O Palhaço II

A noite cai como uma luva. Meu coração é saltimbanco. Descumpre ordens. Quando chega o breu ele quer alimento. Saltita sem picadeiro. Dança, pula, quer diversão. Quer divertir. A noite zomba de mim, me espanta o sono. Leio, me entrego a melodias. Mas meu distanciamento de mim mesma não me concentra. Vou pra cozinha, corto cebolas. Mas nem assim consigo chorar. Ando sem graça. Sem risos, sem lágrimas. Minhas vontades estão distraídas também. Meus desejos acanhados. Nem prosa, nem versos. Nem tudo, nem nada. Como pode o poeta viver sem emoção? …

*

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O Palhaço I

*

Eu sou um palhaço

da vida

Alegria criança

E riso, e riso

tristeza coração.

Eu sou um palhaço da vida

ela acha graça de mim

e sonho, e sonho

chorando sempre.

Eu sou um palhaço

da vida…

e quero morrer

um palhaço !…

Escrito em setembro/79

*


Egberto Gismonti – Palhaço