Fotografia de Coimbra

(José Luís Peixoto)

“Coimbra é a cidade e a esperança dos domingos à tarde. Um calendário abandonado no bolso do casaco é Coimbra. Coimbra são fotografias reveladas de um rolo antigo, esquecido numa gaveta. E, no entanto, enquanto falamos, Coimbra existe e corre no recreio. Existe ar que é respirado apenas por Coimbra. Existe um coração no seu peito a bater, e esse é um milagre de deus que transcende deus.”

(Fotografia de Coimbra – Gaveta de Papéis)

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infinita impossibilidade

(Sandra Barbosa de Oliveira)

o poeta encanta
enquanto canta
mantra
em versos
canto escuro como um manto

encantado o véu assim
no entardecer do céu
do sol se pôr
por tanto
azul a iluminar minar
da água azul também
fazer brilhar

o poeta enquanto canta
o mantra em céu
a escoar da chuva
em pleno pôr do sol
no entardecer
lilás molhado
o santo manto
azul transformado
mina também
no anoitecer do seu canto
triste algum lugar
escuro azul

e o poeta canta
encanta estrela em verso
eterno amor
infinita impossibilidade
do canto triste
a desvendar caminho
como seguir seu sonho
a naufragar poemas

*

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É hora de participar!

Não se trata de defender ou acusar governos ou parlamentares, trata-se apenas de defender valores referentes a direitos adquiridos.

Nossos problemas deixaram  de envolver apenas as questões políticas e entraram no campo moral e ético. Perdeu-se a credibilidade nas instituições.

Não se pode revolver-se no tempo para destituir grandes conquistas legais ou coisas quaisquer que possam desconstruir uma suada trajetória às liberdades individuais, nem fortalecer ameaças ao estado democrático de direito.

É a Democracia que está em jogo.Não estamos em meio à uma partida num estádio.

Estamos construindo sociedades, educando crianças para o futuro político da nação.

Toda responsabilidade é pouca em se tratando da vida e do bem comum.

Precisamos de garantias institucionais para que os direitos das minorias fiquem preservados, não permitindo retrocessos e nenhuma subjeção, pois que devemos ouvir, nesse momento, a voz de toda a sociedade.

*

Em tempo: o Brasil é um país laico! …

 

 

E se Obama fosse africano?

Mia Couto

… “na realidade, só existe um modo de nos valorizarmos: é pelo trabalho, pela obra que formos capazes de fazer. (…) somos pobres. Ou melhor, fomos empobrecidos pela História, fomos também empobrecidos por nós próprios. A razão dos nossos actuais e futuros fracassos mora também dentro de nós. (…) somos produtores do nosso destino. (…) construtores de um tempo e de um lugar onde nascemos todos os dias. (…) antes vale andar descalço do que tropeçar com os sapatos dos outros.”

* Mia Couto é poeta e biólogo moçambicano e publica no Brasil pela Companhia das Letras, São Paulo.

Opinião

– Pior do que a ação radical de direita e de esquerda, as quais nem merecem a inclusão no mérito, por deverem estar fora de qualquer classificação numa sociedade civilizada, é a legitimação da ignorância.
A China tem uma das ditaduras mais austeras do mundo, onde o cidadão é qualificado quase como um animal, para prover o sonho de consumo no resto do mundo.
A dicotomia vertical entre a miséria e a riqueza material é absolutamente inaceitável. Mas no Brasil, isso não é diferente. Por isso o meu levantamento de questões que invalidam o uso de termos ideológicos como “comunismo” e “capitalismo”.
No Brasil, o poder é ditado pela extrema direita parlamenrar há décadas. Num rodízio estúpido que sempre cai no mesmo lugar. Esse governo sindicalista corrompido só conseguiu o poder através de conchavos com a direita dos clãs coronealistas, latifundiários e centenários que exercem um poder sujo às custas da pobreza e da falta de interesse pelas questões sociais, forçando assim a má distribuição de renda e o possível crescimento de uma classe média, sobrecarregada de encargos e tributos, avaliados entres os maiores do mundo.
Portanto, essa dita esquerda que nos governa nada mais é do que a direita disfarçada. O Brasil está muito longe de ter um governo socialista moderado, voltado para o bem estar social. Somos um pais de ricos e pobres. Onde o privilégio institucional do capital concentra o poder na mão de poucos, em detrimento às necessidades básicas do cidadão.
O que precisamos é concentrar esforços para que as melhorias no campo da educação, da saúde, do transporte público e da segurança, obrigações constitucionais do Estado estejam ao alcance de toda a população de forma igualitária e justa e isso está muito longe de estar entre as atribuição das ideologias marxistas ou maoístas ou o que quer que se possa querer anexar ao contexto em voga.
O que se há de prezar aqui é apenas justiça social. E para isso há necessidade de manter-se em foco as reformas políticas, tributárias e eleitorais, para que o Brasil possa realmente dar um passo à frente.

Eu quero 100% EDUCAÇÃO! …

A educação precisa de dinheiro vivo.
Educação gera saúde! Educação gera medicina preventiva. Que haja corte nas mordomias desses salafrários que estão no Congresso Nacional. Vamos aplicar o dinheiro em projetos sociais que levem medicina preventiva para as comunidades carentes e isso só será possível através da educação.
Que se leve educação para mães melhorarem as condições de vida de seus filhos, doença tem que ser prevenida, depois tratada. Melhor preparo para os professores do ensino fundamental.
Criança que se alimenta na escola, que trata os dentes na escola e que toma vacina na escola, que passa por consulta médica na escola, precisa menos de hospitais e postos de saúde.
A educação tira a criança das ruas, baixa os níveis de violência. Mães precisam de creches de qualidade pra deixar seus filhos, tudo isso vem através da educação. Um país que investe em educação é um país de população saudável.
Há quem discorde. Mas essa é a minha bandeira.

“TOMORROW IT WILL BE BIGGER”…

“Folks! Pay attention!
Our actions were victorious, but the movement has only begun!
We are part of a national struggle, of a global struggle!
And we won’t stop here. And so, it’s important that everyone come at 6pm,
to the Subway steps, to the bus station!
We will continue the movement because our struggle is much greater than this.
We will only stop when we put ONE MILLION, TWO MILLION, THREE MILLION…
TWENTY MILLION, HERE (Congress)…
To tell them, that it’s not right, what they do with our money.
With our health, with our education.
-TOMORROW IT WILL BE BIGGER”
*
Ouçam a voz do Brasil, numa convocação uníssona, representada pelo movimento que invadiu a cobertura do Congresso Nacional, na última segunda-feira. A força desse grito me representa !!!!!!!!! Esta convocação é para Brasília, mas todos estaremos de prontidão em algum lugar. A Luta é NOSSA! …
*
“Galera … Muita atenção!
O nosso Ato foi vitorioso, mas o movimento apenas começou.
Nós fazemos parte de uma Luta Nacional, de uma Luta Mundial!
Não podemos parar por aqui. Por isso, é importante que todo mundo que está aqui, esteja às seis horas de quinta-feira em frente à escadaria do metrô, na rodoviária. Vamos seguir o movimento porque a nossa luta é muito maior que isto !!!!!! Só vamos parar quando a gente colocar um milhão, dois milhões, três milhões, VINTE MILHÕES, AQUI, PRA FALAR PRA ELES, QUE NÃO ESTÁ CERTO, O QUE ELES FAZEM COM O NOSSO DINHEIRO, COM A NOSSA SAÚDE, COM A NOSSA EDUCAÇÃO !!!!!!”
-“AMANHÃ VAI SER MAIOR MAIOR” !!! …
*
https://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=oqbPYG0yDuI

Manuel Castells analisa as manifestações em São Paulo

por Equipe Fronteiras … (via Jose Luiz Goldfarb)

Sociólogo espanhol, Manuel Castells esteve no Fronteiras do Pensamento 2013 para a conferência Redes de indignação e esperança, homônima à sua mais recente obra, a ser lançada no Brasil em setembro (editora Zahar). Em São Paulo, no preciso momento de sua fala no Teatro Geo (11/06), a Avenida Paulista era espaço de tensão entre a polícia militar e os manifestantes contra o aumento das passagens de ônibus. Questionado pelo público sobre o que estava acontecendo na cidade, Manuel Castells respondeu:

“Todos estes movimentos, como todos os movimentos sociais na história, são principalmente emocionais, não são pontualmente indicativos. Em São Paulo, não é sobre o transporte. Em algum momento, há um fato que traz à tona uma indignação maior. Por isso, meu livro se chama REDES de indignação e de esperança. O fato provoca a indignação e, então, ao sentirem a possibilidade de estarem juntos, ao sentirem que muitos que pensam o mesmo fora do quadro institucional, surge a esperança de fazer algo diferente. O quê? Não se sabe, mas seguramente não é o que está aí. Porque, fundamentalmente, os cidadãos do mundo não se sentem representados pelas instituições democráticas. Não é a velha história da democracia real, não. Eles são contra esta precisa prática democrática em que a classe política se apropria da representação, não presta contas em nenhum momento e justifica qualquer coisa em função dos interesses que servem ao Estado e à classe política, ou seja, os interesses econômicos, tecnológicos e culturais. Eles não respeitam os cidadãos. É esta a manifestação. É isso que os cidadãos sentem e pensam: que eles não são respeitados.

Então, quando há qualquer pretexto que possa unir uma reação coletiva, concentram-se todos os demais. É daí que surge a indicação de todos os motivos – o que cada pessoa sente a respeito da forma com que a sociedade em geral, sobretudo representada pelas instituições políticas, trata os cidadãos. Junto a isso, há algo a mais. Quando falo do espaço público, é o espaço em que se reúne o público, claro. Mas, atualmente, esse espaço é o físico, o urbano, e também o da internet, o ciberespaço. É a conjunção de ambos que cria o espaço autônomo. Porém, o espaço físico é extremamente importante, porque a capacidade do contato pessoal na grande metrópole está sendo negada constantemente. Há uma destituição sistemática do espaço público da cidade, que está sendo convertido em espaço comercial. Shopping centers não são espaços públicos, são espaços privados organizando a interação das pessoas em direção a funções comerciais e de consumo. Os cidadãos resistem a isso.

Veja que interessante é o caso da Praça Taksim e do Parque Gezi, em Istambul. Há meses, eles estão protestando contra a destruição do último parque no centro histórico da cidade, onde seria construído um shopping center, um complexo dedicado aos turistas, que nega aos jovens o espaço que poderiam ter para se relacionar com a natureza, para se reunir, para existir como cidadãos. Portanto, é a negação do direito básico à cidade. O direito, como disse Henri Lefebvre, de se reunir e ocupar um espaço sem ter que pagar, sem ter que consumir ou pedir permissão a autoridades. Por isso, tenta-se ultrapassar a lógica da liberdade na internet à liberdade no espaço urbano.

Eu não posso opinar diretamente sobre os movimentos que estão acontecendo neste momento aqui em São Paulo, mas há algumas características de tentar manifestar que a cidade é dos cidadãos. E este é o elemento fundamental em todas as manifestações que eu observei no mundo.

O que muda atualmente é que os cidadãos têm um instrumento próprio de informação, auto-organização e automobilização que não existia. Antes, se estavam descontentes, a única coisa que podiam fazer era ir diretamente para uma manifestação de massa organizada por partidos e sindicatos, que logo negociavam em nome das pessoas. Mas, agora, a capacidade de auto-organização é espontânea. Isso é novo e isso são as redes sociais. E o virtual sempre acaba no espaço público. Essa é a novidade. Sem depender das organizações, a sociedade tem a capacidade de se organizar, debater e intervir no espaço público.”

Thrive … the world is waking up!

Pra prestar muita atenção. Rever os valores. Conceitos. Rever atitudes. Pensar. Agir! … Mudar

Fumei mas não traguei

Não estou aqui para generalizar, nem para acusar ninguém; não detenho a verdade, apenas faço prevalecer uma opinião pessoal, fazendo-me valer do direito à liberdade de expressão, a favor da descriminalização da maconha e visando a educação de modo que pelo menos se tente diminuir o comércio ilegal de drogas. Se você acha que não tem como ajudar, converse com seu vizinho …

Como já dizia Bill Clinton… também juro, pelo Deus das Santas Contravenções. O que não vem ao caso, ao menos por minha pobre insignificância.
Mas foi hoje, ou no máximo ontem que retuitei (para quem não sabe, copiar e colar o link de um artigo cujo conteúdo você ratifica no twitter – se ainda assim não entendeu o mais indicado é que se atualize um pouquinho mais na web) … um artigo em que se dizia terem os especialistas médicos da UNIFESP chegado ao final de um estudo em que comprovavam que a “maconha emburrece” !!!
Ora ora … achei polêmica a conclusão.
O artigo dizia respeito ao comprometimento intelectual nos indivíduos usuários da droga e, se bem me lembro, de uma provável perda de memória decorrente desse uso.
Ora ora 2 … Atirando meus “achismos” na ciranda, confesso que sem ser especialista no assunto, não vi novidade alguma no que li; em mim, não gerou uma única ponta de surpresa mas, refletindo e ponderando sobre esses anos todos desde que nasci, no finalzinho da década de 1950, os glamurosos e extrovertidos anos 1960 … os 1970, 1980 e 1990 … e diante da necessidade política em se estabelecer esse raciocínio católico em torno do assunto … pensei:
Achismo nº1 – Podem os médicos que trabalham nessas pesquisas e que não nasceram ontem nem hoje, não serem tão leigos no assunto quanto querem parecer, não é?
Achismo nº2 – Estudantes de medicina não são tão tolinhos enquanto estão na universidade, são?
Achismo nº3 – A grande maioria dos grandes intelectuais não precisa ou não quer ter boa memória, não é?
Achismo nº4 – Adolescentes não devem fumar maconha jamais e para isso devem receber educação adequada em casa e na escola, certo? Nem que para isso tenham os pais que serem educados também, ok?
Achismo nº5 – Minha mãe dizia para eu ter cuidado com o pipoqueiro da frente da escola, e a sua também, lembra-se?
Achismo nº6 – Nada que a mãe da gente fala tem muita importância numa determinada idade, só nos damos conta disso quando estamos enrascados com a educação dos nossos filhos, não é mesmo?
Achismo nº7 – Há uma necessidade grande em desmitificar o uso de determinadas drogas como também ficar muito atento ao consumo de bebida alcoólica entre adolescentes cada vez mais jovens porque isso os leva, com toda certeza a querer experimentar drogas mais pesadas, tô errada?
Achismo nº8 – É através do exemplo dos pais que a grande maioria dos adolescentes se inicia no consumo de drogas lícitas (principalmente) e ilícitas, não é? E a grande parte dos pais e mães sabem que um “tapinha” não dói, né não?
Achismo nº9 – Precisamos valorizar a pessoa do professor, ando achando que ele anda com a auto-estima um pouquinho baixa, pode ser?
Achismo nº10 – Não estou aqui para fazer apologia à droga nenhuma, sou mãe, não sou idiota quanto ao consumo de drogas e não posso admitir esse modo quase analfabeto com que a medicina trata um assunto terrível, de saúde pública como é o consumo de drogas que está há muito fora do controle das autoridades, e é assim que estamos vivendo no Brasil. Estou me colocando civicamente do lado oposto ao da hipocrisia com que o assunto é abordado por profissionais de saúde na mídia, como se todos estivéssemos intelectualmente danificados.
Chamar dependentes químicos de burros eu “acho” não ser o melhor caminho.
O tradicional “maconheiro” dos anos 60 já virou médico, engenheiro, arquiteto, músico, jornalista, presidente da república dos Estados Unidos da América. Talvez traficante, bandido ou deputado.
E “nóis” aqui, com essa conversinha mole, nefasta e politicamente impraticável, que jamais acabará com o problema do tráfico de drogas que está matando “os meninos” às vistas da polícia e da sociedade “mediocremente de olhos fechados” para a sarjeta da dita, maldita e malvista “cracolândia” …

Rogai por nós !!! … Fumei, mas não traguei …

Pelas produções brasileiras de audiovisual e cinema …

http://www.peticaopublica.com.br/PeticaoListaSignatarios.aspx?pi=PLC116

Bora lá, rapaziada !!! … Vamos divulgar essa parada. E assinar … Nossos produtores, nossos artistas, nossos músicos, nossos técnicos … nossas famílias estão dependendo disso pra ter uma vida mais digna. O Brasil precisa dar valor para a própria cultura… para a própria produção artística. E isso depende também de VOCÊ !!! Vamos tirar a bunda da cadeira e nos juntarmos nessa briga por melhores condições de divulgação e veiculação de nosso cinema. #culturabrasil Salve salve !!! …

Uma definição autêntica …

“Filho é um ser que nos emprestaram para um curso intensivo de como amar alguém além de nós mesmos, de como mudar nossos piores defeitos para darmos os melhores exemplos e de aprendermos a ter coragem.
Isso mesmo!
Ser pai ou mãe é o maior ato de coragem que alguém pode ter, porque é se expor a todo tipo de dor, principalmente da incerteza de estar agindo corretamente e do medo de perder algo tão amado.
Perder? Como?
Não é nosso, recordam-se?
Foi apenas um empréstimo!”

José Saramago

Elevação – Charles Baudelaire

Elevação

Acima dos valões, acima dos quintais,
Das montanhas, dos bosques, das nuvens, dos mares,
Muito depois do sol, dos campos estelares,
Muito além dos confins das esferas astrais,

Espírito meu, voas com agilidade;
Como o bom nadador que na onda se excita,
Mergulhas com prazer na amplidão infinita,
Na indizível volúpia da virilidade.

Decola para longe deste chão doente,
Vai te purificar no ar superior
E sorver o límpido, divino licor
Da clara luz que inunda o espaço transparente.

Em meio a infortúnio, mágoa e veneno,
Que tornam mais pesada esta vida brumosa,
Feliz de quem puder com asa vigorosa
Alçar vôo no céu luminoso e sereno;

Quem tiver pensamentos como a passarada
Que no ar da manhã revoa em liberdade
— Quem planar sobre a vida, entender a verdade,
Na linguagem da flor e das coisas caladas!

Charles Baudelaire, tradução Jorge Pontual

Infância

Carlos Drummond de Andrade

Meu pai montava a cavalo, ia para o campo.
Minha mãe ficava sentada cosendo.
Meu irmão pequeno dormia.
Eu sozinho menino entre mangueiras
lia a história de Robinson Crusoé,
comprida história que não acaba mais.

No meio-dia branco de luz uma voz que aprendeu
a ninar nos longes da senzala – e nunca se esqueceu
chamava para o café.
Café preto que nem a preta velha
café gostoso
café bom.

Minha mãe ficava sentada cosendo
olhando para mim:
– Psiu… Não acorde o menino.
Para o berço onde pousou um mosquito.
E dava um suspiro… que fundo!

Lá longe meu pai campeava
no mato sem fim da fazenda.

E eu não sabia que minha história
era mais bonita que a de Robinson Crusoé.

Me visitem na cadeia! João Ubaldo Ribeiro

Publicado em “O Globo”, a 02 de abril de 2006, se mantém absolutamente atual e oportuno …

Passei uns dias fora, sem ler jornais ou ver televisão. Deve ter sido esse afastamento fugaz das notícias a razão por que, ao voltar ao convívio delas, tomei um susto. Bastaram esses dias para minha perspectiva se apurar, por assim dizer, e eu sentir em cheio a assombrosa desvergonha a que chegaram o Brasil e suas instituições. Com perdão da má pergunta, que país é este, meu Deus do céu? Resolvi tomar a liberdade de dizer o que me parece no momento, sem eufemismos ou ressalvazinhas bestas, embora, é claro, me arrisque bastante. Posso ter meu sigilo bancário aberto – o que certamente provocaria frouxos de riso nos bisbilhoteiros -, assim como qualquer outro sigilo, pois o governo demonstrou que não merece confiança e é destituído de escrúpulos. Portanto, nenhum dos nossos dados a que é garantida confidencialidade está seguro. Ou de repente escarafuncham meu passado e descobrem um contemporâneo capaz de jurar que eu colei numa prova de latim do ginásio e portanto passei fraudulentamente, o que será considerado crime hediondo por algum tribunal desses do Executivo, que por aí abundam. Finalmente, como não empregarei eufemismos, não é impossível que me acusem de calúnia, difamação ou injúria e eu venha a ser condenado pelo que se considerará um ou mais desses crimes, apesar de que, no meu parecer, se trataria de delito de opinião, figura que não existe, mas que pode perfeitamente ser posta em prática, sob nomes artísticos que lhe emprestem a aparência de legitimidade.

Começo, não sem certo enfado, a dizer o que penso do Executivo, na figura do nosso presidente. Sua conduta me tem transmitido a impressão de que ele é enganador, cara-de-pau, evasivo, fanfarrão, oportunista, ardiloso, demagogo e cínico o suficiente para encarar com desplante todo mundo saber que ele é candidato, mas se aproveita de brechas na lei para fazer campanha à custa do erário e não raro enganosamente. Acho que só é de fato sincero quando se apresenta como o melhor presidente que “este país” já teve, pois o movem as certezas absolutas que a ignorância costuma suscitar. O povo é engabelado por cestas e bolsas mil, enquanto as reformas que efetivamente o redimiriam não vêm e tudo indica que não virão. Tampouco tenho – admito que muito subjetivamente – boa impressão do caráter de Sua Excelência e da sua propalada fidelidade aos amigos, diante da gana de grudar no poder.

Estendo-me, com igual ou maior enfado, ao Congresso e em particular à Câmara. Fazendo as exceções que com certeza são em menor número do que a gente esperançosamente pensa, na minha opinião o Congresso abriga elevada população de faltos de hombridade, larápios, carreiristas, mentirosos, venais, descarados, aproveitadores e membros da futura escola de samba Unidos do Deboche, tal a desfaçatez com que perderam o senso dos limites e da compostura e acham que podem fazer qualquer coisa, inclusive transformar a Câmara em gafieira. Cobertos de privilégios incogitáveis em qualquer país civilizado, os deputados quase não trabalham, trocam de partido em busca de vantagens pessoais e agora só faltam dizer-nos que comamos brioche ou que os incomodados se mudem. Continuarão a desrespeitar e aviltar o pouco que nos deixaram de dignidade e a protagonizar o que poderia ser chamado de chanchada ou ópera-bufa, se isto não insultasse essas duas categorias artísticas.

Minha opinião sobre o Judiciário é que o número de juízes desidiosos ou venais é imenso, o povo não tem confiança na Justiça e ela própria muitas vezes parece não alimentar respeito por si mesma. Não consigo imaginar um juiz da Suprema Corte americana, que inspirou a criação do nosso Supremo Tribunal Federal, distribuindo entrevistinhas a torto e a direito. Tenho certeza de que estaria ameaçado de impeachment o magistrado da Suprema Corte que fosse cumprimentar um advogado de defesa que ganhou uma causa na qual esse mesmo juiz atuou. A Suprema Corte é sagrada, como devia ser o nosso Supremo. Mas, ainda na minha modesta opinião, o Supremo se tem abastardado em inúmeras ocasiões e nunca sua imagem foi tão vulgar e deslustrada.

O que eu penso do nosso sistema político é que falta um bom nome para designá-lo, pois democracia é que não é. Tentando assim de orelhada, ocorrem-me cacocracia, cleptocracia, hipocritocracia ou, melhor ainda, pornocracia, pois é muito menos pornográfico um travesti se exibindo na Avenida Atlântica, para faturar um dinheirinho com os pais de família inatacáveis que constituem a parte mor de sua clientela, do que um vendilhão da pátria, um traficante de votos, um deslumbrado pelo poder, um criminoso disfarçado sob alegações grotescamente entortadas. E penso que nosso país é hoje moralmente flácido e desorientado. Não é incomum que o cidadão não consiga agir corretamente porque o sistema é tão corrompido que não aceita a integridade, ela nos é cada vez mais uma estranha. A corrupção está em toda parte, da gasolina adulterada ao peso roubado nos produtos embalados, aos remédios falsificados, aos atestados forjados, às instituições de caridade trapaceiras e a tudo mais que nos rodeia, onde sempre suspeitamos da existência de uma mutreta, pois a mutreta é o nosso modus operandi trivial.

Havendo assim expressado com franqueza minhas opiniões, no que julgo ser o exercício de um direito que, mais que constitucional, é direito humano basilar (sou jusnaturalista da velha guarda, colegas bacharéis), estou disposto a enfrentar as conseqüências a porventura advirem do que acabo de escrever. Se me processarem e prenderem, espero que o dr. Fernando Henrique, que processado já está sendo, também acabe preso. Achei meu diploma em Itaparica e tenho a mesma famosa prerrogativa de cárcere especial. Mas receio que, numa insólita confluência de posições, ambos peçamos celas separadas.

João Ubaldo Ribeiro

Por que questionar a candidatura Dilma?

Eu não entendo o porquê da indicação do nome de Dilma pelo PT, diante da falta de experiência e preparo na área político-administrativa. Se reclamam da falta de carisma do Serra, o que dizer do carisma de Dilma? E ainda… nós não estamos precisando de autoritarismo, repressão e de nenhuma forma de censura, que tanto o presidente Lula como Dilma e o poderoso Sr. José Dirceu conhecem muito bem e que parecem não ter escrúpulos quanto à sua aplicação. Ninguém precisa de um Hugo Chaves por aqui. Sofremos muito com a ditaduta militar de extrema direita no passado e ninguém quer saber de regimes autoritários. Ditadura é ditadura. Seja na China, em Cuba, no Oriente Médio, na Argentina, no Chile ou em toda a América Latina. Não estamos precisando enaltecer regimes extremistas falidos como o de Fidel, não precisamos de caricaturas políticas. Precisamos de um socialismo liberal que nos garanta as liberdades individuais e de um estadista com competência e experiência em administração pública, que mantenha uma equipe técnica também competente, para dar prosseguimento ao excelente trabalho iniciado por Fernando Henrique Cardoso, ao qual foi dado continuidade satisfatória no governo Lula e que deve seguir adiante no próximo governo para que o país cresça e se desenvolva, concentrando as atenções de forma imediata e definitiva prioritariamente às carências nos setores da saúde e da educação, assuntos que precisam ser solucionados respeitando preceitos de excelência , não para garantir demonstrações estatísticas infames (pelos infames “IBOPES”), mas para garantir urgentes demonstrações dos índices internacionais da ONU. Dilma NÃO!