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Um dos poemas mais lindos que li nos últimos dias

Desencontro

Jorge de Sena, 1919 // 1978. Portugal

Só quem procura sabe como há dias
de imensa paz deserta; pelas ruas
a luz perpassa dividida em duas:
a luz que pousa nas paredes frias,
outra que oscila desenhando estrias
nos corpos ascendentes como luas
suspensas, vagas, deslizantes, nuas,
alheias, recortadas e sombrias.

E nada coexiste. Nenhum gesto
a um gesto corresponde; olhar nenhum
perfura a placidez, como de incesto,

de procurar em vão; em vão desponta
a solidão sem fim, sem nome algum
que mesmo o que se encontra não se encontra.

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O momento: uma maneira de viver! …

“O Iluminismo representa a saída dos seres humanos de uma tutelagem a qual estes mesmos impuseram a si. Tutelados são aqueles que se encontram incapazes de fazer uso da própria razão independentemente da direção de outrem. É-se culpado da própria tutelagem quando esta resulta não de uma deficiência do entendimento mas da falta de resolução e coragem para se fazer uso do entendimento independentemente da direção de outrem. Sapere aude! Tem coragem para fazer uso da tua própria razão! – esse é o lema do Iluminismo.”

Immanuel Kant (O que é o iluminismo?)

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Manuel Castells analisa as manifestações em São Paulo

por Equipe Fronteiras … (via Jose Luiz Goldfarb)

Sociólogo espanhol, Manuel Castells esteve no Fronteiras do Pensamento 2013 para a conferência Redes de indignação e esperança, homônima à sua mais recente obra, a ser lançada no Brasil em setembro (editora Zahar). Em São Paulo, no preciso momento de sua fala no Teatro Geo (11/06), a Avenida Paulista era espaço de tensão entre a polícia militar e os manifestantes contra o aumento das passagens de ônibus. Questionado pelo público sobre o que estava acontecendo na cidade, Manuel Castells respondeu:

“Todos estes movimentos, como todos os movimentos sociais na história, são principalmente emocionais, não são pontualmente indicativos. Em São Paulo, não é sobre o transporte. Em algum momento, há um fato que traz à tona uma indignação maior. Por isso, meu livro se chama REDES de indignação e de esperança. O fato provoca a indignação e, então, ao sentirem a possibilidade de estarem juntos, ao sentirem que muitos que pensam o mesmo fora do quadro institucional, surge a esperança de fazer algo diferente. O quê? Não se sabe, mas seguramente não é o que está aí. Porque, fundamentalmente, os cidadãos do mundo não se sentem representados pelas instituições democráticas. Não é a velha história da democracia real, não. Eles são contra esta precisa prática democrática em que a classe política se apropria da representação, não presta contas em nenhum momento e justifica qualquer coisa em função dos interesses que servem ao Estado e à classe política, ou seja, os interesses econômicos, tecnológicos e culturais. Eles não respeitam os cidadãos. É esta a manifestação. É isso que os cidadãos sentem e pensam: que eles não são respeitados.

Então, quando há qualquer pretexto que possa unir uma reação coletiva, concentram-se todos os demais. É daí que surge a indicação de todos os motivos – o que cada pessoa sente a respeito da forma com que a sociedade em geral, sobretudo representada pelas instituições políticas, trata os cidadãos. Junto a isso, há algo a mais. Quando falo do espaço público, é o espaço em que se reúne o público, claro. Mas, atualmente, esse espaço é o físico, o urbano, e também o da internet, o ciberespaço. É a conjunção de ambos que cria o espaço autônomo. Porém, o espaço físico é extremamente importante, porque a capacidade do contato pessoal na grande metrópole está sendo negada constantemente. Há uma destituição sistemática do espaço público da cidade, que está sendo convertido em espaço comercial. Shopping centers não são espaços públicos, são espaços privados organizando a interação das pessoas em direção a funções comerciais e de consumo. Os cidadãos resistem a isso.

Veja que interessante é o caso da Praça Taksim e do Parque Gezi, em Istambul. Há meses, eles estão protestando contra a destruição do último parque no centro histórico da cidade, onde seria construído um shopping center, um complexo dedicado aos turistas, que nega aos jovens o espaço que poderiam ter para se relacionar com a natureza, para se reunir, para existir como cidadãos. Portanto, é a negação do direito básico à cidade. O direito, como disse Henri Lefebvre, de se reunir e ocupar um espaço sem ter que pagar, sem ter que consumir ou pedir permissão a autoridades. Por isso, tenta-se ultrapassar a lógica da liberdade na internet à liberdade no espaço urbano.

Eu não posso opinar diretamente sobre os movimentos que estão acontecendo neste momento aqui em São Paulo, mas há algumas características de tentar manifestar que a cidade é dos cidadãos. E este é o elemento fundamental em todas as manifestações que eu observei no mundo.

O que muda atualmente é que os cidadãos têm um instrumento próprio de informação, auto-organização e automobilização que não existia. Antes, se estavam descontentes, a única coisa que podiam fazer era ir diretamente para uma manifestação de massa organizada por partidos e sindicatos, que logo negociavam em nome das pessoas. Mas, agora, a capacidade de auto-organização é espontânea. Isso é novo e isso são as redes sociais. E o virtual sempre acaba no espaço público. Essa é a novidade. Sem depender das organizações, a sociedade tem a capacidade de se organizar, debater e intervir no espaço público.”

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“Onde está meu amigo…

… que busco em todo lugar,
ao despertar da alvorada,
momento de estar só
e vigiar?

Quando chega o entardecer,
é ele que sigo buscando…
diante das minhas lembranças
meu coração amortece,
e sinto sua presença
nas sementes e nas flores.

Seu amor está em todo lugar,
por todo o ar…
sua voz, trazida pelo vento…
a mim parece chamar! …”

Ingmar Bergman ( adaptação livre – Morangos Silvestres – Suécia, 1957)

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“The Genius of the Croud”

A primeira leitura do dia na semana que se inicia, é um poema com densidade “bukowiskiana”, tenso e intenso, sugerindo a inquietação própria do autor, numa visão crítica sobre a capacidade do ser humano na avaliação do semelhante.

“The Genius of the Croud”
(Tradução livre: Literatura Clandestina)

O GÊNIO DA MULTIDÃO

Há suficiente violência, traição,
ódio absurdo no ser humano comum
para abastecer qualquer exército
a qualquer dia.

E os melhores assassinos são aqueles
que pregam contra ele
e os que melhor odeiam são aqueles
que pregam o amor
e os melhores na guerra
– por fim – são aqueles que pregam
a paz.

Aqueles que pregam deus
precisam de deus
aqueles que pregam a paz
não têm paz
aqueles que pregam o amor
não têm amor

Cuidado com os pregadores
cuidado com os conhecedores
cuidado com aqueles que
sempre estão lendo livros
cuidado com aqueles que detestam
a pobreza ou estão orgulhosos dela
cuidado com aqueles rápidos na prece
porque eles precisam de preces em troca
cuidado com aqueles rápidos em censurar
eles têm medo daquilo que não conhecem

cuidado com aqueles que buscam
multidões constantes
eles não são nada sozinhos
cuidado com o homem comum
a mulher comum
cuidado com o amor deles
o amor deles é comum, busca o
comum

mas há genialidade no modo como odeiam
há genialidade suficiente no ódio
deles para matá-lo,
para matar qualquer um
por não desejarem a solidão
por não entenderem a solidão
tentarão destruir tudo
que seja diferente deles mesmos
por serem incapazes de criar arte
eles não entenderão a arte
considerarão o fracasso
como criadores
somente como uma falha do mundo
por serem incapazes de amar por completo
acreditarão que seu amor é
incompleto
e assim eles odiarão você
e o ódio deles será perfeito

como um diamante que cintila
como uma faca
como uma montanha
como um tigre
como cicuta

Sua mais fina arte.

Charles Bukowiski