Sandra Barbosa de Oliveira 2

Dignidade

Bom dia amigos, o dia está lindo. Hoje não é um dia especial pra mim. Nasci para desfrutar de certos privilégios. Fui uma menina agraciada com cuidado e carinho dos pais, fui mãe adolescente e tenho filhas maravilhosas, convivi com parceiros amorosos, nunca senti discriminação, tive acesso à excelentes escolas, educação de primeira e saúde, nunca vivênciei nenhum tipo de agressão, nem sofri nenhum tipo de violência física, não senti nenhum tipo de preconceito. Sou respeitada, onde quer que vá, por amigos, por pessoas desconhecidas, na rua, por todo canto. As pessoas me acham uma mulher bonita, inteligente, estou tentando me profissionalizar na minha área mesmo já estando na meia idade … acho que realmente fui agraciada por uma vida de privilégios e conforto e agradeço aos céus por isso. Mas isso tudo faz com que eu repense esses votos que recebo no dia de hoje, porque eu não simbolizo essa luta. Parabéns àquelas mulheres que verdadeiramente estão sofrendo o preconceito do mundo, dando o sangue por uma vida melhor, para que esse mundo lhes trate com dignidade. Que o dia de hoje seja especialmente dedicado a elas, por estarem sendo brutalmente oprimidas, discriminadas, abusadas, sacrificadas, violentadas, mutiladas, sob o mais estúpido e repugnante sonho de consumo em torno de uma bolsa da Loui Vuitton. Essas sim, são dignas de todas as homenagens.

Dia Internacional da mulher.

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Alucinações

Leia… ouvindo !!! …

*


Existe sempre um alguém elaborando a narrativa.
Se assim não fosse, as histórias não germinariam.

Lindas…

elas brotam e desabrocham,
para abrigar o pólen
que se entrega ao vento para salvaguardar a origem,
até encontrar o sublime momento do êxtase sensorial
que dará o sopro de vida à criação fecunda.

Mas histórias de vivências divergentes
vão sendo talhadas nas rampas do absurdo.

Ficção, descrença, medo, estranheza.
Sob técnicas de persuasão sonora,
onde as vozes viscerais derramam suas palavras
no tear de um destino encrudescido,

e vão sendo transportadas por trilhas
que difundem o caminhar cambaleante,
no dropar por ondas inequívocas, quase imaculadas.

Histórias deslizam pelas convulsões do mundo
num sentido que não se traduz…

E o tempo alenta com a energia dos furacões
pra demonstrar poder no exato instante
do regurgitar da prosa em versos.

Pelos desejos mais intransponíveis
na tormenta avassaladora de suas mal digeridas perdas,

infringe assim, o narrador vigente
em dissidência vertente sobre a mesma estrada,
apenas para mascarar a história que se faz longilínea, viceral…

Ao brindar, transparente e lânguido,
dos lábios em busca de delicados vitrais
que transbordam cores e sabores
pelo cálice do vinho.

Sandra Barbosa de Oliveira

Sandra Barbosa de Oliveira 2

A dialética de Caetano

Parte 1

Dentro da arte de dialogar, o discutir em defesa das próprias idéias garante sucessivos conflitos de opiniões que podem gerir novos conceitos a respeito do objeto em questão. E é nesse processo discursivo que se enquadra a definição de dialética.

Então, a despeito da definição de dialética, contrapõem-se diversas teorias, desde os tempos de Sócrates até os imediatos do século 21, em que filósofos e estudiosos das ciências sociais e políticas, pensam e repensam a sua sucetividade em torno do seu próprio conceito. Em suma, a dialética aplica a si mesma todo o movimento que designa ao campo das idéias.

Pensando assim, e associando a dialética ao discurso lógico, à hermenêutica e à lógica enquando argumentação, desde que seja a  discussão ininterrupta, é que se pode gerar uma conclusão a respeito do conflito.

Enfim,  posso dizer da minha epopéia em tentar argüir uma obra com seu autor, um privilégio que tive de contra-argumentar uma idéia com o nada pouco polêmico Caetano Emanuel Viana Teles Veloso.

Num cenário de pré-carnaval, a convite de Gil e Geléia Geral, num estúdio de ensaio em Salvador (fevereiro de 1997), por onde transitaram, Ivete, Daniela, Gal, Baby, Pepeu, Lulu, Milton, Djavan, Elba, Margareth, Dominguinhos, Mautner entre outros muitos músicos e artistas que  buscavam seus melhores tons para dar voz à grande festa tropicalista que se faria alguns dias depois, fui abordada pelas duas “backing vocals” da banda formada por Gil a respeito da  letra de uma das músicas que Caetano acabara de gravar:

“Não enche!”.  Uma letra agressiva  não só aos ouvidos como a qualquer ser, animado ou inanimado, em que o gênero admita a terminação “a”.

Fui a porta voz e questionei com um pedido de explicação.

Com sua letra um tanto quanto extravagante, a canção “Não Enche” diz tudo. Um autor de saco cheio, cansado de ser perseguido, criticado cruelmente durante anos, autuado junto ao seu legado a todo tipo de patifaria, oral e escrita, afirma com todas as letras a algumas testemunhas que dedicou toda a sua ira ali expressa ao seu maior desafeto: a Imprensa.

E com um ar nada menos patife, brinca com a irritação das mulheres alegando que ao chegar com a música em casa, diante da reação de sua mulher aos apelos machistas do poema, estendeu-a dizendo que o capuz poderia servir a quem quisesse, apesar de serem tão boas as suas intenções.

Parte 2

Porém, naquele dia, em respeito às imposições da hora, tive que me calar e  perdi a oportunidade de complementar meu raciocínio. Mesmo segura das minhas convicções precisei deixar de expor meus argumentos.  Eu estava fora de lugar.

Fiquei sem a conclusão do meu conflito, abandonei a hermenêutica, o discurso lógico, a lógica, as teorias, os conceitos e a dialética de Caetano.

Mas o que eu queria saber naquele momento, e faço a pergunta aqui e agora,  era que se, num  país como o nosso, diante da violência instigada, de tanta  violência contra a mulher, mediante toda a ignorância e falta de instrução, a população que ouve rádio e vê telenovela sabe dicernir se os insultos contidos na letra desta canção são mesmo para selar a  excêntrica, estúpida e polêmica relação de Caetano com a Imprensa.

???

Em tempo: Caetano Veloso, a meu ver,  além de ser uma das grandes expressões da música, no Brasil e no mundo, está entre os maiores formadores de opinião deste país.

Sandra Barbosa de Oliveira 2

Sobre o abismo

O quê eu poderia falar sobre o abismo?

Que é um buraco sem fim imensamente assustador?
Um cair infinitamente sem chão?
Aquele deslize momentâneo impossível de se livrar?
Um passo em falso para lugar nenhum?
Um lugar neutro onde colocamos as pessoas que amamos quando queremos fazer algo sem que elas vejam?
Outro lugar neutro de onde jamais conseguimos tirá-las?
O mesmo lugar para onde pulamos depois, sem sequer olhar?
Aquele mesmo de onde jamais conseguimos sair?
O que é o abismo afinal?

ABISMO:

1- Cavidade geralmente vertical com abertura na superfície da terra e fundo desconhecido.
2- Mistério, escuridão, ruína.
3- Situação difícil, distância extrema, último grau, extremo.

escrito e publicado às 00:22h, de não me lembro quando …

Sandra Barbosa de Oliveira 2

O outro

Como fazer para lidar com interpretações de identidades definidas por conceitos da visão subjetiva sendo que, em algum momento, paira sobre nós uma questão não tão compreensível: a relação com o outro.
A questão é: qual é o papel do outro em nossa vida?
O outro é o desconhecido, o enigmático. Um complemento, nosso lado oposto… o lado de fora; uma visão por outros olhos.
Tudo com relação ao outro é diferente em relação a nossa própria visão de mundo.
A individuação se contrapõe às necessidades do coletivo.
A pós-modernidade colocou o individuo a reserva de tudo o que não diz respeito aos seus conceitos interpretativos. 

O outro entra em afrontamento ao querer individual.
Como a visão de mundo, os conceitos adquiridos, a verdade, o conhecimento, a essência, tudo o que existe em nós é alheio ao outro…

Tudo o que não somos é o outro, e nos cabe à inobservância da exteriorização desse novo conceito. O que eu não vejo eu ignoro. O que não está em mim não existe.

 O individual num estado de ser absoluto. O meu entendimento, o meu discernimento acerca do que me basta. O outro serve de adorno. Faz parte da paisagem.
O outro é o lado de fora, outra realidade, o que eu não consigo ver em mim, e que diretamente me foge ao entendimento, um interagir quase indecifrável.
Meu discurso me atende e às necessidades do que eu sou, e o outro não me cabe em lugar nenhum.
Isto é o que o mundo nos impõe. Isto é o que o agora nos impõe.

Sandra Barbosa de Oliveira 2

Sobre um bem-querer

O  bem-querer é um sentimento profundo e, de sua natureza é ser quase tímido.  O mais fiel dos sentimentos.

Estreito em sua forma, objeto de um sujeito e único, um bem jamais tocável por outrem: Subjetivo, íntimo e próprio.

Ninguém pode jamais roubar um sentimento como este.

Você poderá roubar de alguém o amor, a razão, o coração…  Mas um bem-querer, jamais.

O bem-querer é apenas um gostar verdadeiro, que pode ser público, privado, às vezes tão inconfessável que secreto.

Inviolável

O que eu sei sobre o bem-querer?  Que é um gostar de verdade de alguém. 
Um gostar por gostar, sem querer nada em troca. Um querer… Sem querer.

Que fica guardado, no fundinho, intocado. Mas que de repente acorda a gente pra lembrar e ficar feliz… Só por lembrar.

Um sentir dos mais singelos e puros que existem, porque não depende de nada. Nadinha.

Um querer-bem pode nascer de um olhar ou de uma palavra de carinho… De um pequeno gesto ou de uma impressão que fica.

Mas vai ficar para sempre!

*

Escrito ás 18h58min de uma sexta-feira 13 em junho de 2008

Sandra Barbosa de Oliveira 2

Bom dia com alegria

Outro dia eu estava conversando com um amigo e ele me falou de seu estado de espírito, toda manhã quando acorda, levanta da cama e esbarra com a primeira pessoa que pela lógica da hora deve mesmo ser a sua mulher, e ouve o primeiro “bom dia”.

Com seu temperamento nada suave, somado às agruras do dia anterior, ele vai logo dizendo: “bom dia porquê?”.
Sem pensar no que pode pensar sua mulher numa hora destas, porque posta-se tão automaticamente à inerência de sua repentina surdez, vou logo refletindo sobre a falta de serenidade a que estamos todos envoltos desde as primeiras horas da manhã.
E é falando sobre essa serenidade, que abro agora esse espaço quase litúrgico, para que com toda a minha serenidade eu possa vir a me expressar e dar voz de expressão àqueles que quiserem compartilhar minhas idéias.
A palavra “serenidade” vem do latim “serenus” e quer dizer “ter paz de espírito, estar em harmonia, sem nuvens, límpido, claro”…..
Se todos pararmos para pensar no que representa esta clareza, essa transparência para o dia-a-dia de cada um, e em como podemos dar nossa contribuição para viabilizar um estado de confiança, tanto no âmbito social, no convívio famíliar como na política ou nas relações de trabalho…poderíamos até desconsiderar as considerações líqüido-modernas de Bauman.
Pois bem, como é com reflexão que se alcança um estado de conforto cognitivo…é preciso pensar, é preciso acertar.
É preciso estabelecer o movimento, aceitar as mudanças . E para podermos ter certeza de que, em nossas atitudes, conseguimos colocar transparência e serenidade, é que podemos começar a prover a mudança que tanto esperamos, começando por nossa própria vida.
E quanto ao meu amigo… ia me esquecendo de concluir sobre nossa coversa de outro dia… ele ainda ia me dizendo que, se ao levantar da cama, de se lembrar da tranquilidade com que passou o dia anterior, da suavidade em que adormeceu nos braços de sua mulher, sem agruras, sem drogas, sem conflitos…ao se levantar da cama e se encontrar com a primeira pessoa, seja ela sua mulher ou qualquer pessoa em quem esbarrar que lhe disser “bom dia”, ele não hesitará em responder serenamente:
“Bom dia com alegria!”


escrito em 21 de fevereiro de 2008.