Interrompendo as Buscas

Martha Medeiros

– “Assistindo ao ótimo ‘Closer – Perto demais’, me veio à lembrança um poema chamado ‘Salvação’, de Nei Duclós, que tem um verso bonito que diz: “Nenhuma pessoa é lugar de repouso”.

Volta e meia este verso me persegue, e ele caiu como uma luva para a história que eu acompanhava dentro do cinema, em que quatro pessoas relacionam-se entre si e nunca se dão por satisfeitas, seguindo sempre em busca de algo que não sabem exatamente o que é. Não há interação com outros personagens ou com as questões banais da vida. É uma egotrip que não permite avanço, que não encontra uma saída – o que é irônico, pois o maior medo dos quatro é justamente a paralisia, precisam estar sempre em movimento. Eles certamente assinariam embaixo: nenhuma pessoa é lugar de repouso.

Apesar dos diálogos divertidos, é um filme triste. Seco. Uma mirada microscópica sobre o que o terceiro milênio tem a nos oferecer: um amplo leque de opções sexuais e descompromisso total com a eternidade – nada foi feito pra durar. Quem não estiver feliz, é só fazer a mala e bater a porta. Relações mais honestas, mais práticas e mais excitantes. Deveria parecer o paraíso, mas o fato é que saímos do cinema com um gosto amargo na boca.

Com o tempo, nos tornamos pessoas maduras, aprendemos a lidar com as nossas perdas e já não temos tantas ilusões. Sabemos que não iremos encontrar uma pessoa que, sozinha, conseguirá corresponder 100% a todas as nossas expectativas ¿ sexuais, afetivas e intelectuais. Os que não se conformam com isso adotam o ‘rodízio’ e aproveitam a vida. Que bom, que maravilha, então deveriam sofrer menos, não? O problema é que ninguém é tão maduro a ponto de abrir mão do que lhe restou de inocência. Ainda dói trocar o romantismo pelo ceticismo, ainda guardamos resquícios dos contos de fada. Mesmo a vida lá fora flertando descaradamente conosco, nos seduzindo com propostas tipo “leve dois, pague um”, também nos parece tentadora a idéia de contrariar o verso de Duclós e encontrar alguém que acalme nossa histeria e nos faça interromper as buscas.

Não há nada de errado em curtir a mansidão de um relacionamento que já não é apaixonante, mas que oferece em troca a benção da intimidade e do silêncio compartilhado, sem ninguém mais precisar se preocupar em mentir ou dizer a verdade. Quando se está há muitos anos com a mesma pessoa, há grande chance de ela conhecer bem você, já não é preciso ficar explicando a todo instante suas contradições, seus motivos, seus desejos. Economiza-se muito em palavras, os gestos falam por si. Quer coisa melhor do que poder ficar quieto ao lado de alguém, sem que nenhum dos dois se atrapalhe com isso?

Longas relações conseguem atravessar a fronteira do estranhamento, um vira pátria do outro. Amizade com sexo também é um jeito legítimo de se relacionar, mesmo não sendo bem encarado pelos caçadores de emoções. Não é pela ansiedade que se mede a grandeza de um sentimento. Sentar, ambos, de frente pra lua, havendo lua, ou de frente pra chuva, havendo chuva, e juntos fazerem um brinde com as taças, contenham elas vinho ou café, a isso chama-se trégua. Uma relação calma entre duas pessoas que, sem se preocuparem em ser modernos ou eternos, fizeram um do outro seu lugar de repouso. Preguiça de voltar à ativa? Muitas vezes, é. Mas também, vá saber, pode ser amor.

E se Obama fosse africano?

Mia Couto

… “na realidade, só existe um modo de nos valorizarmos: é pelo trabalho, pela obra que formos capazes de fazer. (…) somos pobres. Ou melhor, fomos empobrecidos pela História, fomos também empobrecidos por nós próprios. A razão dos nossos actuais e futuros fracassos mora também dentro de nós. (…) somos produtores do nosso destino. (…) construtores de um tempo e de um lugar onde nascemos todos os dias. (…) antes vale andar descalço do que tropeçar com os sapatos dos outros.”

* Mia Couto é poeta e biólogo moçambicano e publica no Brasil pela Companhia das Letras, São Paulo.

Putas

BLOG DO FREITAS

” estamos eu, a Scheila e mais três bilhões de putas ralando diariamente na boquinha da garrafa.”

Por Talita Corrêa

Não sou a primeira. Não sou a última puta da história. Portanto, com a sua licença, um mergulho no submundo:

Nesta semana, UMA MOÇA DIREITA E DE FAMÍLIA resolveu divulgar (com fotos, baixarias e menções ao filho morto do casal) que (pausa para a hashtag) #estápegandoomaridodaScheilaCarvalho.
Uma internauta intelectual, virtuosa e virgem analisou o caso: “Pau que nasce torto nunca se endireita (Menina que requebra, mãe, pega na cabeça). Quem mandou ter um passado sujo como morena do ‘Tchan’? Nunca vai ter respeito. Sou dona de casa e meu marido não faria isso. Agora, que botou botox e virou uma puta velha, vai chorar!’’.

Li. Ri. E pensei: estamos eu, a Scheila e mais três bilhões de putas ralando diariamente na boquinha da garrafa.
Somos putas velhas, sim. Há mais…

Ver o post original 991 mais palavras

Imagem Viageira

Pablo Neruda
(trecho de prosa poética)

“Bem, as tardes ao cair na terra rompem-se em pedaços, se estrelam contra o solo. Daí esse ruído, esse vazio do crepúsculo terrestre, essa vozearia misteriosa que não é senão o esmagar-se vespertino do dia. Aqui, a tarde cai em silêncio letal, como o inclinar de uma escura entretela sobre a água. E a noite nos tapa os olhos de surpresa, sem que se ouçam os seus passos, querendo saber se foi reconhecida, ela, a infinita inconfundível.”

A maleta do meu pai

Orhan Pamuk

“O escritor é uma pessoa que passa anos tentando descobrir com paciência um segundo ser dentro de si, e o mundo que o faz ser quem é: quando falo de escrever, o que primeiro me vem à mente não é um romance, um poema ou uma tradição literária, mas uma pessoa que fecha a porta, senta-se diante da mesa e, sozinha, volta-se para dentro: cercada pelas suas sombras, constrói um mundo novo com as palavras. Esse homem – ou essa mulher – pode usar uma máquina de escrever, aproveitar as facilidades de um computador ou escrever com caneta no papel, como venho fazendo há trinta anos. Enquanto escreve, pode tomar chá ou café, ou fumar. De vez em quando, pode se levantar e olhar pela janela as crianças que brincam na rua e, se tiver sorte, contemplar algumas árvores e uma bela vista, ou apenas topar com uma parede escura.Pode escrever poemas, peças de teatro ou romances, como eu. Mas todas essas particularidades só vêm depois da decisão crucial de sentar-se diante da mesa e, pacientemente, voltar-se para dentro. Escrever é transformar em palavras esse olhar para dentro, estudar o mundo para o qual a pessoa se transporta quando se recolhe em si mesma – com paciência, obstinação e alegria.”

Um dos poemas mais lindos que li nos últimos dias

Desencontro

Jorge de Sena, 1919 // 1978. Portugal

Só quem procura sabe como há dias
de imensa paz deserta; pelas ruas
a luz perpassa dividida em duas:
a luz que pousa nas paredes frias,
outra que oscila desenhando estrias
nos corpos ascendentes como luas
suspensas, vagas, deslizantes, nuas,
alheias, recortadas e sombrias.

E nada coexiste. Nenhum gesto
a um gesto corresponde; olhar nenhum
perfura a placidez, como de incesto,

de procurar em vão; em vão desponta
a solidão sem fim, sem nome algum
que mesmo o que se encontra não se encontra.

O momento: uma maneira de viver! …

“O Iluminismo representa a saída dos seres humanos de uma tutelagem a qual estes mesmos impuseram a si. Tutelados são aqueles que se encontram incapazes de fazer uso da própria razão independentemente da direção de outrem. É-se culpado da própria tutelagem quando esta resulta não de uma deficiência do entendimento mas da falta de resolução e coragem para se fazer uso do entendimento independentemente da direção de outrem. Sapere aude! Tem coragem para fazer uso da tua própria razão! – esse é o lema do Iluminismo.”

Immanuel Kant (O que é o iluminismo?)

Manuel Castells analisa as manifestações em São Paulo

por Equipe Fronteiras … (via Jose Luiz Goldfarb)

Sociólogo espanhol, Manuel Castells esteve no Fronteiras do Pensamento 2013 para a conferência Redes de indignação e esperança, homônima à sua mais recente obra, a ser lançada no Brasil em setembro (editora Zahar). Em São Paulo, no preciso momento de sua fala no Teatro Geo (11/06), a Avenida Paulista era espaço de tensão entre a polícia militar e os manifestantes contra o aumento das passagens de ônibus. Questionado pelo público sobre o que estava acontecendo na cidade, Manuel Castells respondeu:

“Todos estes movimentos, como todos os movimentos sociais na história, são principalmente emocionais, não são pontualmente indicativos. Em São Paulo, não é sobre o transporte. Em algum momento, há um fato que traz à tona uma indignação maior. Por isso, meu livro se chama REDES de indignação e de esperança. O fato provoca a indignação e, então, ao sentirem a possibilidade de estarem juntos, ao sentirem que muitos que pensam o mesmo fora do quadro institucional, surge a esperança de fazer algo diferente. O quê? Não se sabe, mas seguramente não é o que está aí. Porque, fundamentalmente, os cidadãos do mundo não se sentem representados pelas instituições democráticas. Não é a velha história da democracia real, não. Eles são contra esta precisa prática democrática em que a classe política se apropria da representação, não presta contas em nenhum momento e justifica qualquer coisa em função dos interesses que servem ao Estado e à classe política, ou seja, os interesses econômicos, tecnológicos e culturais. Eles não respeitam os cidadãos. É esta a manifestação. É isso que os cidadãos sentem e pensam: que eles não são respeitados.

Então, quando há qualquer pretexto que possa unir uma reação coletiva, concentram-se todos os demais. É daí que surge a indicação de todos os motivos – o que cada pessoa sente a respeito da forma com que a sociedade em geral, sobretudo representada pelas instituições políticas, trata os cidadãos. Junto a isso, há algo a mais. Quando falo do espaço público, é o espaço em que se reúne o público, claro. Mas, atualmente, esse espaço é o físico, o urbano, e também o da internet, o ciberespaço. É a conjunção de ambos que cria o espaço autônomo. Porém, o espaço físico é extremamente importante, porque a capacidade do contato pessoal na grande metrópole está sendo negada constantemente. Há uma destituição sistemática do espaço público da cidade, que está sendo convertido em espaço comercial. Shopping centers não são espaços públicos, são espaços privados organizando a interação das pessoas em direção a funções comerciais e de consumo. Os cidadãos resistem a isso.

Veja que interessante é o caso da Praça Taksim e do Parque Gezi, em Istambul. Há meses, eles estão protestando contra a destruição do último parque no centro histórico da cidade, onde seria construído um shopping center, um complexo dedicado aos turistas, que nega aos jovens o espaço que poderiam ter para se relacionar com a natureza, para se reunir, para existir como cidadãos. Portanto, é a negação do direito básico à cidade. O direito, como disse Henri Lefebvre, de se reunir e ocupar um espaço sem ter que pagar, sem ter que consumir ou pedir permissão a autoridades. Por isso, tenta-se ultrapassar a lógica da liberdade na internet à liberdade no espaço urbano.

Eu não posso opinar diretamente sobre os movimentos que estão acontecendo neste momento aqui em São Paulo, mas há algumas características de tentar manifestar que a cidade é dos cidadãos. E este é o elemento fundamental em todas as manifestações que eu observei no mundo.

O que muda atualmente é que os cidadãos têm um instrumento próprio de informação, auto-organização e automobilização que não existia. Antes, se estavam descontentes, a única coisa que podiam fazer era ir diretamente para uma manifestação de massa organizada por partidos e sindicatos, que logo negociavam em nome das pessoas. Mas, agora, a capacidade de auto-organização é espontânea. Isso é novo e isso são as redes sociais. E o virtual sempre acaba no espaço público. Essa é a novidade. Sem depender das organizações, a sociedade tem a capacidade de se organizar, debater e intervir no espaço público.”

“Onde está meu amigo…

… que busco em todo lugar,
ao despertar da alvorada,
momento de estar só
e vigiar?

Quando chega o entardecer,
é ele que sigo buscando…
diante das minhas lembranças
meu coração amortece,
e sinto sua presença
nas sementes e nas flores.

Seu amor está em todo lugar,
por todo o ar…
sua voz, trazida pelo vento…
a mim parece chamar! …”

Ingmar Bergman ( adaptação livre – Morangos Silvestres – Suécia, 1957)

“The Genius of the Croud”

A primeira leitura do dia na semana que se inicia, é um poema com densidade “bukowiskiana”, tenso e intenso, sugerindo a inquietação própria do autor, numa visão crítica sobre a capacidade do ser humano na avaliação do semelhante.

“The Genius of the Croud”
(Tradução livre: Literatura Clandestina)

O GÊNIO DA MULTIDÃO

Há suficiente violência, traição,
ódio absurdo no ser humano comum
para abastecer qualquer exército
a qualquer dia.

E os melhores assassinos são aqueles
que pregam contra ele
e os que melhor odeiam são aqueles
que pregam o amor
e os melhores na guerra
– por fim – são aqueles que pregam
a paz.

Aqueles que pregam deus
precisam de deus
aqueles que pregam a paz
não têm paz
aqueles que pregam o amor
não têm amor

Cuidado com os pregadores
cuidado com os conhecedores
cuidado com aqueles que
sempre estão lendo livros
cuidado com aqueles que detestam
a pobreza ou estão orgulhosos dela
cuidado com aqueles rápidos na prece
porque eles precisam de preces em troca
cuidado com aqueles rápidos em censurar
eles têm medo daquilo que não conhecem

cuidado com aqueles que buscam
multidões constantes
eles não são nada sozinhos
cuidado com o homem comum
a mulher comum
cuidado com o amor deles
o amor deles é comum, busca o
comum

mas há genialidade no modo como odeiam
há genialidade suficiente no ódio
deles para matá-lo,
para matar qualquer um
por não desejarem a solidão
por não entenderem a solidão
tentarão destruir tudo
que seja diferente deles mesmos
por serem incapazes de criar arte
eles não entenderão a arte
considerarão o fracasso
como criadores
somente como uma falha do mundo
por serem incapazes de amar por completo
acreditarão que seu amor é
incompleto
e assim eles odiarão você
e o ódio deles será perfeito

como um diamante que cintila
como uma faca
como uma montanha
como um tigre
como cicuta

Sua mais fina arte.

Charles Bukowiski

“No que creem os que não creem”

Hoje, “folheando” a internet em busca de conhecimento, eu esbarrei num livro que li há 13 anos, cujo conteúdo se mantém atualíssimo, extremamente apropriado ao momento em que vivemos.

O escritor e filósofo Umberto Eco, um dos mais conceituados pensadores laicos, dos mais importantes semiólogos da atualidade e o Cardeal Carlo Maria Martini, então Arcebispo de Milão (1999), passaram um ano se correspondendo sobre assuntos como …

“A existência de Deus e a invenção de Deus, os fundamentos da ética e o respeito ao outro, as mulheres e o sacerdócio, a liberdade de escolha e de ação frente aos imperativos religiosos, o aborto, o respeito à vida, a engenheira genética, o apocalipse e a idéia de fim na cultura laica, a existência ou não de uma noção de esperança comum a crentes e não crentes.”

Cartas tansformadas em livro, interessante pela dualidade ideológica do debate, travado com total liberdade dialética, “No que creem os que não creem” é litaratura obrigatória para aqueles que sentem a necessidade de formar opinião acerca dos assuntos que envolvem religião e Ética, tão em voga nos dias de hoje.

É um livro de 160 páginas, editado pela Editora Record.
Vale a pena ler. Indico! …

Não há silêncio que não termine – Parte I

“Estou só. Ninguém me olha. Finalmente, sozinha comigo mesma. Nessas horas de silêncio que adoro, falo comigo e rememoro (…) Estou livre e choro. De felicidade e de tristeza, de honra e de gratidão. Tornei-me um ser complexo. Não consigo mais sentir uma emoção de cada vez, estou dividida entre contrários que me habitam e me sacodem. Sou dona de mim mesma, mas pequena e frágil, humilde pois consciente demais de minha vulnerabilidade e de minha inconsequência. E minha solidão me descansa. Sou a única responsável por minhas contradições. Sem precisar me esconder, sem o peso daquele que escarnece, que late ou que morde.” (Não há silêncio que não termine – Ingrid Betancourt – Companhia das Letras – 2010.)

“The Genius of the Croud”

A primeira leitura do dia na semana que se inicia, é um poema com densidade “bukowiskiana”, tenso e intenso, sugerindo a inquietação própria do autor, numa visão crítica sobre a capacidade do ser humano na avaliação do semelhante.

“The Genius of the Croud”
(Tradução livre: Literatura Clandestina)

O GÊNIO DA MULTIDÃO

Há suficiente violência, traição,
ódio absurdo no ser humano comum
para abastecer qualquer exército
a qualquer dia.

E os melhores assassinos são aqueles
que pregam contra ele
e os que melhor odeiam são aqueles
que pregam o amor
e os melhores na guerra
– por fim – são aqueles que pregam
a paz.

Aqueles que pregam deus
precisam de deus
aqueles que pregam a paz
não têm paz
aqueles que pregam o amor
não têm amor

Cuidado com os pregadores
cuidado com os conhecedores
cuidado com aqueles que
sempre estão lendo livros
cuidado com aqueles que detestam
a pobreza ou estão orgulhosos dela
cuidado com aqueles rápidos na prece
porque eles precisam de preces em troca
cuidado com aqueles rápidos em censurar
eles têm medo daquilo que não conhecem

cuidado com aqueles que buscam
multidões constantes
eles não são nada sozinhos
cuidado com o homem comum
a mulher comum
cuidado com o amor deles
o amor deles é comum, busca o
comum

mas há genialidade no modo como odeiam
há genialidade suficiente no ódio
deles para matá-lo,
para matar qualquer um
por não desejarem a solidão
por não entenderem a solidão
tentarão destruir tudo
que seja diferente deles mesmos
por serem incapazes de criar arte
eles não entenderão a arte
considerarão o fracasso
como criadores
somente como uma falha do mundo
por serem incapazes de amar por completo
acreditarão que seu amor é
incompleto
e assim eles odiarão você
e o ódio deles será perfeito

como um diamante que cintila
como uma faca
como uma montanha
como um tigre
como cicuta

Sua mais fina arte.

Charles Bukowiski

Thrive … the world is waking up!

Pra prestar muita atenção. Rever os valores. Conceitos. Rever atitudes. Pensar. Agir! … Mudar

Amor Maduro

(Artur da Távola)

O amor maduro não é menor em intensidade.
Ele é apenas silencioso. Não é menor em extensão.
É mais definido colorido e poetizado.
Não carece de demonstrações:
Presenteia com a verdade do sentimento.
Não precisa de presenças exigidas:
amplia-se com as ausências significantes.

O amor maduro tem e quer problemas, sim, como tudo.
Mas vive dos problemas da felicidade.
Problemas da felicidade são formas
trabalhosas de construir o bem, o prazer.
Problemas da infelicidade não interessam ao amor maduro.
Na felicidade está o encontro de peles, o ficar com o gosto da boca
e do cheiro do outro – está a compreensão antecipada, a adivinhação,
o presente de valor interior, a emoção vivida em conjunto,
os discursos silenciosos da percepção, o prazer de conviver,
o equilíbrio de carne e de espírito.

O amor maduro é a valorização do melhor do outro
e a relação com a parte salva de cada pessoa.
Ele vive do que não morreu, mesmo tendo ficado para depois,
vive do que fermentou criando dimensões novas
para sentimentos antigos, jardins abandonados, cheios de sementes.
Ele não pede, tem.
Não reivindica, consegue.
Não percebe, recebe.
Não exige, oferece.
Não pergunta, adivinha.
Existe, para fazer feliz.

O amor maduro cresce na verdade e se esconde a cada auto-ilusão,
basta-se com o todo do pouco. Não precisa e nem quer nada do muito.
Está relacionado com a vida e por isso mesmo é incompleto,
por isso é pleno em cada ninharia por ele transformada em paraíso.
É feito de compreensão, música e mistério.
É a forma sublime de ser adulto e a forma adulta de ser sublime e criança.
É o sol de outono: nítido, mas doce.
Luminoso, sem ofuscar.
Suave, mas definido.
Discreto, mas certo.

Uma definição autêntica …

“Filho é um ser que nos emprestaram para um curso intensivo de como amar alguém além de nós mesmos, de como mudar nossos piores defeitos para darmos os melhores exemplos e de aprendermos a ter coragem.
Isso mesmo!
Ser pai ou mãe é o maior ato de coragem que alguém pode ter, porque é se expor a todo tipo de dor, principalmente da incerteza de estar agindo corretamente e do medo de perder algo tão amado.
Perder? Como?
Não é nosso, recordam-se?
Foi apenas um empréstimo!”

José Saramago

Desculpe, morri

Marcelo Rubens Paiva

*

Atendo o telefone e:

“Boa noite, é… Marcelo?”
“Quem é?”
“É você?”
“Quem está falando?”
“Puxa, que bom, eu precisava tanto falar com você, não imagina o trabalhão que deu pra descolar o seu…”
“Quer falar com quem?”
“Com você mesmo, Cariri.”
“Cariri?”
“Não era o teu apelido em Santos?”
“Como você sabe?”
“Pesquisei. Apelido louco. Por que te deram esse apelido?”
“Olha, o que você quer?”
“Sou estudante e estou fazendo um trabalho.”
“Como você descolou o meu telefone?”
“Desculpe, Cariri. A pessoa que me deu pediu para não ser identificada. Você é uma figurinha difícil de achar, hein? Marcelão, Marcelão… Como vão as coisas?”
“Indo.”
“O seu Corinthians, hein?”
“Meu e de muita gente.”
“E a Ana?”
“Ana?”
“A do livro.”
“Que livro?”
“Como ‘que livro’? O seu livro!”
“Qual deles?”
“Tem mais que um?”
“Tem alguns.”
“Caramba! Estou falando do primeiro. Tinha a Ana, que namorava você na época da ditadura.”
“Ah. Não se chamava Ana. Nunca mais vi.”
“Puxa, mas vocês eram tão…”
“Ligados? Mas isso faz tempo, era ditadura ainda. Éramos adolescentes.”
“E a galera toda?”
“Qual?”
“A do livro?”
“Sei lá. Faz décadas isso.”
“A Bianca, a Gorda?”
“Cara, estes nomes são inventados. Cada um foi para o seu lado. O mundo gira, a caravana passa.”
“Que caravana?”
“Deixa pra lá.”
“Pô, você é doidão, mesmo. Quanto tempo você levou pra escrever?”
“O quê?”
“Como o quê? O Feliz Ano Passado?”
“Ah… Levei um ano.”
“Pô, e você ficou uma fera com aquela enfermeira. Meu, rolei de rir naquela parte. Marcelão, que figura. A gente tem que se conhecer, cara, temos muitas coisas em comum.”
“Sério?”
“Com certeza, pô, posso falar? Este livro marcou uma época, ta ligado? Tipo assim, marcou uma geração, certo?”
“Ouvi dizer.”
“Então, como vão as coisas?”
“Indo.”
“Pô, conta mais.”
“É que estou jantando.”
“Ah… Olha só. Eu preciso te entrevistar, cara. Pro meu trabalho de TCC, tá ligado? Trabalho de Conclusão de Curso.”
“Tô ligado.”
“Aí, vamos marcar?”
“Cara, não fica chateado, mas é a quinta pessoa que liga nessa semana pedindo, e não vai dar. Fim de ano, é sempre assim, um monte de estudantes liga, e tenho minha rotina, eu trabalho muito, não é pessoal, vê se me entende.”
“Ah, não vai dizer que vai regular?”
“Cara, é muita gente, não dá pra atender todos…”
“São só umas 25 perguntinhas.”
“Só?”
“Sobre a sua carreira, seus livros, as influências, a ditadura, o seu pai, tortura, desaparecidos, esses lances, a condição dos deficientes, os jovens no mundo de hoje, a diferença entre os jovens da sua época e os de agora, fala do Renato Russo, você era amigo dele, não era? Será só imaginação, me amarro, cara, será que vamos conseguir vencer, será que é tudo isso em vão, você conheceu o Cazuza? Como era, tipo assim, o ambiente naquela época das passeatas dos estudantes? Nós vimos o filme do Cazuza e debatemos na escola a aids e os anos 80, cara, aí, você fala da importância dos livros para os jovens, de como fazer os jovens lerem mais, compara a geração cara-pintada com a da antiglobalização, Fórum Social, falta bandeiras, certo? O Protocolo de Kioto tá aí! Viu os furacões? Os americanos têm que assinar, tá ligado? Pô, deu na seca aqui da Amazônia. Posso mandar as perguntas por e-mail, a gente fala dessa crise aí do PT, você tá acompanhando, não tá? Você ainda curte política? Mó decepção…”
“Cara, não vai dar.”
“Pô, Cariri, você me pareceu um cara legal pelos seus livros.”
“Olha, quando eu estudava, fiz um trabalho enorme sobre lógica aristotélica. Aí, liguei pra Grécia, pra falar com o Aristóteles? Não. Tive que me virar.”
“Que que tem a ver, cara?! Tu é doidão mesmo, aí, ó! Tu fala grego, maluco?!”
“Fiz um trabalho sobre Kafka na escola. Nunca pensei em ligar pra casa dele em Praga.”
“Por que não?”
“Porque ele morreu em 1924! O Machado de Assis também morreu. Ninguém na escola ligaria pra casa dele na hora do almoço ou jantar pra perguntar se Capitu era fi el ou não!”
“Calma aí, meu. Nem tinha telefone naquela época.”
“Olha, vai à sua biblioteca ou use a internet. Não precisa entrevistar o autor para fazer trabalhos. Descobre você.”
“Quer dizer que depois da fama tu ficou convencido. Desculpe aí, cara, foi mal. Nunca mais leio um livro seu. Aí, ó, sabe quem morreu pra você? Eu. Tá se achando, Cariri?!

Sexo e luz – Gal e Lokua Kanza

Quando o Sol
Abaixou
Num dia tão monótono,
A paixão
Me deixou
Atônito.

Me tirou
Da rotina,
E num momento único,
Alterou
Meu destino
De súbito.

Aí,
Saí do vale do meu tormento,
E fui
Cair no lago do teu amor;
Ali,
Aliviei todo o meu sofrimento,
E ui,
Me vi gemendo de prazer que nem de dor.

Enfim, lancei
De mim um grito;
E em ti, fui um
Com o infinito.

E no céu
Do meu eu,
No íntimo, no âmago,
Acendeu
Um límpido
Relâmpago.

No ápice,
Em átimos
Que pareceram séculos,
Eu me banhei
E me lavei
Em sexo e luz.

Então,
Além do monte, além do horizonte,
Oh sim,
Além do mundo, além da razão,
Oh não,
Bebi do poço sem fundo, da fonte
Sem fim,
O poço do desejo, a fonte da paixão.

Enfim, lancei
De mim um grito;
E em ti, fui um
Com o infinito.

Composição: Lobua Kanza/ Carlos Rennó