InícioNove meses de mim …

Nove meses de mim …

Era só pra passar o Ano Novo.

A casa, fechada havia mais de um ano, vazia e em profunda solidão, já apresentava a cor do abandono. Abandono que se instalara nos corações desde a hora da partida pra São Paulo.

Para cumprir o calendário da festança, foram providenciados colchões de ar, microondas, cafeteira e panelas elétricas. Não havia fogão.

Allan, o jardineiro, nos providenciou uma geladeira de terceira mão, surradinha mas perfeita para a ocasião. Afinal, sem gelar a cerveja e o vinho não haveria como ficar ali um dia sequer.

A casa era muito bonita. Rabisquei o projeto, pensei cada detalhe, escolhi a posição dos janelões de acordo com a posição do sol e dos ventos terral e sudoeste em relação aos quartos e à grande sala envidraçada.

Que lugar …

Diante da deslumbrante montanha, ao lado do mar. Com céu de brigadeiro e noites estelares em profusão, num silêncio profundo apenas quebrado ao alvorecer pelo canto dos bem-te-vis, de um ou outro revoar de Araras , uma conversinha arredia de mico-estrela e toda espécie da selvageria que fazia um entardecer bucólico, naquele paraíso perdido na praia da Macumba.

Na sala, cadeiras de praia e o piano acústico emprestado do afinador que, quando tocado parecia fazer o céu reluzir dentro da sala vazia pela acústica perfeita. No quarto os colchões de ar e uma minúscula tv tendo a Globo como única a conseguir penetrar tamanha imensidão dentro do nada.

Cachorros soltos, minha vida solta. Havaianas nos pés, ar, poesia e céu azul. Música, muita música… nada mais.

Sem telefone, nem internet … celular sem sinal!

As torneiras estavam felizes com a água passando. As luzes acesas. O jardim florido, meu Jasmim perfumando, os Ipês que plantei e cuidei desde recém-nascidos já estavam imponentes em seus quase 10 metros de altura; eles dariam ínicio a minha tão sonhada “coleção de árvores”.

O aconchego dominava o ambiente, apesar de a casa estar vazia, com a carinha um pouco triste, um pouco castigada pelas chuvas, sentindo falta das gentes, dos barulhos do dia a dia, de crianças entrando e saindo, dos cachorros latindo. De minha Sula com sua gentileza ímpar … Das bombas da piscina batendo a água até o verde morrer para nascer um azul indescritível.

E foi neste clima que rompeu 2009.

As meninas foram logo pegando cada uma seu rumo e desaparecendo, até retormarem pra cidade em busca de confusão, trânsito e vai e vem desgovernado de gente desgovernada, o que alucina toda menina …

E eu resolvi ficar para uma pintura na casa, que acabou se estendendo para uma pequena reforma, que acabou por preceder uma grande reforma e eu fui ficando …

Com os colchões de ar, o microondas, panelas elétricas, a cafeteira, a micro tv, as roupas nas mochilas sendo lavadas no tanque e perfumadas ao sol pela brisa do mar, a balançar nos varais … e eu fui ficando.

De manhãzinha era café com prossecco na piscina acompanhado da festa dos cachorros, o entra e sai dos meninos do Allan que vinham limpar o jardim e os passos delicados do Julinho, o pintor, no telhado, por entre as telhas de barro (o Júlio além de excelente pintor que trabalhou em casa por dez anos, tocava sax e prestava vestibular para arquitetura).

À noite o Big Brother … opção singular.

Éramos eu, os cachorros, a reforma e uma imensa alegria por decobrir o pouco que precisava pra ser feliz.

Cheguei de volta a São Paulo em sete de setembro por ocasião dos oitenta anos de minha mãe.

Sai de casa para passar quinze dias na praia depois de ver romper o novo ano e voltei nove meses depois, com uma carga absoluta de mim, pois descobri que pode ser bom estar sozinha, o que preciso e o que não preciso para atingir a serenidade.

E que posso ser feliz com muito pouco !!!

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