Cuca Roseta – Igreja Santa Maria de Óbidos

Óbidos é a sede do município de mesmo nome, situado no distrito de Leiria, região central de Portugal. Sua grande atração é a Vila Medieval, que conta com cerca de 2200 habitantes e é hoje importante polo turístico da região.

Seus primeiros achados datam da Invasão Romana na península Ibérica, em tempos de César Augusto, no século I a.C., com referências bibliográficas remetidas ao século I, na obra “Naturalis Historia” de Plínio, o velho, onde foi citada.

Seu nome deriva do termo latino “ópido”, que significa cidadela. E é conceituada como a cidade literária.

Reza a lenda que a Igreja Santa Maria de Óbidos tenha sido construída no período visigótico e, depois de ser transformada em mesquita no período de dominação mulçumana, voltou ao poder da Igreja Romana, em 1148, pelas mão de D. Afonso Henriques.

Aos finais do século XV, ela passou por uma reedificação, pois que apresentava-se em completa ruína, promovida, quem sabe, por um possível terremoto, anterior ao de 1755 que devastou Lisboa e toda a região sul de Portugal.

E foi na Igreja Santa Maria de Óbidos, que no sábado, 03 de junho último, a maior cantora de fado da atualidade, Cuca Roseta, subiu ao altar em seu tradicionalíssimo casamento, e nos presenteou com essa interpretação impecável de Ave Maria, que fica aqui para celebrar o que é Portugal.

Conhecer Óbidos é paragem obrigatória para quem visita Portugal. Simplesmente inesquecível.

Portugal, minha paixão!

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A ganância é “Lilás”! …

O que eles querem mesmo é dinheiro, sim !!!!!

Foi-se o tempo em que os artistas primavam por sua arte, se engajavam em lutas ideológicas e sociais, eles mudaram de lado, ficaram ricos.

Junto a essa briga escandalosa para censurar de antemão suas “pretensas biografias”, existem máscaras a serem derrubadas. A vida do músico (o empregado do “canário”) no Brasil não é um mar de rosas, não. Passa muito longe do glamour idealizado por tiétes. A maioria recebe salário de fome, os artistas não têm critérios para cumprir suas agendas, desmarcam tournés inteiras sem o menor pudor e respeito às famílias dos músicos que dependem dessa agenda para educar seus filhos.

A maioria dos músicos trabalha sem contrato de trabalho, sem um plano de saúde, sem aposentadoria. Vivem uma vida clandestina de trabalho informal. Alguns “patrões sanguessugas” passam a vida “chupinhando” produtores e arranjadores sem sequer creditar seus nomes ao trabalho, quanto mais pagamento justo dos percentuais em royalties.

Se apropriam, assim, da “arte do outro” para meter o dinheiro no bolso. Não entendo essa agora de acusar biógrafos por ações as quais eles mesmos passam a vida praticando contra seus “prestadores de serviço”. Estamos falando de arte. Estamos falando de música, de criação. A grande maioria dos músicos brasileiros acaba a vida na miséria.

Precisando de apoio financeiro de amigos; sem a menor dignidade. Às vezes, precisam se manter calados anos a fio para não sofrer represálias, porque músico que abre a boca não trabalha. Músico que processa artista por questões trabalhistas não consegue tocar com mais ninguém.

Nana Caymmi disse tudo: “Vida de artista é vida pública. Devem dar graças a Deus se alguém tiver interesse em biografá-las.” Afinal de contas foi essa a escolha. Esse é o preço e o que todos almejam é o sucesso.

Se querem privacidade devem fechar suas portas pra revista Caras. O mercado editorial brasileiro tem que reagir ao egocentrismo.

Lógico que falo apenas de alguns.

É uma “cúpula abastada e gananciosa” que não pensa que seus trabalhos dependem de uma equipe. O mínimo que eu sempre esperei foi que tratassem os profissionais da equipe com um pouco de respeito.

O ministério do trabalho deveria abrir uma sindicância pra averiguar as condições em que trabalham esses músicos no Brasil.

E a receita federal deveria prestar um pouco mais de atenção aos “borderôs” das bilheterias dos shows.

O Palhaço II

A noite cai como uma luva. Meu coração é saltimbanco. Descumpre ordens. Quando chega o breu ele quer alimento. Saltita sem picadeiro. Dança, pula, quer diversão. Quer divertir. A noite zomba de mim, me espanta o sono. Leio, me entrego a melodias. Mas meu distanciamento de mim mesma não me concentra. Vou pra cozinha, corto cebolas. Mas nem assim consigo chorar. Ando sem graça. Sem risos, sem lágrimas. Minhas vontades estão distraídas também. Meus desejos acanhados. Nem prosa, nem versos. Nem tudo, nem nada. Como pode o poeta viver sem emoção? …

*

Sexo e luz – Gal e Lokua Kanza

Quando o Sol
Abaixou
Num dia tão monótono,
A paixão
Me deixou
Atônito.

Me tirou
Da rotina,
E num momento único,
Alterou
Meu destino
De súbito.

Aí,
Saí do vale do meu tormento,
E fui
Cair no lago do teu amor;
Ali,
Aliviei todo o meu sofrimento,
E ui,
Me vi gemendo de prazer que nem de dor.

Enfim, lancei
De mim um grito;
E em ti, fui um
Com o infinito.

E no céu
Do meu eu,
No íntimo, no âmago,
Acendeu
Um límpido
Relâmpago.

No ápice,
Em átimos
Que pareceram séculos,
Eu me banhei
E me lavei
Em sexo e luz.

Então,
Além do monte, além do horizonte,
Oh sim,
Além do mundo, além da razão,
Oh não,
Bebi do poço sem fundo, da fonte
Sem fim,
O poço do desejo, a fonte da paixão.

Enfim, lancei
De mim um grito;
E em ti, fui um
Com o infinito.

Composição: Lobua Kanza/ Carlos Rennó

Alucinações

Leia… ouvindo !!! …

*


Existe sempre um alguém elaborando a narrativa.
Se assim não fosse, as histórias não germinariam.

Lindas…

elas brotam e desabrocham,
para abrigar o pólen
que se entrega ao vento para salvaguardar a origem,
até encontrar o sublime momento do êxtase sensorial
que dará o sopro de vida à criação fecunda.

Mas histórias de vivências divergentes
vão sendo talhadas nas rampas do absurdo.

Ficção, descrença, medo, estranheza.
Sob técnicas de persuasão sonora,
onde as vozes viscerais derramam suas palavras
no tear de um destino encrudescido,

e vão sendo transportadas por trilhas
que difundem o caminhar cambaleante,
no dropar por ondas inequívocas, quase imaculadas.

Histórias deslizam pelas convulsões do mundo
num sentido que não se traduz…

E o tempo alenta com a energia dos furacões
pra demonstrar poder no exato instante
do regurgitar da prosa em versos.

Pelos desejos mais intransponíveis
na tormenta avassaladora de suas mal digeridas perdas,

infringe assim, o narrador vigente
em dissidência vertente sobre a mesma estrada,
apenas para mascarar a história que se faz longilínea, viceral…

Ao brindar, transparente e lânguido,
dos lábios em busca de delicados vitrais
que transbordam cores e sabores
pelo cálice do vinho.

Sandra Barbosa de Oliveira

Sobre um voar

Para ler … ouvindo !!!

*

Apenas em sonho
sou uma ave a navegar
nas nuvens de um bem-querer
abstrato

Mas o meu sobrevoar suave
rabisca no céu um único nome
num desejo inconsequente
de pousar uma das mãos
num doce toque

E na lembrança de um olhar  (in)fundo
e comovente

Mas é apenas o planar de um sonho
errante
na contramão de uma nave
incandescente
a divagar sobretudo a sorte
desse encontro

Como um deslizar no azul do céu
delineando a própria sombra sobre o mar
e adormecer numa obscura noite
infinda de luar

Mas é apenas um sonho
abstrato
com um bem-querer inerente
em muitas vezes insurgente
numa noite vazia onde o luar se esconde
sob o abastar do seu silenciar obstante.

E foi assim, foi ali …

A TV era em preto e branco.
A rádio era a Excelsior de São Paulo, que tocava “música importada”. O sabor era o de Gintan. Raito de Sol era o bronzeador. O incenso de Lótus e o perfume, não me lembro, mas tinha que ser da Argentina. Sonhávamos.
A novela era Beto Rockfeller, que dava as dicas do que acontecia na noite paulistana, no Clube Pinheiros, na boate Tom Tom Macoute. Carro… acho que era o Gordini. De preferência amarelo, uma referência a um piloto de Interlagos.
O esporte favorito da molecada era o autorama. A vitrola mais popular era a Sonata, fabricada em Campinas.
Ser “chic” em Jundiaí era ter uma vitrola portátil da Philips, lógico, comprada nas lojas Magalhães, ao lado do Cine Ipiranga, palco das primeiras pegadas na mão da namorada, do primeiro beijo, tendo como testemunha um filme do Mazaropi na tela.
Na esquina da frente era o Credi City, loja da família Farina e que também dava nome ao prédio onde moravam os irmãos Avalone. Na próxima quadra, a Paulicéia, ponto de encontro dos jovens da cidade.
Do lado oposto tinha a Praça Governador Pedro de Toledo, o Largo da Matriz.
No número 66 da praça tinha a “Agência Geral” de Eduardo Sacchi, fornecedor dos discos que tocavam nas vitrolas compradas na Magalhães e na própria “Agência Geral”. A loja ficava ao lado do Bar do Lula e da estação da Viação Cometa. No prédio acima, vivia a Eliana de Luca.

E foi assim nesse cenário que cresci. Vendo o entardecer, na frente da Catedral, com seus jardins maravilhosos e a fonte que, um dia, um prefeito mandou derrubar.
Ouvia o som barulhento das andorinhas, acompanhava o movimento das moças que saiam das escolas e passavam pela praça.
Conferia, como um chefe de estação, o horário de chegada e saída dos ônibus da Cometa e via quem chegava ou saia. Lembro-me de ter visto Roberto Carlos (o Rei) chegar ali para tocar no Cine Polytheama. No tempo do “Calhambeque”!
Foi ali que ganhei o maior presente que poderiam ter me dado. Aprendi a gostar de música com o melhor professor, meu pai.
Eu ouvia de tudo, Nelson Gonçalves que, aliás, foi quem inaugurou a “Agência Geral”, Trio Los Panchos, Elvis Presley, Bossa Nova, Os Beatles e toda a invasão do rock inglês, toda a Jovem Guarda, tangos, boleros, chá chá chás, música clássica, a invasão da música italiana, Pata Pata.
E foi ali também que criei, sem querer, minha web de relacionamento social. Conhecia todos e todos me conheciam. Do anãozinho elegante que fazia ponto diariamente no Cometa a prostitutas, ladrões, sambistas, cantores, músicos, galera das rádios Difusora e Santos Dumont, estudantes de outras escolas, todas as meninas, engraxates e motoristas de taxi.
Meu pai também era conhecido pelas bancas de artigos carnavalescos que tinha na loja, no Grêmio e, anos após, no Clube Jundiaiense. O depósito do material era na sala da frente de nossa casa da Engenheiro Monlevade. Era a Festa!
Caixas de serpentina, sacos e sacos de confeti e umas caixas grandes de madeira que traziam a marca RODOURO OURO que, para quem não sabe era o, na época popular, “Lança Perfume”. Ainda sinto o aroma de tais caixas e o barulho da farra que fazíamos, eu e meus irmãos, naquele cenário carnavalesco e inocente.
No tempo do Grêmio, eu ainda era muito pequeno, mas descolado. Descolado a ponto de receber, em minha casa, a dupla de palhaços Fuzarca e Torresmo para um café antes do show deles. A Rua Engenheiro Monlevade parou. E eu, naquele dia, era o cara mais importante da vizinhança.
No Grêmio também aprendi a gostar de carnaval e cheguei até a arrumar uma namorada, que morava no Cine Ideal, ao lado do Clube. Era a glória. O nome dela era Amélia, ou Maria Amélia, não me lembro. Mas linda o suficiente para entender que algo estava mudando em mim. Eu descobri que era romântico!
Outras músicas e namoradas apareceriam em minha vida. Além de muitos carnavais…

Marcos Sacchi
(Jornalista, DJ, radialista. Um eterno estudioso e profundo conhecedor da boa música)