comportamento, momentos, outros autores, reflexão, Sandra Barbosa de Oliveira 2

Interrompendo as Buscas

Martha Medeiros

– “Assistindo ao ótimo ‘Closer – Perto demais’, me veio à lembrança um poema chamado ‘Salvação’, de Nei Duclós, que tem um verso bonito que diz: “Nenhuma pessoa é lugar de repouso”.

Volta e meia este verso me persegue, e ele caiu como uma luva para a história que eu acompanhava dentro do cinema, em que quatro pessoas relacionam-se entre si e nunca se dão por satisfeitas, seguindo sempre em busca de algo que não sabem exatamente o que é. Não há interação com outros personagens ou com as questões banais da vida. É uma egotrip que não permite avanço, que não encontra uma saída – o que é irônico, pois o maior medo dos quatro é justamente a paralisia, precisam estar sempre em movimento. Eles certamente assinariam embaixo: nenhuma pessoa é lugar de repouso.

Apesar dos diálogos divertidos, é um filme triste. Seco. Uma mirada microscópica sobre o que o terceiro milênio tem a nos oferecer: um amplo leque de opções sexuais e descompromisso total com a eternidade – nada foi feito pra durar. Quem não estiver feliz, é só fazer a mala e bater a porta. Relações mais honestas, mais práticas e mais excitantes. Deveria parecer o paraíso, mas o fato é que saímos do cinema com um gosto amargo na boca.

Com o tempo, nos tornamos pessoas maduras, aprendemos a lidar com as nossas perdas e já não temos tantas ilusões. Sabemos que não iremos encontrar uma pessoa que, sozinha, conseguirá corresponder 100% a todas as nossas expectativas ¿ sexuais, afetivas e intelectuais. Os que não se conformam com isso adotam o ‘rodízio’ e aproveitam a vida. Que bom, que maravilha, então deveriam sofrer menos, não? O problema é que ninguém é tão maduro a ponto de abrir mão do que lhe restou de inocência. Ainda dói trocar o romantismo pelo ceticismo, ainda guardamos resquícios dos contos de fada. Mesmo a vida lá fora flertando descaradamente conosco, nos seduzindo com propostas tipo “leve dois, pague um”, também nos parece tentadora a idéia de contrariar o verso de Duclós e encontrar alguém que acalme nossa histeria e nos faça interromper as buscas.

Não há nada de errado em curtir a mansidão de um relacionamento que já não é apaixonante, mas que oferece em troca a benção da intimidade e do silêncio compartilhado, sem ninguém mais precisar se preocupar em mentir ou dizer a verdade. Quando se está há muitos anos com a mesma pessoa, há grande chance de ela conhecer bem você, já não é preciso ficar explicando a todo instante suas contradições, seus motivos, seus desejos. Economiza-se muito em palavras, os gestos falam por si. Quer coisa melhor do que poder ficar quieto ao lado de alguém, sem que nenhum dos dois se atrapalhe com isso?

Longas relações conseguem atravessar a fronteira do estranhamento, um vira pátria do outro. Amizade com sexo também é um jeito legítimo de se relacionar, mesmo não sendo bem encarado pelos caçadores de emoções. Não é pela ansiedade que se mede a grandeza de um sentimento. Sentar, ambos, de frente pra lua, havendo lua, ou de frente pra chuva, havendo chuva, e juntos fazerem um brinde com as taças, contenham elas vinho ou café, a isso chama-se trégua. Uma relação calma entre duas pessoas que, sem se preocuparem em ser modernos ou eternos, fizeram um do outro seu lugar de repouso. Preguiça de voltar à ativa? Muitas vezes, é. Mas também, vá saber, pode ser amor.

Anúncios
ciências políticas, Ciências Sociais, cidadania, comportamento, Cultura, dia-a-dia, Educação, Literatura, momentos, outros autores, Política, realidade, reflexão, Sandra Barbosa de Oliveira 2

E se Obama fosse africano?

Mia Couto

… “na realidade, só existe um modo de nos valorizarmos: é pelo trabalho, pela obra que formos capazes de fazer. (…) somos pobres. Ou melhor, fomos empobrecidos pela História, fomos também empobrecidos por nós próprios. A razão dos nossos actuais e futuros fracassos mora também dentro de nós. (…) somos produtores do nosso destino. (…) construtores de um tempo e de um lugar onde nascemos todos os dias. (…) antes vale andar descalço do que tropeçar com os sapatos dos outros.”

* Mia Couto é poeta e biólogo moçambicano e publica no Brasil pela Companhia das Letras, São Paulo.

comportamento, crônica, desabafo, momentos, outros autores, reflexão, Sandra Barbosa de Oliveira 2

Putas

BLOG DO FREITAS

” estamos eu, a Scheila e mais três bilhões de putas ralando diariamente na boquinha da garrafa.”

Por Talita Corrêa

Não sou a primeira. Não sou a última puta da história. Portanto, com a sua licença, um mergulho no submundo:

Nesta semana, UMA MOÇA DIREITA E DE FAMÍLIA resolveu divulgar (com fotos, baixarias e menções ao filho morto do casal) que (pausa para a hashtag) #estápegandoomaridodaScheilaCarvalho.
Uma internauta intelectual, virtuosa e virgem analisou o caso: “Pau que nasce torto nunca se endireita (Menina que requebra, mãe, pega na cabeça). Quem mandou ter um passado sujo como morena do ‘Tchan’? Nunca vai ter respeito. Sou dona de casa e meu marido não faria isso. Agora, que botou botox e virou uma puta velha, vai chorar!’’.

Li. Ri. E pensei: estamos eu, a Scheila e mais três bilhões de putas ralando diariamente na boquinha da garrafa.
Somos putas velhas, sim. Há mais…

Ver o post original 991 mais palavras

Contos e crônicas, Literatura, outros autores, Sandra Barbosa de Oliveira 2

Imagem Viageira

Pablo Neruda
(trecho de prosa poética)

“Bem, as tardes ao cair na terra rompem-se em pedaços, se estrelam contra o solo. Daí esse ruído, esse vazio do crepúsculo terrestre, essa vozearia misteriosa que não é senão o esmagar-se vespertino do dia. Aqui, a tarde cai em silêncio letal, como o inclinar de uma escura entretela sobre a água. E a noite nos tapa os olhos de surpresa, sem que se ouçam os seus passos, querendo saber se foi reconhecida, ela, a infinita inconfundível.”

Contos e crônicas, Literatura, outros autores, reflexão, Sandra Barbosa de Oliveira 2

A maleta do meu pai

Orhan Pamuk

“O escritor é uma pessoa que passa anos tentando descobrir com paciência um segundo ser dentro de si, e o mundo que o faz ser quem é: quando falo de escrever, o que primeiro me vem à mente não é um romance, um poema ou uma tradição literária, mas uma pessoa que fecha a porta, senta-se diante da mesa e, sozinha, volta-se para dentro: cercada pelas suas sombras, constrói um mundo novo com as palavras. Esse homem – ou essa mulher – pode usar uma máquina de escrever, aproveitar as facilidades de um computador ou escrever com caneta no papel, como venho fazendo há trinta anos. Enquanto escreve, pode tomar chá ou café, ou fumar. De vez em quando, pode se levantar e olhar pela janela as crianças que brincam na rua e, se tiver sorte, contemplar algumas árvores e uma bela vista, ou apenas topar com uma parede escura.Pode escrever poemas, peças de teatro ou romances, como eu. Mas todas essas particularidades só vêm depois da decisão crucial de sentar-se diante da mesa e, pacientemente, voltar-se para dentro. Escrever é transformar em palavras esse olhar para dentro, estudar o mundo para o qual a pessoa se transporta quando se recolhe em si mesma – com paciência, obstinação e alegria.”