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Fotografia de Coimbra

(José Luís Peixoto)

“Coimbra é a cidade e a esperança dos domingos à tarde. Um calendário abandonado no bolso do casaco é Coimbra. Coimbra são fotografias reveladas de um rolo antigo, esquecido numa gaveta. E, no entanto, enquanto falamos, Coimbra existe e corre no recreio. Existe ar que é respirado apenas por Coimbra. Existe um coração no seu peito a bater, e esse é um milagre de deus que transcende deus.”

(Fotografia de Coimbra – Gaveta de Papéis)

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#EuTeAmoBarcelona

A primeira viagem

Foi apenas quando o trem de pouso bateu com as rodas no chão que eu me dei conta de que ali estava eu, sozinha e que estava por começar uma grande aventura.

O destino entre os tantos que antecederam a escolha, desde os primeiros momentos, não surgiu ao acaso e seria o tiro da grande jornada de autoconhecimento e motivação, que estava há muito a minha espera.

Seria eu ali a vislumbrar um mundo de aromas e paisagens, arte, sensações e solidão.

Meu medo me obstruía a passagem mas nunca haveria de chegar a minha hora se eu não criasse o momento… e parti.

Ao desembarcar em Barcelona, naquele que seria o meu primeiro chão de mundo livre, o aeroporto me recepcionou com maestria e me encaminhou para as ruas da cidade.

Ônibus, buzinas, o peso da mochila nas costas, tudo meio adormecido ainda diante do desembarque, no momento da chegada.

A tarde estava morna, o tempo sem cor, nem frio nem calor.

Eu ainda embriagada pelas horas do voo, desci na praça principal, rodeei-a a 360 graus e percebi-me perdida em meu giro, em meu relógio, em meus sentidos, em minhas pernas, tantas eram as ruas que a cercavam que eu não conseguia sair do lugar.

Até que por um momento eu parei, oxigenei, e percebi que já havia chegado ao meu destino e que o caminho me levaria de encontro aos meus anseios de marinheiro atracado no primeiro porto.

E foi assim que eu encontrei o hostel, logo ali perto, no mesmíssimo lugar em que o mapa o havia apontado.

E foi que eu sorri diante da majestosa porta centenária que ao abrí-la pensei comigo…

eu venci!
*

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E se Obama fosse africano?

Mia Couto

… “na realidade, só existe um modo de nos valorizarmos: é pelo trabalho, pela obra que formos capazes de fazer. (…) somos pobres. Ou melhor, fomos empobrecidos pela História, fomos também empobrecidos por nós próprios. A razão dos nossos actuais e futuros fracassos mora também dentro de nós. (…) somos produtores do nosso destino. (…) construtores de um tempo e de um lugar onde nascemos todos os dias. (…) antes vale andar descalço do que tropeçar com os sapatos dos outros.”

* Mia Couto é poeta e biólogo moçambicano e publica no Brasil pela Companhia das Letras, São Paulo.

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Imagem Viageira

Pablo Neruda
(trecho de prosa poética)

“Bem, as tardes ao cair na terra rompem-se em pedaços, se estrelam contra o solo. Daí esse ruído, esse vazio do crepúsculo terrestre, essa vozearia misteriosa que não é senão o esmagar-se vespertino do dia. Aqui, a tarde cai em silêncio letal, como o inclinar de uma escura entretela sobre a água. E a noite nos tapa os olhos de surpresa, sem que se ouçam os seus passos, querendo saber se foi reconhecida, ela, a infinita inconfundível.”

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A maleta do meu pai

Orhan Pamuk

“O escritor é uma pessoa que passa anos tentando descobrir com paciência um segundo ser dentro de si, e o mundo que o faz ser quem é: quando falo de escrever, o que primeiro me vem à mente não é um romance, um poema ou uma tradição literária, mas uma pessoa que fecha a porta, senta-se diante da mesa e, sozinha, volta-se para dentro: cercada pelas suas sombras, constrói um mundo novo com as palavras. Esse homem – ou essa mulher – pode usar uma máquina de escrever, aproveitar as facilidades de um computador ou escrever com caneta no papel, como venho fazendo há trinta anos. Enquanto escreve, pode tomar chá ou café, ou fumar. De vez em quando, pode se levantar e olhar pela janela as crianças que brincam na rua e, se tiver sorte, contemplar algumas árvores e uma bela vista, ou apenas topar com uma parede escura.Pode escrever poemas, peças de teatro ou romances, como eu. Mas todas essas particularidades só vêm depois da decisão crucial de sentar-se diante da mesa e, pacientemente, voltar-se para dentro. Escrever é transformar em palavras esse olhar para dentro, estudar o mundo para o qual a pessoa se transporta quando se recolhe em si mesma – com paciência, obstinação e alegria.”

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Um dos poemas mais lindos que li nos últimos dias

Desencontro

Jorge de Sena, 1919 // 1978. Portugal

Só quem procura sabe como há dias
de imensa paz deserta; pelas ruas
a luz perpassa dividida em duas:
a luz que pousa nas paredes frias,
outra que oscila desenhando estrias
nos corpos ascendentes como luas
suspensas, vagas, deslizantes, nuas,
alheias, recortadas e sombrias.

E nada coexiste. Nenhum gesto
a um gesto corresponde; olhar nenhum
perfura a placidez, como de incesto,

de procurar em vão; em vão desponta
a solidão sem fim, sem nome algum
que mesmo o que se encontra não se encontra.

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Mundo perdido

Desde a hora em que procuro a chave, não sei como tudo há de acabar.
Visto o casaco e me açoito pela avenida lúdica. Única distância até então, a me separar daquilo que eu já nem sei mais o que é. Vou me entranhando no desconhecido, com o frio na barriga de sempre, como uma garota a procurar seu par numa sala de dança lotada de valsa. Mas nada gira, pelo contrário, é apenas um caminho herege e eu, a atravessar toda a cidade, afivelada ao cinto, para me encontrar com alguém, ou ninguém. A procura do endereço, o telefone no bluetooth, a música no rádio e a cidade a me encantar e a me contorcer a caminhada, como se houvesse galhos a desviar a cavalgada. E assim se dá o encontro. Nada de mais, não fosse o amor pendente. Escondido feito adolescente, a cruzar os pontilhões e rotatórias nesta dança macabra que o destino nos impôs. Vai se tornando mais e mais visível. A distância e o frio da cidade que não nos é novidade e os lugares desbravados no passado nos vão re-contando suas histórias. Derretendo-as por calçadas e sargetas em tantas noites frias que nos envaidece. Pois que não conseguem se calar. Os edifícios e as fachadas nos sorriem. Estacionar, trancar, descer, procurar, procurar, olhar, reconhecer, olhar, olhar… não saber onde chegar. Dois mundos, duas vidas, dois amores que já foram um. Pouca conversa, muitas lágrimas, foi o que nos pôde restar. E esse, talvez o último encontro. Desarmados. Com o apagar das luzes num palco macabro a encerrar espetáculos. O descer das cortinas. Com profunda tristeza, é traçada a retórica dos tempos finais. Porque não sei se meu coração tende a aguentar mais despedidas. Cada vez mais funestas a acalentar nosso silêncio. Seu mundo não é mais meu mundo. A estranheza vira autora do empobrecer do tato. O que sempre foi profundo se perde em profundeza. Há despedida. A distância emerge novamente na minha reta avenida. Meu coração não aguenta mais aparar essas arestas. Ele se cala, gélido, como a cidade embevecida na névoa da madrugada. E o carro segue veloz para o nunca. Com um coração a bordo, a espreitar por um mundo perdido.