Sandra Barbosa de Oliveira 2

Dignidade

Bom dia amigos, o dia está lindo. Hoje não é um dia especial pra mim. Nasci para desfrutar de certos privilégios. Fui uma menina agraciada com cuidado e carinho dos pais, fui mãe adolescente e tenho filhas maravilhosas, convivi com parceiros amorosos, nunca senti discriminação, tive acesso à excelentes escolas, educação de primeira e saúde, nunca vivênciei nenhum tipo de agressão, nem sofri nenhum tipo de violência física, não senti nenhum tipo de preconceito. Sou respeitada, onde quer que vá, por amigos, por pessoas desconhecidas, na rua, por todo canto. As pessoas me acham uma mulher bonita, inteligente, estou tentando me profissionalizar na minha área mesmo já estando na meia idade … acho que realmente fui agraciada por uma vida de privilégios e conforto e agradeço aos céus por isso. Mas isso tudo faz com que eu repense esses votos que recebo no dia de hoje, porque eu não simbolizo essa luta. Parabéns àquelas mulheres que verdadeiramente estão sofrendo o preconceito do mundo, dando o sangue por uma vida melhor, para que esse mundo lhes trate com dignidade. Que o dia de hoje seja especialmente dedicado a elas, por estarem sendo brutalmente oprimidas, discriminadas, abusadas, sacrificadas, violentadas, mutiladas, sob o mais estúpido e repugnante sonho de consumo em torno de uma bolsa da Loui Vuitton. Essas sim, são dignas de todas as homenagens.

Dia Internacional da mulher.

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Sandra Barbosa de Oliveira 2

Divagar em palavras

Encontrar a palavra certa nunca é uma tarefa fácil
Escrever é remeter-se a alusões
e fantasias … puras da ficção
Pareço-me tomada por verdades e mentiras
Ao ter a impressão de sucumbir aos céus
e me deixar cair ao sétimo inferno
a cada palavra reticente

Dar formato à escrita é uma espécie de viagem
por mundos desconhecidos
de arquitetura metafórica
que faz confundir o que está claro
com o que é indescritível

Através da palavra
sentimento mais profundo da expressão
é que encaminhamos nossos pensamentos
à contemplação …

A saber que contemplar é deixar-se invadir
por um observar lancinante
onde se obtém subitamente
o admirar lato sensu

A palavra é a explicação para todas as coisas
o aconchego nas horas amargas
a salvação das almas perdidas
sob a forma de oração

E a catarse de uma declaração de amor
onde a beleza sistina complementa toda a devoção
para que haja apenas
um compartilhar de emoções.

#forever, Sandra Barbosa de Oliveira

Eu tenho um amigo invisível …

Daqueles que, quando criança, a gente cria pra pinicar … pra andar, pra lá e pra cá, trocando olhares pra adivinhar quereres …

Um sentimento lúdico, transparente, sincero … Visão que temos de nós mesmos através da imagem de outra pessoa. De um interlocutor.

Como é bom sentir uma brisa encostando no rosto, sem querer saber de onde vem, nem pra onde vai … Como é bom poder pensar que essa brisa vem do mar.

Chega um tempo em que o mais importante é se sentir percebido, saber que a gente pode estar bem guardado, num pequenino pedaço … de um imenso coração.

Um amigo invisível vale muito mais do que mil brinquedos … por ficar ali ao seu lado … sempre e sempre … te olhando, calado.

E é sempre você quem começa a conversa, ao expor seus segredos entre bossas e beijos …

Da língua afiada nasce um bem-querer sem volta e meu amigo invisível começa a se fazer presença, ao ficar quietinho, espiando … ao mesmo tempo em que lapida palavras que fazem feliz.

Silencie, meu amigo invisível … não preciso de barulho.

Te aprecio nas palavras, mas me contento, apenas, em te sentir respirar.

Sandra Barbosa de Oliveira

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Trabalhe em torno de seu abismo

Há, no seu eu, um buraco profundo, como um precipício.
Você jamais conseguirá preencher esse abismo, porque suas demandas são inesgotáveis.
Você terá que trabalhar em torno dele de modo que, aos poucos, ele se feche.
Uma vez que o buraco é tão grande e sua angústia tão profunda, estará sempre tentado a fugir dele.
Há dois extremos que devem ser evitados:
Estar totalmente absorvido pela sua dor e, permitir que muitas outras coisas o distraiam e o afastem da ferida que quer cicatrizar.

Henri J.M. Nouwen

 

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O homem e a(s) mentira(s)

Decorreu no final do ano de 2006, na cidade do Porto, em Portugal, “o colóquio subordinado ao tema ‘O Homem e a(s) Mentira(s)’ organizado pela Sociedade Portuguesa de Psicanálise.Várias e interessantes foram as reflexões apresentadas pelos palestrantes. Salientaria fundamentalmente, sem qualquer demérito para as restantes, a posição do Dr. Jaime Milheiro, que foi o presidente honorário do colóquio, e que fez um alerta para os sinuosos perigos do casamento da mentira com a destruição:

‘(…) Há quem prefira chamar-lhe inverdade, versatilidade de opinião, informação insuficiente, imprecisão de pensamento ou outras delicadezas parecidas’, enfatizando que, ‘(…) a verdade, porém, é que nunca se mentiu tanto como agora, (…) seja para prejudicar outrem, enaltecer o ego ou omitir uma verdade inconveniente ou dolorosa, a mentira é aprendida na infância e faz parte do processo de crescimento. Pode até ser ” remédio para inúmeras complicações, dores e sofrimentos’, mas mais grave ainda, “está de tal forma vulgarizada que se chegou ao paradoxo que quem fala a verdade, nada consegue, enquanto o engano parece funcionar em todos os lugares – por vezes, sob o eufemismo de diplomacia – desde que servido numa baixela atractiva’!

Todavia o Dr. Jaime Milheiro foi mais longe e afirmou:
‘(…) a par do crescimento da mentira, assiste-se ao aumento da destruição, enquanto se fala cada vez mais de ética. Mentira e destruição têm o -estatuto de conjugalidade- e, juntas, tomaram conta da sociedade’.

A corroborar esta veemente comunicação, acresce a do Prof. Rui Coelho, professor da Faculdade de Medicina do Porto, que referiu:
‘a mentira nunca é legítima e não faz sentido falar de -mentira saudável- porque mentir prejudica a saúde mental de quem a pratica e está sempre associada à “desvalorização da capacidade de pensar do outro’.

No âmbito da personalidade dever-se-á ter presente que: ‘a mentira serve também para iludir um défice de narcisismo, ou seja, para esconder uma fragilidade do Eu, quando é sádica, a falsidade destrói relações e pode transformar-se em patologia.’

Sem mentiras, um colóquio deveras interessante. Menos verosímil ainda pensar-se sobre o exposto, quiçá pensar-se porque mentimos… um excelente exercício de introspecção.”

– por ammedeiros em Novembro 20, 2006.

http://ammedeiros.wordpress.com/2006/11/20/o-homem-e-as-mentiras/#comment-1293