Fotografia de Coimbra

(José Luís Peixoto)

“Coimbra é a cidade e a esperança dos domingos à tarde. Um calendário abandonado no bolso do casaco é Coimbra. Coimbra são fotografias reveladas de um rolo antigo, esquecido numa gaveta. E, no entanto, enquanto falamos, Coimbra existe e corre no recreio. Existe ar que é respirado apenas por Coimbra. Existe um coração no seu peito a bater, e esse é um milagre de deus que transcende deus.”

(Fotografia de Coimbra – Gaveta de Papéis)

IMG_20170710_195613_611

https://go.hotmart.com/B6166112W

A primeira viagem

Foi apenas quando o trem de pouso bateu com as rodas no chão que eu me dei conta de que ali estava eu, sozinha e que estava por começar uma grande aventura.

O destino entre os tantos que algozmente antecederam a escolha, desde os primeiros momentos, não surgiu ao acaso e seria o tiro da grande jornada de autoconhecimento e motivação, que estava há muito a minha espera.

Seria eu ali a vislumbrar um mundo de aromas e paisagens, arte, sensações e solidão.

Meu medo me obstruía a passagem mas nunca haveria de chegar a minha hora se eu não criasse o momento… e parti.

Ao desembarcar em Barcelona, naquele que seria o meu primeiro chão de mundo livre, o aeroporto me recepcionou com maestria e me encaminhou para as ruas da cidade.

Ônibus, buzinas, o peso da mochila nas costas, tudo meio adormecido ainda diante do desembarque, no momento da chegada.

A tarde estava morna, o tempo sem cor, nem frio nem calor.

Eu ainda embriagada pelas horas do voo, desci na praça principal, rodeei-a a 360 graus e percebi-me perdida em meu giro, em meu relógio, em meus sentidos, em minhas pernas, tantas eram as ruas que a cercavam que eu não conseguia sair do lugar.

Até que por um momento eu parei, oxigenei, e percebi que já havia chegado ao meu destino e que o caminho me levaria de encontro aos meus anseios de marinheiro atracado no primeiro porto.

E foi assim que eu encontrei o hostel, logo ali perto, no mesmíssimo lugar em que o mapa o havia apontado.

E foi que eu sorri diante da majestosa porta centenária que ao abrí-la pensei comigo…

eu venci!
*

20170710_011016

https://go.hotmart.com/M6163460B

 

E se Obama fosse africano?

Mia Couto

… “na realidade, só existe um modo de nos valorizarmos: é pelo trabalho, pela obra que formos capazes de fazer. (…) somos pobres. Ou melhor, fomos empobrecidos pela História, fomos também empobrecidos por nós próprios. A razão dos nossos actuais e futuros fracassos mora também dentro de nós. (…) somos produtores do nosso destino. (…) construtores de um tempo e de um lugar onde nascemos todos os dias. (…) antes vale andar descalço do que tropeçar com os sapatos dos outros.”

* Mia Couto é poeta e biólogo moçambicano e publica no Brasil pela Companhia das Letras, São Paulo.

Imagem Viageira

Pablo Neruda
(trecho de prosa poética)

“Bem, as tardes ao cair na terra rompem-se em pedaços, se estrelam contra o solo. Daí esse ruído, esse vazio do crepúsculo terrestre, essa vozearia misteriosa que não é senão o esmagar-se vespertino do dia. Aqui, a tarde cai em silêncio letal, como o inclinar de uma escura entretela sobre a água. E a noite nos tapa os olhos de surpresa, sem que se ouçam os seus passos, querendo saber se foi reconhecida, ela, a infinita inconfundível.”

A maleta do meu pai

Orhan Pamuk

“O escritor é uma pessoa que passa anos tentando descobrir com paciência um segundo ser dentro de si, e o mundo que o faz ser quem é: quando falo de escrever, o que primeiro me vem à mente não é um romance, um poema ou uma tradição literária, mas uma pessoa que fecha a porta, senta-se diante da mesa e, sozinha, volta-se para dentro: cercada pelas suas sombras, constrói um mundo novo com as palavras. Esse homem – ou essa mulher – pode usar uma máquina de escrever, aproveitar as facilidades de um computador ou escrever com caneta no papel, como venho fazendo há trinta anos. Enquanto escreve, pode tomar chá ou café, ou fumar. De vez em quando, pode se levantar e olhar pela janela as crianças que brincam na rua e, se tiver sorte, contemplar algumas árvores e uma bela vista, ou apenas topar com uma parede escura.Pode escrever poemas, peças de teatro ou romances, como eu. Mas todas essas particularidades só vêm depois da decisão crucial de sentar-se diante da mesa e, pacientemente, voltar-se para dentro. Escrever é transformar em palavras esse olhar para dentro, estudar o mundo para o qual a pessoa se transporta quando se recolhe em si mesma – com paciência, obstinação e alegria.”

Um dos poemas mais lindos que li nos últimos dias

Desencontro

Jorge de Sena, 1919 // 1978. Portugal

Só quem procura sabe como há dias
de imensa paz deserta; pelas ruas
a luz perpassa dividida em duas:
a luz que pousa nas paredes frias,
outra que oscila desenhando estrias
nos corpos ascendentes como luas
suspensas, vagas, deslizantes, nuas,
alheias, recortadas e sombrias.

E nada coexiste. Nenhum gesto
a um gesto corresponde; olhar nenhum
perfura a placidez, como de incesto,

de procurar em vão; em vão desponta
a solidão sem fim, sem nome algum
que mesmo o que se encontra não se encontra.

Mundo perdido

Desde a hora em que procuro a chave, não sei como tudo há de acabar.
Visto o casaco e me açoito pela avenida lúdica. Única distância até então, a me separar daquilo que eu já nem sei mais o que é. Vou me entranhando no desconhecido, com o frio na barriga de sempre, como uma garota a procurar seu par numa sala de dança lotada de valsa. Mas nada gira, pelo contrário, é apenas um caminho herege e eu, a atravessar toda a cidade, afivelada ao cinto, para me encontrar com alguém, ou ninguém. A procura do endereço, o telefone no bluetooth, a música no rádio e a cidade a me encantar e a me contorcer a caminhada, como se houvesse galhos a desviar a cavalgada. E assim se dá o encontro. Nada de mais, não fosse o amor pendente. Escondido feito adolescente, a cruzar os pontilhões e rotatórias nesta dança macabra que o destino nos impôs. Vai se tornando mais e mais visível. A distância e o frio da cidade que não nos é novidade e os lugares desbravados no passado nos vão re-contando suas histórias. Derretendo-as por calçadas e sargetas em tantas noites frias que nos envaidece. Pois que não conseguem se calar. Os edifícios e as fachadas nos sorriem. Estacionar, trancar, descer, procurar, procurar, olhar, reconhecer, olhar, olhar… não saber onde chegar. Dois mundos, duas vidas, dois amores que já foram um. Pouca conversa, muitas lágrimas, foi o que nos pôde restar. E esse, talvez o último encontro. Desarmados. Com o apagar das luzes num palco macabro a encerrar espetáculos. O descer das cortinas. Com profunda tristeza, é traçada a retórica dos tempos finais. Porque não sei se meu coração tende a aguentar mais despedidas. Cada vez mais funestas a acalentar nosso silêncio. Seu mundo não é mais meu mundo. A estranheza vira autora do empobrecer do tato. O que sempre foi profundo se perde em profundeza. Há despedida. A distância emerge novamente na minha reta avenida. Meu coração não aguenta mais aparar essas arestas. Ele se cala, gélido, como a cidade embevecida na névoa da madrugada. E o carro segue veloz para o nunca. Com um coração a bordo, a espreitar por um mundo perdido.

“The Genius of the Croud”

A primeira leitura do dia na semana que se inicia, é um poema com densidade “bukowiskiana”, tenso e intenso, sugerindo a inquietação própria do autor, numa visão crítica sobre a capacidade do ser humano na avaliação do semelhante.

“The Genius of the Croud”
(Tradução livre: Literatura Clandestina)

O GÊNIO DA MULTIDÃO

Há suficiente violência, traição,
ódio absurdo no ser humano comum
para abastecer qualquer exército
a qualquer dia.

E os melhores assassinos são aqueles
que pregam contra ele
e os que melhor odeiam são aqueles
que pregam o amor
e os melhores na guerra
– por fim – são aqueles que pregam
a paz.

Aqueles que pregam deus
precisam de deus
aqueles que pregam a paz
não têm paz
aqueles que pregam o amor
não têm amor

Cuidado com os pregadores
cuidado com os conhecedores
cuidado com aqueles que
sempre estão lendo livros
cuidado com aqueles que detestam
a pobreza ou estão orgulhosos dela
cuidado com aqueles rápidos na prece
porque eles precisam de preces em troca
cuidado com aqueles rápidos em censurar
eles têm medo daquilo que não conhecem

cuidado com aqueles que buscam
multidões constantes
eles não são nada sozinhos
cuidado com o homem comum
a mulher comum
cuidado com o amor deles
o amor deles é comum, busca o
comum

mas há genialidade no modo como odeiam
há genialidade suficiente no ódio
deles para matá-lo,
para matar qualquer um
por não desejarem a solidão
por não entenderem a solidão
tentarão destruir tudo
que seja diferente deles mesmos
por serem incapazes de criar arte
eles não entenderão a arte
considerarão o fracasso
como criadores
somente como uma falha do mundo
por serem incapazes de amar por completo
acreditarão que seu amor é
incompleto
e assim eles odiarão você
e o ódio deles será perfeito

como um diamante que cintila
como uma faca
como uma montanha
como um tigre
como cicuta

Sua mais fina arte.

Charles Bukowiski

“No que creem os que não creem”

Hoje, “folheando” a internet em busca de conhecimento, eu esbarrei num livro que li há 13 anos, cujo conteúdo se mantém atualíssimo, extremamente apropriado ao momento em que vivemos.

O escritor e filósofo Umberto Eco, um dos mais conceituados pensadores laicos, dos mais importantes semiólogos da atualidade e o Cardeal Carlo Maria Martini, então Arcebispo de Milão (1999), passaram um ano se correspondendo sobre assuntos como …

“A existência de Deus e a invenção de Deus, os fundamentos da ética e o respeito ao outro, as mulheres e o sacerdócio, a liberdade de escolha e de ação frente aos imperativos religiosos, o aborto, o respeito à vida, a engenheira genética, o apocalipse e a idéia de fim na cultura laica, a existência ou não de uma noção de esperança comum a crentes e não crentes.”

Cartas tansformadas em livro, interessante pela dualidade ideológica do debate, travado com total liberdade dialética, “No que creem os que não creem” é litaratura obrigatória para aqueles que sentem a necessidade de formar opinião acerca dos assuntos que envolvem religião e Ética, tão em voga nos dias de hoje.

É um livro de 160 páginas, editado pela Editora Record.
Vale a pena ler. Indico! …

Thrive … the world is waking up!

Pra prestar muita atenção. Rever os valores. Conceitos. Rever atitudes. Pensar. Agir! … Mudar

Amor Maduro

(Artur da Távola)

O amor maduro não é menor em intensidade.
Ele é apenas silencioso. Não é menor em extensão.
É mais definido colorido e poetizado.
Não carece de demonstrações:
Presenteia com a verdade do sentimento.
Não precisa de presenças exigidas:
amplia-se com as ausências significantes.

O amor maduro tem e quer problemas, sim, como tudo.
Mas vive dos problemas da felicidade.
Problemas da felicidade são formas
trabalhosas de construir o bem, o prazer.
Problemas da infelicidade não interessam ao amor maduro.
Na felicidade está o encontro de peles, o ficar com o gosto da boca
e do cheiro do outro – está a compreensão antecipada, a adivinhação,
o presente de valor interior, a emoção vivida em conjunto,
os discursos silenciosos da percepção, o prazer de conviver,
o equilíbrio de carne e de espírito.

O amor maduro é a valorização do melhor do outro
e a relação com a parte salva de cada pessoa.
Ele vive do que não morreu, mesmo tendo ficado para depois,
vive do que fermentou criando dimensões novas
para sentimentos antigos, jardins abandonados, cheios de sementes.
Ele não pede, tem.
Não reivindica, consegue.
Não percebe, recebe.
Não exige, oferece.
Não pergunta, adivinha.
Existe, para fazer feliz.

O amor maduro cresce na verdade e se esconde a cada auto-ilusão,
basta-se com o todo do pouco. Não precisa e nem quer nada do muito.
Está relacionado com a vida e por isso mesmo é incompleto,
por isso é pleno em cada ninharia por ele transformada em paraíso.
É feito de compreensão, música e mistério.
É a forma sublime de ser adulto e a forma adulta de ser sublime e criança.
É o sol de outono: nítido, mas doce.
Luminoso, sem ofuscar.
Suave, mas definido.
Discreto, mas certo.

Uma definição autêntica …

“Filho é um ser que nos emprestaram para um curso intensivo de como amar alguém além de nós mesmos, de como mudar nossos piores defeitos para darmos os melhores exemplos e de aprendermos a ter coragem.
Isso mesmo!
Ser pai ou mãe é o maior ato de coragem que alguém pode ter, porque é se expor a todo tipo de dor, principalmente da incerteza de estar agindo corretamente e do medo de perder algo tão amado.
Perder? Como?
Não é nosso, recordam-se?
Foi apenas um empréstimo!”

José Saramago

Carta ao poeta I

Para ler … ouvindo !!! …

*

Nem um trovador conseguiria descrever um amor como este
Na claridade de minha castidade celestial em oferenda
Não consigo mais sobreviver a assombrações
Definitivamente é você quem me assombra.

A poesia nunca me deixou tantas marcas.
A dor de quem segue por caminhos oblíquos,
nebulosos e confusos em dois sentidos.

Meus dizeres nunca foram tão inócuos.
Meus amores tão vazios.

Não quero te falar que não te quero mais, porque te quero.
Mas não consigo estar diante de escolhas ou diante da falta delas.

Minhas unhas se corroem, minha alma se corrompe.
Tuas palavras não me saem. Mais um pensar que se esconde.

Você se estabeleceu. Uma Virgem se reproduziu em mim
e estou prenha de um amor só seu, que se fará até quando
nesse anjo virtual, que só existe no meu céu
e no inferno desta minha solidão?

Não posso dizer que te amo, porque do amor não se diz.
Mas desse acariciar
em falso incestuoso,
o qual te confesso nesta linha,
só à imagem de tuas mãos me declararia amante.

Teu olhar está encravado em mim, e tua distância desliza
sobre tua presença que me confunde.
Da tua boca em forma do beijo que desejo.
Dos meus olhos na forma de mar, por derramar.

O que não quero é te falar de um amor que nem eu sei.

Mas você é em mim um milagre !!!
Que me fez trocar o não pelo sim.
Que me trouxe a fantasia
do poder amar de novo !!!

Sandra Barbosa de Oliveira

Alucinações

Leia… ouvindo !!! …

*


Existe sempre um alguém elaborando a narrativa.
Se assim não fosse, as histórias não germinariam.

Lindas…

elas brotam e desabrocham,
para abrigar o pólen
que se entrega ao vento para salvaguardar a origem,
até encontrar o sublime momento do êxtase sensorial
que dará o sopro de vida à criação fecunda.

Mas histórias de vivências divergentes
vão sendo talhadas nas rampas do absurdo.

Ficção, descrença, medo, estranheza.
Sob técnicas de persuasão sonora,
onde as vozes viscerais derramam suas palavras
no tear de um destino encrudescido,

e vão sendo transportadas por trilhas
que difundem o caminhar cambaleante,
no dropar por ondas inequívocas, quase imaculadas.

Histórias deslizam pelas convulsões do mundo
num sentido que não se traduz…

E o tempo alenta com a energia dos furacões
pra demonstrar poder no exato instante
do regurgitar da prosa em versos.

Pelos desejos mais intransponíveis
na tormenta avassaladora de suas mal digeridas perdas,

infringe assim, o narrador vigente
em dissidência vertente sobre a mesma estrada,
apenas para mascarar a história que se faz longilínea, viceral…

Ao brindar, transparente e lânguido,
dos lábios em busca de delicados vitrais
que transbordam cores e sabores
pelo cálice do vinho.

Sandra Barbosa de Oliveira

Seu aniversário

Ricardo Lombardi em

Colcha de Retalho

Hoje quando você acordou sentiu mais uma vez aquela falta. Mas hoje é diferente, hoje é o seu aniversário.

Aquela falta, o vazio de todos os dias, hoje, parece passar por cima de sua cabeça e te derrubar no chão.

As horas passam, os dias passam, os meses, os anos virão, mas a falta sempre será esta lacuna em você, em mim, em nós. E hoje é o seu aniversário.

Justo hoje, você sentiu a casa ainda mais vazia. Tão vazia quanto nunca. Hoje você sabe qual é o som do silêncio. Sim, o silêncio. Este silêncio que insiste em gritar todos os dias para você, pra mim, pra nós. O silêncio grita todos os dias: acabou, se virem, vivam as suas vidas. Mas hoje é o seu aniversário.

Não há vontade de comemorar nada, nem de falar com ninguém, muito menos ficar atendendo aos telefonemas para ouvir sempre o mesmo discurso: parabéns, muitas felicidades, saúde, dinheiro e bla, bla, bla.

Parabéns por que, você se pergunta. Você não entende por que deve celebrar a vida se a vida tem sido tão dura ultimamente. E hoje é o seu aniversário.

Logo hoje. Por que não no final do ano? Pra esse tempo passar, esse tempo que todos insistem em nos confortar como a cura de todos os problemas. A cura para a falta, da diminuição do volume do silêncio. A cura que vai preencher o vazio da ausência. O tempo, ah, o tempo. Esse subir e descer do Sol todos os santos dias. E justo hoje, que é o seu aniversário.

E essa dor. Uma experiência que enriquece. Não é possível fugir da dor. Fugir da dor seria fugir da própria cura. A cura que liberta, fazer crescer, faz aprender e faz, enriquecer. E hoje. Ah, hoje é o seu aniversário.

Posso apenas te oferecer como presente o meu amor.

Meu amor na forma mais elevada de energia para preencher sua alma. Meu amor como forma de liberdade. O amor que não discrimina, mas inclui, sempre. Hoje e sempre.

O amor que não é egoísta. Que possui o extraordinário poder curativo capaz de mudar completamente a sua vida.

Meu amor em estado verdadeiro e original da alma porque a necessidade do momento é relembrar esse estado amoroso de ser.

Tudo porque hoje é o seu aniversário.

Ausência – Drummond

Carlos Drummond de Andrade

Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.

Elevação – Charles Baudelaire

Elevação

Acima dos valões, acima dos quintais,
Das montanhas, dos bosques, das nuvens, dos mares,
Muito depois do sol, dos campos estelares,
Muito além dos confins das esferas astrais,

Espírito meu, voas com agilidade;
Como o bom nadador que na onda se excita,
Mergulhas com prazer na amplidão infinita,
Na indizível volúpia da virilidade.

Decola para longe deste chão doente,
Vai te purificar no ar superior
E sorver o límpido, divino licor
Da clara luz que inunda o espaço transparente.

Em meio a infortúnio, mágoa e veneno,
Que tornam mais pesada esta vida brumosa,
Feliz de quem puder com asa vigorosa
Alçar vôo no céu luminoso e sereno;

Quem tiver pensamentos como a passarada
Que no ar da manhã revoa em liberdade
— Quem planar sobre a vida, entender a verdade,
Na linguagem da flor e das coisas caladas!

Charles Baudelaire, tradução Jorge Pontual

Especialmente

Para você

Desejo o sonho realizado.
O amor esperado.
A esperança renovada.

Para você,
Desejo todas as cores desta vida.
Todas as alegrias que puder sorrir
Todas as músicas que puder emocionar.

Para você,
Desejo que os amigos sejam mais cúmplices,
Que sua família esteja mais unida,
Que sua vida seja mais bem vivida.

Gostaria de lhe desejar tantas coisas.
Mas nada seria suficiente para
Repassar o que realmente desejo a você.

Então, desejo apenas que você tenha muitos desejos.
Desejos grandes e que eles possam te mover a cada minuto,
ao rumo da sua felicidade!

“Carlos Drummond de Andrade”

Infância

Carlos Drummond de Andrade

Meu pai montava a cavalo, ia para o campo.
Minha mãe ficava sentada cosendo.
Meu irmão pequeno dormia.
Eu sozinho menino entre mangueiras
lia a história de Robinson Crusoé,
comprida história que não acaba mais.

No meio-dia branco de luz uma voz que aprendeu
a ninar nos longes da senzala – e nunca se esqueceu
chamava para o café.
Café preto que nem a preta velha
café gostoso
café bom.

Minha mãe ficava sentada cosendo
olhando para mim:
– Psiu… Não acorde o menino.
Para o berço onde pousou um mosquito.
E dava um suspiro… que fundo!

Lá longe meu pai campeava
no mato sem fim da fazenda.

E eu não sabia que minha história
era mais bonita que a de Robinson Crusoé.

Edgar Allan Poe (Tradução Machado de Assis)

O Corvo

Em certo dia, à hora, à hora
Da meia-noite que apavora,
Eu, caindo de sono e exausto de fadiga,
Ao pé de muita lauda antiga,
De uma velha doutrina, agora morta,
Ia pensando, quando ouvi à porta
Do meu quarto um soar devagarinho,
E disse estas palavras tais:
“É alguém que me bate à porta de mansinho;
Há de ser isso e nada mais.”

Ah! bem me lembro! bem me lembro!
Era no glacial dezembro;
Cada brasa do lar sobre o chão refletia
A sua última agonia.
Eu, ansioso pelo sol, buscava
Sacar daqueles livros que estudava
Repouso (em vão!) à dor esmagadora
Destas saudades imortais
Pela que ora nos céus anjos chamam Lenora.
E que ninguém chamará mais.

E o rumor triste, vago, brando
Das cortinas ia acordando
Dentro em meu coração um rumor não sabido,
Nunca por ele padecido.
Enfim, por aplacá-lo aqui no peito,
Levantei-me de pronto, e: “Com efeito,
(Disse) é visita amiga e retardada
Que bate a estas horas tais.
É visita que pede à minha porta entrada:
Há de ser isso e nada mais.”

Minh’alma então sentiu-se forte;
Não mais vacilo e desta sorte
Falo: “Imploro de vós, — ou senhor ou senhora,
Me desculpeis tanta demora.
Mas como eu, precisando de descanso,
Já cochilava, e tão de manso e manso
Batestes, não fui logo, prestemente,
Certificar-me que aí estais.”
Disse; a porta escancaro, acho a noite somente,
Somente a noite, e nada mais.

Com longo olhar escruto a sombra,
Que me amedronta, que me assombra,
E sonho o que nenhum mortal há já sonhado,
Mas o silêncio amplo e calado,
Calado fica; a quietação quieta;
Só tu, palavra única e dileta,
Lenora, tu, como um suspiro escasso,
Da minha triste boca sais;
E o eco, que te ouviu, murmurou-te no espaço;
Foi isso apenas, nada mais.

Entro coa alma incendiada.
Logo depois outra pancada
Soa um pouco mais forte; eu, voltando-me a ela:
“Seguramente, há na janela
Alguma cousa que sussurra. Abramos,
Eia, fora o temor, eia, vejamos
A explicação do caso misterioso
Dessas duas pancadas tais.
Devolvamos a paz ao coração medroso,
Obra do vento e nada mais.”

Abro a janela, e de repente,
Vejo tumultuosamente
Um nobre corvo entrar, digno de antigos dias.
Não despendeu em cortesias
Um minuto, um instante. Tinha o aspecto
De um lord ou de uma lady. E pronto e reto,
Movendo no ar as suas negras alas,
Acima voa dos portais,
Trepa, no alto da porta, em um busto de Palas;
Trepado fica, e nada mais.

Diante da ave feia e escura,
Naquela rígida postura,
Com o gesto severo, — o triste pensamento
Sorriu-me ali por um momento,
E eu disse: “O tu que das noturnas plagas
Vens, embora a cabeça nua tragas,
Sem topete, não és ave medrosa,
Dize os teus nomes senhoriais;
Como te chamas tu na grande noite umbrosa?”
E o corvo disse: “Nunca mais”.

Vendo que o pássaro entendia
A pergunta que lhe eu fazia,
Fico atônito, embora a resposta que dera
Dificilmente lha entendera.
Na verdade, jamais homem há visto
Cousa na terra semelhante a isto:
Uma ave negra, friamente posta
Num busto, acima dos portais,
Ouvir uma pergunta e dizer em resposta
Que este é seu nome: “Nunca mais”.

No entanto, o corvo solitário
Não teve outro vocabulário,
Como se essa palavra escassa que ali disse
Toda a sua alma resumisse.
Nenhuma outra proferiu, nenhuma,
Não chegou a mexer uma só pluma,
Até que eu murmurei: “Perdi outrora
Tantos amigos tão leais!
Perderei também este em regressando a aurora.”
E o corvo disse: “Nunca mais!”

Estremeço. A resposta ouvida
É tão exata! é tão cabida!
“Certamente, digo eu, essa é toda a ciência
Que ele trouxe da convivência
De algum mestre infeliz e acabrunhado
Que o implacável destino há castigado
Tão tenaz, tão sem pausa, nem fadiga,
Que dos seus cantos usuais
Só lhe ficou, na amarga e última cantiga,
Esse estribilho: “Nunca mais”.

Segunda vez, nesse momento,
Sorriu-me o triste pensamento;
Vou sentar-me defronte ao corvo magro e rudo;
E mergulhando no veludo
Da poltrona que eu mesmo ali trouxera
Achar procuro a lúgubre quimera,
A alma, o sentido, o pávido segredo
Daquelas sílabas fatais,
Entender o que quis dizer a ave do medo
Grasnando a frase: “Nunca mais”.

Assim posto, devaneando,
Meditando, conjeturando,
Não lhe falava mais; mas, se lhe não falava,
Sentia o olhar que me abrasava.
Conjeturando fui, tranqüilo a gosto,
Com a cabeça no macio encosto
Onde os raios da lâmpada caíam,
Onde as tranças angelicais
De outra cabeça outrora ali se desparziam,
E agora não se esparzem mais.

Supus então que o ar, mais denso,
Todo se enchia de um incenso,
Obra de serafins que, pelo chão roçando
Do quarto, estavam meneando
Um ligeiro turíbulo invisível;
E eu exclamei então: “Um Deus sensível
Manda repouso à dor que te devora
Destas saudades imortais.
Eia, esquece, eia, olvida essa extinta Lenora.”
E o corvo disse: “Nunca mais”.

“Profeta, ou o que quer que sejas!
Ave ou demônio que negrejas!
Profeta sempre, escuta: Ou venhas tu do inferno
Onde reside o mal eterno,
Ou simplesmente náufrago escapado
Venhas do temporal que te há lançado
Nesta casa onde o Horror, o Horror profundo
Tem os seus lares triunfais,
Dize-me: existe acaso um bálsamo no mundo?”
E o corvo disse: “Nunca mais”.

“Profeta, ou o que quer que sejas!
Ave ou demônio que negrejas!
Profeta sempre, escuta, atende, escuta, atende!
Por esse céu que além se estende,
Pelo Deus que ambos adoramos, fala,
Dize a esta alma se é dado inda escutá-la
No éden celeste a virgem que ela chora
Nestes retiros sepulcrais,
Essa que ora nos céus anjos chamam Lenora!”
E o corvo disse: “Nunca mais.”

“Ave ou demônio que negrejas!
Profeta, ou o que quer que sejas!
Cessa, ai, cessa! clamei, levantando-me, cessa!
Regressa ao temporal, regressa
À tua noite, deixa-me comigo.
Vai-te, não fique no meu casto abrigo
Pluma que lembre essa mentira tua.
Tira-me ao peito essas fatais
Garras que abrindo vão a minha dor já crua.”
E o corvo disse: “Nunca mais”.

E o corvo aí fica; ei-lo trepado
No branco mármore lavrado
Da antiga Palas; ei-lo imutável, ferrenho.
Parece, ao ver-lhe o duro cenho,
Um demônio sonhando. A luz caída
Do lampião sobre a ave aborrecida
No chão espraia a triste sombra; e, fora
Daquelas linhas funerais
Que flutuam no chão, a minha alma que chora
Não sai mais, nunca, nunca mais!

Um Beijo …

“Beijo na testa é sinal de carinho e no queixo é vontade de subir mais um pouquinho.”
(Autor desconhecido)

Beijo

Beijo também se dá a Amigo e Irmão
São gestos sinceros de afecto e carinho
É sentido, vem do fundo do meu coração
Para todos que iluminam o meu caminho!

Quero tocar-te suavemente sem fim
Quero sentir a essência desse teu sabor
Um toque com o fogo do amor
Uma chama que arde por ti, dentro de mim.
Meus olhos fecham-se… só para te sentir

Meus lábios ardem de desejo feito vulcão
Meu corpo arrepia e, acelera o meu coração
E meu olhar diz que te quer sem pedir.

Fecho os olhos e sinto o teu tocar
O meu olhar tenta entrar no teu coração
Sugo meus lábios para sentir o resta de teu sabor
Meus desejos são mais fortes que o simples tesão
São ânsias de sentir o toque do teu amor
Um sonho de ter para mim, o teu eterno beijar!


Cesar Gonçalves

Twitter: @cesargreat … (click aqui) …

Sem nome … nem sobrenome !!!

(tradução adaptada)

Quem és tu que encoberto pela noite entras em meu segredo? … Meus ouvidos não beberam cem palavras sequer de tua boca, mas reconheço o seu tom.

Meu inimigo é apenas teu nome. Continuarias sendo o que és, se acaso não fosses…

Não será mão, nem pé, nem braço ou rosto, nem parte alguma que pertença ao corpo. Sê outro nome, que não é parte alguma de ti, e me tens por inteiro.

… Shakespeare !!!

Mude ! – Tente outra vez …

” Mude, mas comece devagar,
porque a direção é mais importante
que a velocidade.

Sente-se em outra cadeira,
no outro lado da mesa.
Mais tarde, mude de mesa.

Quando sair,
procure andar pelo outro lado da rua.
Depois, mude de caminho,
ande por outras ruas,
calmamente,
observando com atenção
os lugares por onde
você passa.

Tome outros ônibus.
Mude por uns tempos o estilo das roupas.
Dê os teus sapatos velhos.
Procure andar descalço alguns dias.

Tire uma tarde inteira
para passear livremente na praia,
ou no parque,
e ouvir o canto dos passarinhos.

Veja o mundo de outras perspectivas.
Abra e feche as gavetas
e portas com a mão esquerda.

Durma no outro lado da cama…
depois, procure dormir em outras camas.

Assista a outros programas de tv,
compre outros jornais…
leia outros livros,
Viva outros romances.

Não faça do hábito um estilo de vida.
Ame a novidade.
Durma mais tarde.
Durma mais cedo.

Aprenda uma palavra nova por dia
numa outra língua.
Corrija a postura.
Coma um pouco menos,
escolha comidas diferentes,
novos temperos, novas cores,
novas delícias.

Tente o novo todo dia.
o novo lado,
o novo método,
o novo sabor,
o novo jeito,
o novo prazer,
o novo amor.
a nova vida.

Tente.
Busque novos amigos.
Tente novos amores.
Faça novas relações.

Almoce em outros locais,
vá a outros restaurantes,
tome outro tipo de bebida
compre pão em outra padaria.
Almoce mais cedo,
jante mais tarde ou vice-versa.

Escolha outro mercado…
outra marca de sabonete,
outro creme dental…
tome banho em novos horários.

Use canetas de outras cores.
Vá passear em outros lugares.

Ame muito,
cada vez mais,
de modos diferentes.

Troque de bolsa,
de carteira,
de malas,
troque de carro,
compre novos óculos,
escreva outras poesias.

Jogue os velhos relógios,
quebre delicadamente
esses horrorosos despertadores.

Vá a outros cinemas,
outros cabeleireiros,
outros teatros,
visite novos museus.

Se você não encontrar razões para ser livre,
invente-as.
Seja criativo.

E aproveite para fazer uma viagem
despretensiosa,
longa, se possível sem destino.

Experimente coisas novas.
Troque novamente.
Mude, de novo.
Experimente outra vez.

Você certamente conhecerá coisas melhores
e coisas piores do que as já conhecidas,
mas não é isso o que importa.

O mais importante é a mudança,
o movimento,
o dinamismo,
a energia.
Só o que está morto não muda !

Repito por pura alegria de viver:
a salvação é pelo risco, sem o qual a vida não
vale a pena!!!! ”

Texto de Edson Marques

* Texto escrito por Edson Marques, cujo livro (contendo o poema) foi lançado pela Editora Original Pandabooks, com prefácio de Antonio Abujamra. (Erroneamente creditado à Clarice Lispector).
adaptação: Pedro Bial

Raul Seixas – Tente outra vez…