob o abastar do seu silenciar obstante.

Os melhores sabores da vida

http://www.obagastronomia.com.br/os-melhores-sabores-da-vida/

Existem combinações que são sempre especiais. Sabores que se misturam, se harmonizam para acariciar paladares os mais exigentes.

E existem histórias felizes que acariciam a alma devolvendo-a aos melhores momentos da vida, como numa simples comunhão desses sabores ao paladar, uma das mais vibrantes e antigas histórias de amor.

Quanto mais excêntrica a mistureba, mais feliz a satisfação do freguês.

Um dos casamentos esquisitos que eu adoro é o da alcachofra com o vinho tinto.

Uma surpresa rápida de preparar, que combina com inúmeras outras surpresas como comer ao lado de um parceiro interessante ou simplesmente na varanda, ao telefone com uma pessoa pra lá de especial.

Alcachofras e vinho tinto combinam com conversas envolventes, com desejos depravados e novas descobertas.

E é tão fácil de preparar quanto um beijo roubado.

Escolha as flores de alcachofra e coloque-as num vaso com água sobre a mesa da sala. Elas são lindas para adornar qualquer sensação de intimidade. Derrube a luz a meio palmo e deixe uma música suave cantando um jazz ao fundo.

Abra o vinho e coloque-o nas taças.

Separe duas alcachofras e coloque-as na panela de pressão, deixando por até quinze minutos após o barulho da panela invadir o assunto. Mas não o deixe quebrar o romance.

Prepare um molho com shoyu, vinagre balsâmico e azeite extravirgem entre uma e outra canção, poupando as dançantes. E ria muito !!! Gargalhadas, vinho tinto e alcachofras combinam demais.

Se estiver sozinha, vá para a varanda e espere aquele amigo surreal que você conheceu na internet te ligar e morra de rir com as palhaçadas que ele vai propor a você.

Beba até ficar engraçada. Seu amigo vai achá-la interessante.

Vá mergulhando as pétalas da alcachofra uma a uma no molho ou jogue o molho por cima e
sinta o quanto você é feliz.

No meu caso, a voz do amigo estava uma delícia …

Infância

Carlos Drummond de Andrade

Meu pai montava a cavalo, ia para o campo.
Minha mãe ficava sentada cosendo.
Meu irmão pequeno dormia.
Eu sozinho menino entre mangueiras
lia a história de Robinson Crusoé,
comprida história que não acaba mais.

No meio-dia branco de luz uma voz que aprendeu
a ninar nos longes da senzala – e nunca se esqueceu
chamava para o café.
Café preto que nem a preta velha
café gostoso
café bom.

Minha mãe ficava sentada cosendo
olhando para mim:
– Psiu… Não acorde o menino.
Para o berço onde pousou um mosquito.
E dava um suspiro… que fundo!

Lá longe meu pai campeava
no mato sem fim da fazenda.

E eu não sabia que minha história
era mais bonita que a de Robinson Crusoé.

O Silêncio é composto de muitos silêncios

*


Nos silêncios do silêncio muito se poderá ouvir.
Silêncios de cumplicidade e entendimento. Silêncios de ternura.
Silêncios de compaixão. Silêncios de amor. Silêncios de compreensão.
Silêncios de prazer. Silêncios de alegria. Silêncios de confiança.
Silêncios de interesse. Silêncios de saber. Silêncios de emoção …

Mas o silêncio tem outros silêncios. Silêncios que constroem muros,
cujo silêncio é lúgubre e sepulcral.
Silêncios de discriminação. Silêncios de adeus. Silêncios de morte.
Silêncios de crueldade. Silêncios de desconfiança. Silêncios de desamor.
Silêncios de sofrimento. Silêncios de desumanidade. Silêncios de solidão.
Silêncios de angústia. Silêncios de vazio e distanciamento …

O Silêncio é paradoxal.

Na sua infinita ambiguidade residem silêncios
mais ou menos cômodos e oportunistas.
Silêncios de mentira e omissão. Silêncios repletos de covardia. Silêncios de manipulação.

Em cada silêncio das nossas vidas deveremos perguntar:
O que queremos que reste depois de cada silêncio?
De que silêncios queremos preencher o nosso silêncio?

Silêncios que são pontes ou silêncios que são muros ??? …

*

Texto de AMMedeiros (em Sonhos e Paradoxos), publicado em Elemento Língua dia 30/julho de 2008 às 1:24 pm
e reeditado agora, num momento oportuno.

Trinta dias é a conta

Em apenas trinta dias
tudo pode acontecer
Você pode nascer,
você pode morrer …

Em apenas trinta dias
Você pode deixar a seriedade de lado
e só falar asneiras,
fazer bandalheira

Você pode deixar de ser severo consigo mesmo
e simplesmente se aceitar,
se permitir

Pode ser percebido … ou deletado …

Em apenas trinta dias
você pode trocar
o não pelo sim …

Uma lagoa de lágrimas
pelo riso (des)compromissado
da sacanagem

Trinta dias é a conta
pra você sair da casinha
e experimentar ser livre

Mas vai ter que se acertar
com a ansiedade
e muito, muito mesmo …
é com a saudade !!!

Em apenas trinta dias
tudo pode acontecer …

você pode adoecer
você pode socorrer
você pode desistir ou sobreviver

Em apenas trinta dias
você pode se envolver
mas pode se devolver

Pode ir, pode voltar
E de novo rir
E de novo chorar …

Trinta dias é a conta
para se reconhecer,
se decifrar, se reinventar

Mas o mais importante é que,
em apenas trinta dias
você pode persistir, resistir
e ficar pronto pra viver uma nova história

Porque a vida é movimento.

O adormecer dos anjos …

Meus leitores já sabem sobre os meus amores.

Sobre a tal caixinha onde os guardo junto aos sonhos e que mantenho a sete chaves, não para escondê-los … mas para que jamais fujam de minha lembrança.

Pois sim … vou falar aqui, agora, de uma das maiores paixões que eu tenho na vida. Vou deixar que a pele fale por mim, porque esse é um amor químico … que envolve aroma, paisagem, luz, descoberta … o encontro às claras com minha serenidade.

Estou falando do meu lugar ao sol … as livrarias.

Livrarias são cheias de respostas. Solução para os conflitos. Já me descobri e redescobri … já me desconstruí e me reinventei dentro de livrarias. São como templos. Abrigam minha religião e minha fé nas palavras.

É ali que moram os anjos.

Mas como tudo tem suas falhas, como tudo tem seus defeitos … neste dia, os anjos falharam.

Foi numa segunda-feira, 21 de dezembro de 2009, vésperas de Natal, há portanto dez meses … na Livraria Cultura do Conjunto Nacional em São Paulo , um reduto cultural dos mais assediados da Metrópole, ” se pá ” … do Brasil, que uma alma louca e obscura acertou, com um taco de beisebol, um anômimo estudante, designer, em sua busca por conhecimento e por, quem sabe … suas respostas.

Há exatos dez meses, um garoto comum que poderia ser o meu filho … ou seu filho … que na verdade era filho de alguém que vai estar num profundo vazio para sempre.

Não consegui entender como isso foi possível. Driblar os seguranças … tudo bem … mas os anjos ???

Onde estariam os anjos nesta hora. Por quê não olharam para esse menino ??? Por quê não olharam para sua mãe, que deveria estar orando para o deus da proteção assegurar-lhe a volta do filho, assim como eu e vc, a cada passo de nossos filhos pelas calçadas?

Ontem, Henrique de Carvalho Pereira, 22 anos, deixou este mundo e o mundo das livrarias, o dos anjos, o de sua pobre e impotente mãe.

Paro para refletir … para me solidarizar.

O fechamento de um ciclo …

Quase noite … momento crepuscular, beirando à tristeza.

Parto em sentido ao que fora em outros tempos: a casa. O sol já se pôs. Junto com sonhos, esperanças, lembranças simples do cotidiano…

Chego ainda assim com um querer profundo de encontrar-me ali. Mas não me encontro, o que encontro são escombros de casa e escombros de mim.

Vago pelas ruas a procurar flores, perfumes, o cheiro do mato misturado ao cheiro do mar, a vida selvagem, as pedras nas calçadas, as pedras na minha vida, minhas dores.

O céu vai betumizando, minha alma se perdendo em coisas que perdi, nas que achei, em tudo que aprendi ali, olhando para as sombras e para as luzes da montanha em movimento, embora estática … um quadro vivo avistado de minha cama.

Paro pra pensar na sordidez do destino. Mas que, no final das contas, acaba sempre tornando, em meio a lama e degradação, a nova semente num belíssimo Jasmim.

Meus guardados subliminares…

Eu tenho uma caixinha
onde guardo minhas lembranças,
o captar sensitivo …
de minhas melhores visões.

Meus amores, as paixões …
Todos os meus problemas
com as devidas soluções.

Meus desejos
Os segredos …
os meus sonhos mais secretos
e as minhas ilusões.

Eu guardo na caixinha
meus amigos, os meus livros …
e algumas canções.
dois cachorros queridos
um amigo invisível …
Uma história de amor.

A letra de uma música
me feita sob medida,

Das memórias da infância
nos anos sessenta…
eu guardo os detalhes
do julho anual por Copacabana.

E o “glamour” de minha mãe
Eu guardo na mesma caixinha…

Com as confidências de meu pai
em sua linda voz …
a me chamar “Ciranda”!

Quase dois anos diários de “pores-do-sol”
com seus laranjas e lilases …

Nos batimentos do mar na Macumba,
ou no amanhecer de luzes na Paulista
o compassar da sonoridade de um amor sem-fim
A inspirar as melodias que ele fez pra mim

Mas já te guardei na caixinha
sob a flor da minha pele
Pra poder também te amar
quando eu quiser !!!

E.V.A.

Era 1998 … vésperas de carnaval e eu ali sentada no chão, na chuva … porque éramos dois.

Artistas e músicos ensaiavam para a estréia do Expresso 2222, no caminhão onde fora montado o trio elétrico, num panorama intitulado “Gil e Geleia Geral”, no carnaval de Salvador.

Naquele ano, a prefeitura escolhera homenagear os tropicalistas … comemorava-se 30 anos do movimento.

E éramos dois, ali, debaixo de garoa fina, na Estrada Velha do Aeroporto, no antigo aeroporto abandonado, onde se podia ensaiar com trios elétricos por causa do barulho excessivo das caixas de som.

A sigla se consagrou na voz de Ivete, à frente da Banda E.V.A.!

Sentados no paralelepípedo, sobre papelão … Mautner abriu seu livro da vida e narrou, em detalhes, suas histórias em São Paulo, a casa do Pacaembu onde a família morou, a babá que teve grande influência em sua musicalidade, a vinda da família foragida do holocausto, a irmã que ficou … o trabalho do pai que o criou, com música, sua Mitologia do Kaos

… só pra mim !!!

Como é difícil viver de música neste país … eu sei !!!

Tudo isso recitando da mais pura poesia de vida, que tanto o marcou para que me marcasse para sempre.

Jamais vou me esquecer daquela noite … consegui ficar calada de 11 às 4 da manhã, ouvindo esse cara, mestre de todos os mestres, me contando suas lembranças, como se fôssemos velhos companheiros. Fez com que me sentisse realmente assim.

Depois disso, tive o privilégio de estar em sua companhia por diversas vezes, sempre por ocasião das deliciosas festas de aniversário do querido amigo Vercillo, comadreando com Gabi.

Sou uma mulher de sorte.

Meu coração bate forte até hoje quando me lembro da E. V. A. … quando me lembro de Mautner.

Amo Mautner … com toda a suavidade que sua figura consegue explanar !!!

Publicado na ocasião das gravações de “O filho do Holocausto” … baseado na biografia de Mautner, por Pedro Bial …

Sem nome … nem sobrenome !!!

(tradução adaptada)

Quem és tu que encoberto pela noite entras em meu segredo? … Meus ouvidos não beberam cem palavras sequer de tua boca, mas reconheço o seu tom.

Meu inimigo é apenas teu nome. Continuarias sendo o que és, se acaso não fosses…

Não será mão, nem pé, nem braço ou rosto, nem parte alguma que pertença ao corpo. Sê outro nome, que não é parte alguma de ti, e me tens por inteiro.

… Shakespeare !!!

Feliz por nada

Martha Medeiros

Confira a coluna da escritora publicada no Zero Hora

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Geralmente, quando uma pessoa exclama Estou tão feliz!, é porque engatou um novo amor, conseguiu uma promoção, ganhou uma bolsa de estudos, perdeu os quilos que precisava ou algo do tipo. Há sempre um porquê. Eu costumo torcer para que essa felicidade dure um bom tempo, mas sei que as novidades envelhecem e que não é seguro se sentir feliz apenas por atingimento de metas. Muito melhor é ser feliz por nada.

Digamos: feliz porque maio recém começou e temos longos oito meses para fazer de 2010 um ano memorável. Feliz por estar com as dívidas pagas. Feliz porque alguém o elogiou. Feliz porque existe uma perspectiva de viagem daqui a alguns meses. Feliz porque você não magoou ninguém hoje. Feliz porque daqui a pouco será hora de dormir e não há lugar no mundo mais acolhedor do que sua cama.

Esquece. Mesmo sendo motivos prosaicos, isso ainda é ser feliz por muito.

Feliz por nada, nada mesmo?

Talvez passe pela total despreocupação com essa busca. Essa tal de felicidade inferniza. “Faça isso, faça aquilo”. A troco? Quem garante que todos chegam lá pelo mesmo caminho?

Particularmente, gosto de quem tem compromisso com a alegria, que procura relativizar as chatices diárias e se concentrar no que importa pra valer, e assim alivia o seu cotidiano e não atormenta o dos outros. Mas não estando alegre, é possível ser feliz também. Não estando “realizado”, também. Estando triste, felicíssimo igual. Porque felicidade é calma. Consciência. É ter talento para aturar o inevitável, é tirar algum proveito do imprevisto, é ficar debochadamente assombrado consigo próprio: como é que eu me meti nessa, como é que foi acontecer comigo? Pois é, são os efeitos colaterais de se estar vivo.

Benditos os que conseguem se deixar em paz. Os que não se cobram por não terem cumprido suas resoluções, que não se culpam por terem falhado, não se torturam por terem sido contraditórios, não se punem por não terem sido perfeitos. Apenas fazem o melhor que podem.

Se é para ser mestre em alguma coisa, então que sejamos mestres em nos libertar da patrulha do pensamento. De querer se adequar à sociedade e ao mesmo tempo ser livre. Adequação e liberdade simultaneamente? É uma senhora ambição. Demanda a energia de uma usina. Para que se consumir tanto?

A vida não é um questionário de Proust. Você não precisa ter que responder ao mundo quais são suas qualidades, sua cor preferida, seu prato favorito, que bicho seria. Que mania de se autoconhecer. Chega de se autoconhecer. Você é o que é, um imperfeito bem-intencionado e que muda de opinião sem a menor culpa.

Ser feliz por nada talvez seja isso.

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨
Por indicação de Deborah Fraguito (uma amiga real do mundo virtual) …

Um desabafo … por Eliza!

Quando eu era menina, aprendíamos a querer ser médicas, engenheiras ou advogadas. Porque naquela época, o que dava status e dinheiro eram profissões que traziam estabilidade e bem-estar social. Na década de 1960, eu ainda era muito pequena pra compreender o que o dito “Imperialismo” queria de mim. Demorei muitos anos pra descobrir.

Lembro-me ainda da primeira coca-cola, da primeira calça Lee.

Legal era ter uma casa carregada de eletro-domésticos. Mas queríamos ser médicas ou dentistas, professoras de literatura … independentes e de preferência sem sutiãs …

Conforme fui crescendo percebi que o sonho de minha mãe era que eu tivesse “um marido à minha altura”, que pudesse me proporcionar o tal bem-estar social para que eu pudesse ficar em casa, cuidar dos filhos e ir ao cabelereiro.

Mesmo assim continuei com meu sonho de ser jornalista embora, na época, os “ditadores” não gostassem muito dessas coisas.

Com o passar dos anos, subliminarmente, o tal “grande imperador” foi possuindo as mentes inocentes das meninas. Que de uma hora para outra, sem perceber, foram se sentindo obssecadas por uma outra forma de bem-estar social. De bicicletas e carrinhos de bonecas para carros importados, roupas de marca, restaurantes e viagens. É viver no “jet-set” que agora rouba os sonhos infantis da maioria das meninas.

Parece controverso aos tempos.

Mas a explosão dos desejos de consumo estão dividindo com os hormônios púberes uma inquietação que faz com que nossas menininhas queiram estar sexualmente preparadas para enfrentar holofotes e câmeras, cada vez mais cedo, num vale-tudo pelos “cinco minutos de fama”. E nada mais.

E foi assim com Eliza. Nada diferente do que a grande maioria das meninas, queria ser celebridade. Fazer sucesso, ter fotos na revista “Caras”, apresentar um programa da Globo. Ter paparazzis à sua captura… Nada mais que isso.

Mas foi, junto com seu belo corpo, literalmente devorada por uma sociedade insana, geradora de conceitos e valores constituídos por instituições insanas, geridas por milicianos que representam um povo ignorante que deposita o seu insano voto para eleger governantes irresponsáveis que dizem organizar essa terra de loucos!

Assim… sem mais nada a declarar … silêncio! …

Me visitem na cadeia! João Ubaldo Ribeiro

Publicado em “O Globo”, a 02 de abril de 2006, se mantém absolutamente atual e oportuno …

Passei uns dias fora, sem ler jornais ou ver televisão. Deve ter sido esse afastamento fugaz das notícias a razão por que, ao voltar ao convívio delas, tomei um susto. Bastaram esses dias para minha perspectiva se apurar, por assim dizer, e eu sentir em cheio a assombrosa desvergonha a que chegaram o Brasil e suas instituições. Com perdão da má pergunta, que país é este, meu Deus do céu? Resolvi tomar a liberdade de dizer o que me parece no momento, sem eufemismos ou ressalvazinhas bestas, embora, é claro, me arrisque bastante. Posso ter meu sigilo bancário aberto – o que certamente provocaria frouxos de riso nos bisbilhoteiros -, assim como qualquer outro sigilo, pois o governo demonstrou que não merece confiança e é destituído de escrúpulos. Portanto, nenhum dos nossos dados a que é garantida confidencialidade está seguro. Ou de repente escarafuncham meu passado e descobrem um contemporâneo capaz de jurar que eu colei numa prova de latim do ginásio e portanto passei fraudulentamente, o que será considerado crime hediondo por algum tribunal desses do Executivo, que por aí abundam. Finalmente, como não empregarei eufemismos, não é impossível que me acusem de calúnia, difamação ou injúria e eu venha a ser condenado pelo que se considerará um ou mais desses crimes, apesar de que, no meu parecer, se trataria de delito de opinião, figura que não existe, mas que pode perfeitamente ser posta em prática, sob nomes artísticos que lhe emprestem a aparência de legitimidade.

Começo, não sem certo enfado, a dizer o que penso do Executivo, na figura do nosso presidente. Sua conduta me tem transmitido a impressão de que ele é enganador, cara-de-pau, evasivo, fanfarrão, oportunista, ardiloso, demagogo e cínico o suficiente para encarar com desplante todo mundo saber que ele é candidato, mas se aproveita de brechas na lei para fazer campanha à custa do erário e não raro enganosamente. Acho que só é de fato sincero quando se apresenta como o melhor presidente que “este país” já teve, pois o movem as certezas absolutas que a ignorância costuma suscitar. O povo é engabelado por cestas e bolsas mil, enquanto as reformas que efetivamente o redimiriam não vêm e tudo indica que não virão. Tampouco tenho – admito que muito subjetivamente – boa impressão do caráter de Sua Excelência e da sua propalada fidelidade aos amigos, diante da gana de grudar no poder.

Estendo-me, com igual ou maior enfado, ao Congresso e em particular à Câmara. Fazendo as exceções que com certeza são em menor número do que a gente esperançosamente pensa, na minha opinião o Congresso abriga elevada população de faltos de hombridade, larápios, carreiristas, mentirosos, venais, descarados, aproveitadores e membros da futura escola de samba Unidos do Deboche, tal a desfaçatez com que perderam o senso dos limites e da compostura e acham que podem fazer qualquer coisa, inclusive transformar a Câmara em gafieira. Cobertos de privilégios incogitáveis em qualquer país civilizado, os deputados quase não trabalham, trocam de partido em busca de vantagens pessoais e agora só faltam dizer-nos que comamos brioche ou que os incomodados se mudem. Continuarão a desrespeitar e aviltar o pouco que nos deixaram de dignidade e a protagonizar o que poderia ser chamado de chanchada ou ópera-bufa, se isto não insultasse essas duas categorias artísticas.

Minha opinião sobre o Judiciário é que o número de juízes desidiosos ou venais é imenso, o povo não tem confiança na Justiça e ela própria muitas vezes parece não alimentar respeito por si mesma. Não consigo imaginar um juiz da Suprema Corte americana, que inspirou a criação do nosso Supremo Tribunal Federal, distribuindo entrevistinhas a torto e a direito. Tenho certeza de que estaria ameaçado de impeachment o magistrado da Suprema Corte que fosse cumprimentar um advogado de defesa que ganhou uma causa na qual esse mesmo juiz atuou. A Suprema Corte é sagrada, como devia ser o nosso Supremo. Mas, ainda na minha modesta opinião, o Supremo se tem abastardado em inúmeras ocasiões e nunca sua imagem foi tão vulgar e deslustrada.

O que eu penso do nosso sistema político é que falta um bom nome para designá-lo, pois democracia é que não é. Tentando assim de orelhada, ocorrem-me cacocracia, cleptocracia, hipocritocracia ou, melhor ainda, pornocracia, pois é muito menos pornográfico um travesti se exibindo na Avenida Atlântica, para faturar um dinheirinho com os pais de família inatacáveis que constituem a parte mor de sua clientela, do que um vendilhão da pátria, um traficante de votos, um deslumbrado pelo poder, um criminoso disfarçado sob alegações grotescamente entortadas. E penso que nosso país é hoje moralmente flácido e desorientado. Não é incomum que o cidadão não consiga agir corretamente porque o sistema é tão corrompido que não aceita a integridade, ela nos é cada vez mais uma estranha. A corrupção está em toda parte, da gasolina adulterada ao peso roubado nos produtos embalados, aos remédios falsificados, aos atestados forjados, às instituições de caridade trapaceiras e a tudo mais que nos rodeia, onde sempre suspeitamos da existência de uma mutreta, pois a mutreta é o nosso modus operandi trivial.

Havendo assim expressado com franqueza minhas opiniões, no que julgo ser o exercício de um direito que, mais que constitucional, é direito humano basilar (sou jusnaturalista da velha guarda, colegas bacharéis), estou disposto a enfrentar as conseqüências a porventura advirem do que acabo de escrever. Se me processarem e prenderem, espero que o dr. Fernando Henrique, que processado já está sendo, também acabe preso. Achei meu diploma em Itaparica e tenho a mesma famosa prerrogativa de cárcere especial. Mas receio que, numa insólita confluência de posições, ambos peçamos celas separadas.

João Ubaldo Ribeiro